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Niketche: uma história...

... de rupturas, ou o feminino em constante desafio.


Artigo acadêmico, por Maria Geralda de Miranda (Professora adjunta da UNISUAM e da Universidade Estácio de Sá).


Introdução

A leitura do livro Niketche, da moçambicana Paulina Chiziane, motivou-me a escrever este trabalho, não pelo assunto da poligamia, propriamente dito, mas pela sua abordagem do feminino, no caleidoscópio cultural de Moçambique. No decorrer do trabalho, buscarei refletir sobre os processos de dominação masculina sobre a mulher, mas também sobre os matizes culturais africanos representados pelas várias personagens do romance, pois é isso que faz com que a história contada pela escritora, além de ser uma denúncia das formas de dominação masculina em Moçambique, é também uma reflexão sobre os valores culturais, e do modo como tais valores se fazem representar em uma sociedade que, a partir da colonização, vai perdendo o seu contato com as tradições.





1. A descontrução histórica do sujeito feminino


Mesmo Paulina tendo afirmado que Niketche não é um livro feminista, assim que terminei de ler a história de Rami, personagem central do romance, senti a necessidade de reler a Introdução histórica, escrita por Rose Marie Muraro, para a edição de 1991, do livro O martelo das feiticeiras: o manual do inquisidor. Em tal apresentação, a estudiosa demonstra com clareza o processo de desenvolvimento da sociedade patriarcal e a conseqüente consolidação da hegemonia do poder do homem sobre a mulher, do primitivismo ao capitalismo moderno. E que a própria visão de divindade, que era predominantemente feminina nas sociedades primitivas, se desenvolve para o compartilhamento de deuses e deusas, e chega ao seu ponto culminante com um deus único e masculino. O homem é feito à sua imagem e semelhante, e só após, a mulher é feita do homem e de sua parte mais torta, a costela.

No último milênio, a mulher perde a identidade com o seu vínculo histórico, e o poder de criação que a identificava com a divindade. Passa a ser secundária, acessória. Salienta Muraro que a releitura do livro Gênesis, da Bíblia, feita pelos padres dominicanos que escreveram o Malleus Maleficarum — o manual do inquisidor — ajudou a sedimentar a idéia de que a mulher é, do ponto de vista intelectual, inferior ao homem. “Ela passa a se ver com os olhos do homem, sua identidade não está mais nela mesma. O homem é autônomo e a mulher é reflexa”(i).

De acordo com F. Engels (ii), há um processo de desenvolvimento do domínio do masculino sobre o feminino desde as sociedades primitivas. Mas é no capitalismo, que se consolida a família monogâmica. O Código Civil de Napoleão Bonaparte já prevê que o filho concebido durante o casamento tem por pai o marido. Ainda seguindo Engels(iii), a família monogâmica no capitalismo também gera suas contradições e uma delas é o desenvolvimento da prostituição feminina, em que a mulher é mercadoria de prazer sexual masculino. Observa Engels que a “queda da mulher na história universal se dá quando ela passa a ser servidora, escrava do prazer do homem e mero instrumento de reprodução”. Este rebaixamento da condição da mulher, tal como já aparece abertamente “entre os gregos dos tempos heróicos e mais ainda dos tempos clássicos tem sido gradualmente retocado, dissimulado e, em alguns lugares, até revestidos de formas mais suaves, mas de modo algum eliminado”.

O romance Niketche se inicia com Rami aflita por causa da ausência do marido de quem é dependente. A falta de carinho e de tudo quanto o marido deveria representar em uma sociedade legalmente monogâmica, mas machista, a deixa angustiada, sobretudo por causa de seus cinco filhos. Rami, de formação católica, se vê na situação de uma mulher de múltiplas obrigações com o marido e com a família, no entanto, sofre com a ausência daquele que a deveria proteger. Quando descobre que está sendo traída, antes mesmo de saber que o marido era poligâmico, resolve conversar com ele. A fala de Tony é representativa da visão tradicionalmente masculina de que nos falam Muraro e Engels.


—Tony, andas a trair-me, não é? —Sim. Ganho toda a coragem e digo tudo o que sinto: falo da minha ansiedade. Ele rosna como um canino e faz cara de zangado. (...) — Traição é crime, Tony! —Traição? Não me faça rir, ah, ah, ah, ah! A pureza é masculina, e o pecado é feminino. Só as mulheres podem trair, os homens são livres, Rami. — O quê? — Por favor, deixa-me dormir...(iv)

Pode-se dizer que o início do livro é um relato de angústias femininas, que se repetem no decorrer da narrativa. Vão sendo também descritos os vários argumentos que fundamentam a obediência da mulher ao macho, como é o caso da lenda de Vuyazi, contada pela tia de Rami, durante a reunião de família, convocada para garantir a obediência das cinco mulheres de Tony a ele. A lenda, narrada pela tia, visa aplacar os ânimos das mulheres e, nela, se lê os mesmos princípios machistas do patriarcado encontrados em trechos do Malleus Malificaram, ou em qualquer compêndio machista das sociedades patriarcais, já que tal lenda prega a obediência da mulher ao homem e prescreve os castigos, em caso de insubordinação. Abaixo fragmentos da lenda.


