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A FRASE E A GARRAFA

um poema de Álvaro de Campos

Marcus Alexandre Motta¹


RESUMO: o artigo se propõe a pensar a máxima de Lacoue-Labarthe — “a coragem da poesia é a prosa” —, a partir de um poema de só um verso que não se distingue de uma frase ordinária. Nesse sentido, o artigo busca compreender a beleza da indiferença do poema através da relação estabelecida com uma obra de arte contemporânea de Waltércio Caldas, “Garrafas com rolha”.



Palavras-chave: poema, ordinário, história e indiferença.

ABSTRACT: This article intends to think Lacoue-Labarthe’s maxim – “poetry’s courage is prose” -, from a poem made of only one verse that cannot be distinguished from an ordinary sentence. In this way, this article tries to comprehend the poem’s indifference beauty through the relation established with a Waltercio Caldas’ contemporary work of art, “Garrafas com rolha”.

Key Words: poem, ordinary, history and indifference


Aos poetas capazes de alterar até
mesmo o nome dos leitores.

(Waltércio Caldas)



A história é esta! Fui inspirado por uma falha de leitura. Lembra-se (é evidente que recorda) daquelas humanas situações que a envolvem quando se inscreve? Foi isso e mais nada que arrebentou as amarras da minha escolha. E, por isso, escolhi um poema de Álvaro de Campos. Transcrevo-o para arrematar uma conversa contigo e dizer como tenho andado: “Vou atirar uma bomba ao destino” (CAMPOS, 2002, p. 237)
Veja: um só verso. Um só verso, um poema? Um poema de um verso só. É. Um só verso e só. Só como figura que é: solapadora. As escolhas, quem nos livrará delas? Escolhi aquele. Escolhi por ser o que é: uma frase prosaica versada na ordinária decomposição de estar só como um verso. Se a palavra arte significa fazer, e se fazer significa escolher, então, torna-se necessário chegar à conclusão mais óbvia: arte significa escolha. Um poema de um só verso escolhe o que é e só— não crês?

Estou, com as evidências do seu olhar, em apuros por ter escolhido. Evidencio tais apuros: se o escolho, e se a arte é uma escolha, estaria eu nas imediações de uma artisticidade obrigatória? Sem dúvida. Obrigar-me-ia, com isso, ao fracasso do empenho no programa geral de redução, como faz o poema escolhido. Ou seja: o meu trabalho teria uma frase só como correspondência. Quantas consequências haveria em publicar uma frase só; porém, é necessário dizer, se isso fosse possível eu só poderia escrever: vou atirar uma bomba ao destino.


Escolhi o poema. A sua intenção poderia guiar as minhas variações narrativas quando ressaltasse os sinais de sua posição ao largo de uma sequência. Mas ela não há. O poema fica só. É-me, portanto, improdutivo estabelecer os seus sinais. Nem me cabe decidir qual é o lugar do encontro entre a ameaça e o que ele quer alcançar e nem, tampouco, dar sentido àquele breve preparo do “vou atirar”.

Encarecidamente, poderia pedir ajuda a noção de contexto: mas contexto é o que permite que algo como a intenção faça tanto e seja tão pouco (CAVELL, 2002, p.154). Acredito que comungues comigo essa arraigada escolha teórica. Há de se colocar em risco para defender uma escolha, não é?

***

A intenção do poema consiste em ameaçar, seja lá o que seja destino. De fato, ele parece mais querer alcançar a presença do destino sobre tudo, ou solapá-lo, pois sempre é aonde caímos, nós e os deuses, entregando a ameaça de maneira quase delicada: “ao destino”. Nesse ponto, meu pensamento é de que o poema gravita em torno da coragem. E como isso salta aos olhos, devo aceitar, perante você, a existência na minha mente da seguinte sentença: “a coragem da poesia é a prosa” (LACOUE-LABARTHE, 2000, p. 296).

Há de convires, nesse momento, no qual me empresta tua presença amiga, que eu pense ser o poema uma maneira de impugnar a distinção entre ditar toda indiferença à poesia em um só verso corajoso, e só, e mostrar uma ameaça “ao destino”. Se a sua cena é estar isolado, é admissível reconhecer que dita e mostra algo, indistintamente – digamos: com teatralidade prosaica—, que não pode ser a priori reconhecido como poema.

