I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Frio




Crônica, por André Al. Braga

"Nunca me senti tão só. Se eu fosse um saco de coisa qualquer jogado no chão, alguém viria me apanhar e colocar-me no lugar certo. "


Num salto olímpico levantei da cama, por volta das quatro da manhã. Acendi a luz, com pouco fôlego: coração disparado, corpo formigando, tremedeira, tom amarelado, boca seca... a sufocante sensação era horrível. Acordei o familiar mais próximo, pedindo ajuda. Todos na casa acordaram. Rápido, levaram-me ao hospital. Levei comigo uma garrafinha d’água, para manter a garganta úmida. Fui quieto, suportando a pressão no peito. Chegamos pouco um mais das cinco horas. Só havia eu de paciente (então não havia fila, nem público). O segurança orientou-me para que fizesse a ficha de atendimento. Acordei o funcionário do guichê, passei meu RG e outros dados. Fui até o Pronto Socorro, sentei-me num banco de madeira morta, esperei. Naquela madrugada fazia muito frio, fiquei encolhido bebericando minha água. Segurava a garrafa como se fosse à mão de alguém que me ajudava, que mantinha-me vivo. Não havia ninguém pronto em socorro para atender-me. O médico de plantão estava cuidando dum que chegou todo estropiado no carro do resgate. Pobre infeliz, teve a “beira da morte” como vantagem. 

O corredor em que eu aguardava estava limpíssimo, um brinco. As paredes pintadas recentemente davam um ar de “novo” ao local. O silêncio, quase absoluto, foi quebrado pelos gritos duma senhora que chegou urrando de dor. Acomodaram-na perto de mim, mas ela não parava em nenhuma posição, só contorcia-se e chorava. Os gemidos dela entraram ríspidos pelos meus ouvidos, misturaram-se a minha agonia, e as dores dela passaram a ser minhas também. Compartilhávamos o sofrimento, pois no local não havia uma alma penada que escutasse nossas suplicas. Os poucos funcionários ali de plantão, passavam indiferentes ao que acontecia. De repente senti tudo frio: o glacial tempo, a luz refletida no fleumático brilhoso chão, colaboradores insípidos... o arrefecido Eu calou-se. Para cuidar da calorosa condição humana é preciso ser uma pessoa fria, ser gélido. Não há espaço para a compaixão, ninguém recebe soldo para ser complacente. Bondade não é ofício. O descaso impera no templo do auxílio público. O estado é crítico; a massa é surrada; e a alma do servidor é de pedra. A senhora ao meu lado parece que ouviu meus pensamentos, e acabou vomitando de indignação. Expeliu queixume. Um balde velho, utilizado como cesto de lixo, amparou-a, servindo-lhe como amigo.

Nunca me senti tão só. Se eu fosse um saco de coisa qualquer jogado no chão, alguém viria me apanhar e colocar-me no lugar certo. Mas sou gente, e o frio me tornava invisível. Meu coração apertou mais, e num ato solitário de auto-socorro, derramei uma lágrima. Ela escorreu quente no meu tremulo rosto, até tocar em meus lábios. O sal quebrou o gosto amargo e incomodo daquele começo de dia. Não queria mais estar ali, levantei-me e segui em direção a saída. Quando passei pela porta, o segurança olhou-me e perguntou se eu não iria aguardar mais um pouco, respondi-lhe que se só há defuntos no velório então não há velório. Segui em frente, voltei para casa. Queira descansar em paz, num lugar onde o frio fosse apenas uma sensação térmica.


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Faleria de monasosh
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