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Lágrima


Conto da Seção Estórias Gozadas, por André Diniz.


Hannelore – moça canadense, vinda do intercâmbio, com seus 17 aninhos, 11 meses e 30 dias – deitava na cama. A minha cama, de solteiro. Aninhava-se em mim para ouvirmos juntos a trilha de Beleza Americana no computador, enquanto eu estava tentando enrolar meu primeiro baseado.

Por alguma presepada quando fui montar a pasta dos MP3, entra Massive Attack depois de ‘Choking The Bishop’, aquela música onde o Kevin Spacey toca uma pensando que está entrando no banheiro e encontra a Mena Suvari – loirinha, ninfeta e biscate – numa banheira cheia de pétalas de rosas. Dei o trago e passei para a mocinha branquela e com olheiras de urso panda, enquando dedilhava por suas coxinhas magrelas.

Love, love is a verb
Love is a doing word
Fearless on my breath

Além do cheiro de incenso e fumo, sentia o cheiro do perfume em seu pescoço (sempre digo pescoço, mas o povo costuma chamar de “cangote”. Não gosto dessa palavra, me lembra a novela da Tieta, Deus sabe o motivo).

Ela já entendia um pouco de português, então fui dizendo bem ao pé do ouvido dela, com minha voz sacana e numa mistura de português e inglês com sotaque indiano, sobre como eu achava aquele cheiro a tradução do paraíso. A desgraçadinha me olhou e disse: “Let’s do it”.

Meu passaporte para o inferno estava pronto. E eu ia tocando piano. Igual ao Jerry Lee Lewis.

Gentle impulsion
Shakes me makes me lighter
Fearless on my breath

A música continuava tocando solta enquanto eu descia pelo abdome dela, liso e com marcas de sol. Demorei-me um pouco alisando as costelas dela enquanto beijava e passava a língua de leve em seu umbigo. Fiz um passeio por seu ventre (ainda por cima da calcinha), e segui beijando e acariciando suas pernas longas e lisas como um lençol de cetim. (Deus abençoe o Ocidente e seus padrões estritos de beleza) até chegar a seus pés.

Sempre tive esse fetiche por pés, e sempre me colocava numa posição que me permitia vê-la como Moisés viu a Terra Prometida antes de morrer. O rosto semiiluminado pela noite de lua cheia, o sorriso leve no rosto, aqueles dois suspirinhos apontados para cima. Aquilo era a prova de que Deus existia. E como queria tomar aquilo tudo para mim.

Eu poderia, naquele instante, em que eu já estava pronto, ter simplesmente a comido como qualquer outro talarico faria. Ela, na minha opinião, merecia um pouco mais de brincadeiras. Ainda mais quando notei que ela ainda era virgem. Jackpot, como dizem lá na gringa. Acertei no milhar.

A calcinha dela estava bem longe quando tomei seu quadril para mim e coloquei-o ao alcance do meu rosto. O reflexo inicial mostrava que ela ainda não tinha pleno conhecimento do seu corpo, e pensava comigo mesmo “Isso não pode ser verdade”. Pensar enquanto se prova do licor de uma ninfeta é o pior pecado que existe, pior que tomar vinho do Porto com gelo no copo de plástico. Recobrei-me dos meus pensamentos e continuei sentindo aquele cheiro e aquele gosto adocicado.
Sabia que daquele ponto em diante, pelo menos para mim, não teria retorno. Mas dependia exclusivamente dela. Quando subi e comecei a beijar, acariciar e brincar com os seus mamilos, notei uma pequena lágrima no canto do olho dela. Acho que eu a assustei. Para quem oficialmente era virgem, a primeira base tinha ficado há alguns quilômetros para trás.

- Se quiser parar, é só dizer.
- Get on with it. Continua. Está bom.

Water is my eye
Most faithful mirror
Fearless on my breath

Coloquei-a sobre mim, com todo o cuidado do mundo. Sabia que qualquer erro iria colocar todo o trabalho a perder. Deixei-a se acostumar. Relaxar. Curtir a viagem. Ela pegou o baseado, acendeu-o de novo e deu uma tragada enquanto estava em cima de mim. Senti-a se revolver dentro de si. Como se deixasse algo dentro dela fluir, sair, tomar conta. Ela descobrira alguma coisa naqueles quinze segundos em que eu estava debaixo dela, vendo-a nua, descabelada. Foi como ver o paraíso dessa vez.
Subindo o ritmo, pouco a pouco, colocando-a em contato com o Diabo, fazendo-a ter um orgasmo de verdade. O pecado da vaidade de pensar em fazê-la gozar me fazia ir em frente. Me inspirava, me deixava mais em ponto de bala ainda.
-Feliz aniversário, Hanners.

Teardrop on the fire of a confession
Fearless on my breath
Most faithful mirror
Fearless on my breath

Passei alguns dias andando nas nuvens. Aquela tinha sido a minha primeira boa trepada em meses de seca absoluta. Um retorno digno de Elvis Presley. Algumas semanas depois, eu a vi chegando da escola. Dez minutos depois, um moleque com cabelos espetados chegou em casa. Ela subiu direto para o quarto.

Ouviram Massive Attack a tarde inteira. Sozinhos. No quarto. Pingo é letra, e música sob portas fechadas é roteiro para coisas na mente de qualquer um.
Hannelore Saiu do quarto pouco antes do jantar, me abraçou com carinho e me beijou a testa, quanto estava um patamar mais baixo. “Obrigada”, ela sussurrou com uma voz quase em pedido de perdão.

Foi ali que eu descobri que, durante todo o lance, em nenhum momento estive no comando da situação. E nunca estaremos.

You're stumbling a little...


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- Meus mais sinceros pedidos de perdão a Dalton Trevisan.



Crédito da foto: http://www.flickr.com/photos/coitadacassia - imagem meramente ilustrativa.

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