Quanta tarefa há nisso. Continua atenta. Se assim estás, levo meu pensamento mais simples: o poema de Álvaro promove a intuição do conhecimento da arte. Aceitemos, provisoriamente: o poema sabe e sabes disso. Sabes. Sabes o que ninguém sabe, o que ninguém quer saber, embora isso pertença a qualquer um na contemporaneidade que é a nossa.

***

O poema de Álvaro de um só verso, e só, dita haver uma idéia de poema mais fundamental. Esse mais fundamental, quem suporia, pode ser compreendido, aqui conversando, com a frase: vou atirar uma bomba ao destino . Sorriste? Devemos admitir: o poema de Álvaro de Campos nos surpreende pela facilidade da composição. Sua pronúncia é aparelhada por uma doutrina das semelhanças que existe ressoando em várias situações cotidianas que requerem alguma ameaça das palavras. Logo, o poema de um só verso se encontra muito próximo de nós. Embora exiba retidão, por estar escrito, poderíamos dizer: esse poema eu também escrevo.

Quanta indiferença há naquele verso para com a noção normativa de poesia — embora, muito já tenha sido feito na arte para dar largueza teórica a tal fato. Indiferença: basta apreender e deslocar a prosa do seu lugar e um verso acontece corajoso. Reinicio. É sempre importante reiniciar.

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Vamos lá: “vou atirar uma bomba ao destino.” Vê: ele não exclama. Poderia exclamar e ser mais facilmente reconhecida a sua poética. Se titubearmos, talvez, o recordaremos com ponto de exclamação. Mas essa pontuação ele não tem. Fica na tonalidade de um ponto final previsível como todos nós, desvestido de majestade. Com ponto final, o poema se assenta frasal. Afirma e esclarece ser a beleza da indiferença em ser verso. Uma frase prosaica, e, corajosamente, só: poema. De alguma maneira, o único verso conta a catástrofe.

A palavra catástrofe sugere excesso — deves pensar. Sem mais, catástrofe da linguagem. De quê? — perguntas! Da própria linguagem. Reflete comigo: o poema de Álvaro de Campos é sozinho como qualquer outro; só e tendo um só verso. Todo poema é só. Isolado (LACOUE-LABARTHE, 1998, p. 43). Poderia até dizer: solitário como cada um de nós, mas isso exigiria mais linhas e, assim mesmo, eu não conseguiria qualquer argumentação que não se apoiasse numa intuição.

Contudo, posso me apropriar de: “só é a palavra para dizer singularidade” (LACOUE-LABARTHE, 1998, p. 43). O dizer singular é já um risco, na razão direta da compressão que as palavras de cunho plural fazem, tendendo a apagar a experiência de risco que existe no somente. Ou seja: o poema está (devo falar delicadamente aos teus ouvidos) numa posição na qual a poesia — quase escrevo tu mesma — é estranha ao poema; como se ele, aqui o Álvaro, estivesse interditando a poesia, contando com a audácia de se fazer prosa.

Fui rápido, não é? Mas isso é necessário, tenho receio de falar muito. Mas o que vem a ser catástrofe da linguagem como a única matéria do poema? Deves estar te perguntando. Ante de mais nada, há de se assinalar: a linguagem é a catástrofe humana. Ninguém pode evitar essa verdade histórica do século xx. Digo: ninguém. Se não damos conta disso, o poema nos lembra. Eu falo para e o poema esquece o que é falado de. Contraria, portanto, qualquer expectativa discursiva; sincopa a linguagem.

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Espere um pouco: a catástrofe da linguagem é matéria do poema. Dá para compreender. Como? Basta ler: um poema está de alguma maneira “entre o silêncio e o discurso, entre o mutismo de dizer nada e o dizer muito da eloqüência” (LACOUE-LABARTHE, 1988, p. 56). Evita o silêncio e requer ser derrubado na prosa para encontrar a coragem de que necessita. Então, permitas: o poema de Álvaro de Campos fala da linguagem da singularidade, cuja individuação é mais radical. O poema de um só verso, e só, ameaça. Há, portanto, o ameaçado sempre: os acordos que a linguagem faz e não cumpre. Maneira, afirmo. Maneira para falar, em uma frase, a favor da causa do estranhamento à poesia, em nome do estranho verso para nós, redimindo o poematizar que na linguagem do ordinário há.

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Vou atirar uma bomba ao destino . A partir dessa frase ordinária tudo está exposto, embora ainda eu esteja apelando em demasia para certo lirismo romântico que está na frase como vírus encubado. Não há como diferenciar o verso de Álvaro da frase que minutei acima. Se assim é: a catástrofe da linguagem pode ser entendida e é possível reconhecê-la, e decidir a sorte do poema de Álvaro de Campos.

Há de convir, por conseguinte, que o poema deponha o mitológico que nos cerca ao falarmos de poesia, apontando “no sentido de uma conquista da objetividade e do concreto — isto é, tecnicamente (atenção ao advérbio de modo), no sentido de uma espécie literalizada, de um prosaísmo” (LACOUE-LABARTHE, 2000, 293). Mas essa citação ainda demarca uma esperança, percebes?

Minutei: vou atirar uma bomba ao destino . Nesse sentido frasal, há de expor a qualidade prosaica do verso; o valor de sua ousadia em estar relacionada com uma frase que qualquer um poderia minutar. Esse ato esgarça a sua inferência. Parece-me até (digo só para ti) que o verbo atirar precisa reconhecer o destino, antes do arremesso, como um tipo de sinônimo para as nossas vidas ordinárias. Por favor, esqueça isso por alguns segundos.

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Há dedicação na escrita do verso em assinalar as falsas necessidades de poesia ou as tuas — admite? Aceitemos: a frase é uma forma de autópsia da poesia e presságio de nosso destino, o ordinário. Nosso destino? O ordinário — gostaria de dizer em alto e bom som aos teus pés. Espere, há autópsia e presságio; o tom comum de todas as espécies de relações humanas. Se o ordinário é o nosso habitat, a mensagem do poema é a existência da intimidade geral do verso com a prosa. Isso notabiliza a ameaça como presságio e autópsia da frase: “a coragem da poesia é a prosa.”

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Cena prosaica: o poema do Álvaro se aproxima das “garrafas com rolha, uma espécie de provérbio de arte” (CALDAS, 2007, P.7). “Garrafas com rolha, uma espécie de provérbio de arte”, é uma idéia de poema mais fundamental. No caso, não há garrafas, mas uma garrafa com rolha, um verso, e só, uma frase e: um poema. É aí que está a questão maior. Perceba: ao escrever uma frase com as mesmas palavras do verso, o repeti, mas não o copiei, conforme o seu isolamento, rememorando a dádiva, a coragem, que existe na pronúncia das ameaças ordinárias e nos objetos quando oferecidos. Mas eles e elas não são versos. Não são?

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Raciocinemos: ao deslocar uma frase prosaica do campo de sua atuação para um espaço poético, temos um verso; logo, um poema. Nada a dizer sobre ele, por que já disse. Disse pouco e muito antes de qualquer um. Disse muito no pouco e vice-versa, como uma garrafa com rolha na mão de um mundano passageiro. Por instantâneo que seja a possibilidade do gole, o poema usufrui do redimensionamento da polaridade do muito e do pouco. Nada a saber, portanto? Bem, uma indiferença ao que se é já é alguma coisa artística em se tratando de arte.

Insisto: um poema não é alguma coisa que se pode domesticar na própria fé do que seja poesia, mesmo ao seu lado. Não haveria arte caso o contrário acontecesse — concordas? Direi abrindo as circunstâncias: o poema Álvaro de Campos é uma frase sólida.

Fiel como uma garrafa na mão de um abstinente — de um viciado, de um contestador, etc. — o poema fixa, precisa e define a pausa poética. Arrolha a arte e traça o indicativo de um gesto de ameaça que todo objeto, ou frase sólida, guarda. Ele: a beleza da indiferença — há de sair das mãos e ficar em outras mãos até encontrar o lixo que é o seu ambiente mais propício.

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Beleza da indiferença: o poema em um só verso e só. Todo poema é só. Mas este que está na nossa frente, reina indiferente à própria indiferença do que é: só. É por isso que posso denominá-lo pela expressão garrafa com rolha, pois esse objeto tem como alma a apresentação inequívoca de seu presente. Diria que o poema é uma coisa prosaica, com a mesma espécie de provérbio de arte que uma garrafa com rolha tem.

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Estás vendo como é possível haver um conceito mais fundamental de poema, basta supor uma analogia absurda, entrando na arte, e: garrafa com rolha — poderia ser o poema é um animal de Aristóteles, ou o ouriço de Derrida, ou o autômato de Celan, ou um novo ser vivo na compreensão de Pessoa; ou, ainda, a marca do reino animal do espírito como Hegel concebe.

Sei que não cansaste de pensar nos coquetéis molotov. Diria que há nesse pensamento teu a eficiência de garrafas com rolha. Prefiro, porém, como imagem correspondente ao poema, a emoção estética que encontrei quando me deparei com ele: dois pares de sapatos comuns, presos pelas pontas, em razão do peso de círculo de metal que os prende, erguidos como se estivessem nas pontas dos pés (CALDAS, 2007, p. 16) Hás de convir que desinventar a imagem que eu descrevi custaria a minha pele e a minha escolha.

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Evidentemente, o poema é a pronúncia ordinária plasmada em verso. Nesse sentido, lê-lo é observar que a leitura é ato de ler qualquer coisa que está posta de pé diante de nós — lendo a imparidade de um objeto isolado. Seria, então, possível que o poema de Álvaro de Campos fosse um conceito mais fundamental sobre poemas, ou melhor, seria aceitar que ele é a teoria ingrata da leitura que evitamos? Aqui se apresenta um tipo de reconhecimento do saber da arte que ninguém sabe e todos o têm e, contudo, ninguém quer ou precisa saber. Todos sem exceção. Todos a evitar a inquietude de nada saber sobre um poema, por que ele é só e, só, é a palavra da singularidade de um poema e de um objeto ordinário deslocado de seu ambiente.

É nesse sentido evidentemente, e nesse sentido somente (detenha-se nesse advérbio) que o poema de um só verso é poiético — e não poético. Quer dizer: ele é a instalação de uma coisa ordinária, como garrafas com rolha, postas de pé, posto erguido no seu fazer ficar de pé. Isso é, paradoxalmente, tão singular quanto ordinário; ou seja: poema sem poética, arte sem arte.

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A beleza da indiferença em ser poesia é uma maneira muito distinta de ser poema-objeto, admites? Está aqui na nossa frente como um único verso, e não posso deixar de aceitar que ele se encontre antes ou depois, tanto faz, de um fato ou de uma direção. Diria que ele é a própria encarnação da destinação literal de um objeto ou frase sólida.

Ao pé da letra, essa expressão sugere muita coisa em se tratando de garrafas com rolha. Instintivamente deves distinguir a evidência de um sentido primário e, com ele, o poema reproduz letra por letra o que é e sem mais: a beleza da indiferença de uma coisa ordinária. Ao pé da letra: a beleza da indiferença que o poema tem para com a noção de poesia é a mesma que as coisas ordinárias têm para conosco. Quanta impropriedade há nisso!

“Cabe considerar, desde logo, que a questão do literal tem a ver com as letras da linguagem de forma tal que não se diferencia, senão que possivelmente se converte, em o figurativo” (CAVELL, 2002, p. 229). Vê: o literal do poema é ser um poema-objeto e, nisso, se encontra o inatural referido ao metafórico que é o que capta, digamos, o término do pessoal — uma individuação radical que um objeto isolado ou frase sólida retém, pois sendo diferentes se assemelham como coisas ordinárias que são.

Se o verso é só, só como qualquer um de nós, é previsível que esteja a promover a beleza de sua indiferença ao que é. Tudo que ele fará nunca encontrará novamente a possibilidade de se pôr assim. Ele ameaça, portanto. Ele, indiferente à própria singularidade, alcança o singular. E nisso, atente, há o saber que ninguém sabe e a todos pertence; pois o singular desse poema só nos rememora o singular que é a nossa tarefa humana por excelência e que entregamos aos objetos ordinários há muito.

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Repito-o: “vou atirar uma bomba ao destino”. Deselegante como é, mas cuidadoso, despe o que irá fazer e se afasta do que supomos saber. Há de admirá-lo sem pretensão, portanto. A beleza da indiferença está ali; como esteve nas estratégias de Duchamp. Um ready made , uma frase sólida concebida no mundo da prosa, que deslocada é o poema. Engraçado eu ver assim, não é? Não vão gostar, sabemos disso. Há uma traição no poema aos nossos desejos, por ser uma garrafa com rolha, “uma espécie de provérbio de arte”.

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O poema de Álvaro de Campos estimula-me a falar de poema em conexão com ele, na medida de “garrafas com rolha, uma espécie de provérbio de arte”. Nós estamos no campo genérico dos objetos e, essa passagem, é uma troca de reflexos: um espelho em cada coisa. Poema de um verso só é o espelho do que não é, sendo, garrafa com rolha e, ela, tão ordinária quanto ele, não sendo, é o que espelha o poema de um verso só. Qualquer um pode escrevê-lo, sem imaginar que poderia ser chamado de poeta. Estou a dizer que o poema criou uma imagem que frustra por poder ser feita por cada um de nós, pois fazemos poemas tanto quanto garrafas e rolhas.

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De algum modo, a falha da minha leitura é um caminho procedente da inelegibilidade última de um poema. Dissimulo: as mãos estão a desenhar um saber que ninguém sabe e nem se quer sabe haver. Não me permito desculpar-me quando uso tal sentença, sem cumprir uma posição teórica normativa. Isso porque ou nos apaixonamos pela ameaça da “garrafa com rolha, uma espécie de provérbio de arte”, que é o indicativo gesto do poema, e de grande parte da arte desde Duchamp, consagrada em Celan, ou ficaremos na dúvida que retém os limites e suspende o ar que precisamos.

***

Se negarmos o prosaísmo do poema em se pôr como um poema-objeto, desconheceremos o valor, a alta qualidade de sua ameaça, como expansão e começo da equivalência entre o destino e o ordinário. Um princípio de orgulho algébrico da sentença, “a coragem da poesia é a prosa” — só digo isso.

O poema mostra de onde vem e para onde retorna e não se crê perdido ou achado de forma a entrar, novamente, na história. Ergue-se no mínimo da precipitação de uma possível quebra, conforme a impaciência de estar inteiro, indicando o gesto de ameaça. Há um problema nisso — adoro essa envergadura da seriedade; tu também? A história não é humana, porque pertence à ordem da linguagem. Não é natural, pela mesma razão e também não é temporal, porque a estrutura que a anima não é uma estrutura temporal — metáforas temporais são metáforas.

Agora, leio isso em sua cena; sendo lido na cena que leio. Um tipo de visualização acontece e identifica: quem está naquela frase deslocada? Álvaro de Campos, diriam. Digo que sou eu para ti, pois o reino das evidências dos objetos toca o seu fim: nada que possa “ser quebrado” merece que se detenha sobre com palavras em demasia, tentando mantê-lo inteiro.

Mas como Álvaro de Campos — assim como eu, te digo — é uma consciência falante, há de aceitar que a dramaturgia torne vivo um objeto, o poema. Nisso se apresenta o que depende das letras na garrafa com rolha, da literalidade, portanto, das letras proverbiais: “Vou atirar um bomba ao destino.”


BIBLIOGRAFIA

CALDAS, Waltércio. Manual da ciência popular . 2. ed. São Paulo: Cosac Naif, 2007, 79.p.

CAVELL, Stanley. En busca de lo ordinario . 1. ed. Espanha: Frónesis, Cátedra Universitat de Valência, 2002, 280 p.

PESSOA, Fernando. POESIA/Álvaro de Campos . 1. ed. São Paulo: Companhia da Letras, 2002, 595p.
LACOUE-LABARTHE. A Imitação dos Modernos . 1. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000, 310 p.

___________________. Poetry as Experience . 2. ed. EUA: Stanford University Press, 1998, 144 p.



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¹MARCUS ALEXANDRE MOTTA é escritor e professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde atua no programa de pós-graduação em literatura portuguesa e em história da arte. Concluiu, em 2001, o pós-doutorado na Universidade Lusiada em Teoria da Arte. É autor de Desempenho da Leitura - sete ensaios de literatura portuguesa (7Letras, 2004) e Antônio Vieira - Infalível Naufrágio (Editora FGV, 2001), entre outros. Dedica-se, principalmente, a duas linhas de pesquisa: Arte Contemporânea e Patrimônio Cultural; e A questão de artisticidade na arte de Fernando Pessoa: perfeição abstrata e cartografia heteronímica.

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