Era uma vez uma princesa. Nasceu da nobreza mas tinha o coração de pobreza. Às mulheres sempre se impôs a obrigação de obedecer aos homens. É a natureza. Esta princesa desobedecia ao pai e ao marido e só fazia o que queria. (...). O marido, cansado da insubmissão, apelou à justiça do rei, pai dela. O rei, magoado, ordenou ao dragão para lhe dar um castigo. Num dia de trovão, o dragão levou-a para o céu e a estampou na lua, para dar um exemplo de castigo ao mundo inteiro. Quando a lua cresce e incha, há uma mulher que se vê no meio da lua, de trouxa à cabeça e bebé nas costas. É Vuyazi, a princesa insubmissa estampada na lua. (...) É por isso que as mulheres do mundo inteiro, uma vez por mês, apodrecem o corpo em chagas e ficam impuras, choram lágrimas de sangue, castigadas pela insubmissão de Vuyazi.(v)


É a contradição da prática da poligamia numa sociedade oficialmente monogâmica que mobiliza a personagem-narradora Rami, que a faz confrontar valores axiológicos ocidentais cristãos, levados pelo colonizador, e os valores culturais africanos que acabam tendo predominância no comportamento de Tony. Não resta dúvida que o olhar de Rami, personagem-narradora do romance, que também é do Sul, é um olhar ocidental — foi educada por padres e freiras — sobre a cultura da poligamia, secular, em Moçambique. Há todo um esforço por parte da personagem de buscar compreender a cultura dos antepassados e das outras mulheres que vai conhecendo. Mas Tony, educado de acordo com os padrões ocidentais, escondia a sua prática poligâmica, certamente por ser um dirigente do Estado. Estado este, concebido e estruturado jurídica e socialmente dentro dos padrões ocidentalizados.


2. Poligamia como resultado de realidades culturais

A grandiosidade do livro talvez esteja numa quase ausência de maniqueísmo. Não há uma condenação reiterada à poligamia. Nem na sua absolvição. Mas há um debate sobre as suas causas mais remotas, suas origens, sem justificar, ou condenar. É à medida que as personagens vão sendo apresentadas na narrativa que as culturas vão aparecendo. Julieta, do Sul, é a estudante iludida; Luisa da Zambezia, região ao norte de Moçambique de onde os homens migram e não retornam, por isto os que sobram são divididos entre as muitas mulheres (vi); Saly é maconde, outro povo do norte, de Cabo Delgado. Há uma lenda que diz que o povo maconde é descendente de uma escultura feminina que adquiriu vida(vii). Mauá Salue é macua, outro povo do norte, de origem monogâmica, transformado em poligâmico a partir da influência muçulmana. Eva, a Doutora, estudada, diretora de empresa, chefe de homens no trabalho, tem carro próprio, uma mulher integrada ao urbano, a única que não depende financeiramente de Tony.

Das mulheres de Tony, as duas ímpares são Rami, de formação ocidental, monogâmica, criada para servir ao homem, e Eva a mulata do norte no outro extremo, mulher independente, mas amaldiçoada nas culturas moçambicanas, e abandonada pelo marido por ser estéril. Julieta, Luiza, Saly e Mauá são de culturas que de uma forma ou outra convivem com a poligamia. Assim também, são as outras personagens da narrativa, a sogra e a mãe de Rami, as tias, a Conselheira. São diversas faces culturais que desfilam diante do leitor de Niketche. Também vão desfilando as grandes contradições. E dentro destas, Paulina descreve a lógica perversa da cultura machista hegemônica em Moçambique. Hegemônica, principalmente porque é cultuada pela mulher, que cumpre um papel fundamental em sua manutenção. É correto afirmar que a poligamia é cultuada, venerada e garantida pelos homens, mas é também respeitada, idolatrada, perpetuada e transmitida de geração após geração pelas mulheres africanas. Em Niketche, a sogra de Rami é a mais fervorosa defensora da poligamia.


A minha sogra (...) grita não à monogamia, esse sistema desumano que marginaliza uma parte das mulheres, privilegiando outras, que dá tecto, amor e pertença a umas crianças, rejeitando outras (...). Grita contra o novo costume de ter uma esposa à luz e várias concubinas, com filhos escondidos. (...) O meu filho é um rizoma. É bambu, (...) alastra-se, multiplica-se. O meu filho tem destino de rei, de patriarca. (...) Por causa das vossas doutrinas as nossas famílias africanas não passam de montanhas isoladas boiando nas nuvens.(viii)

Assim, para entender Niketche, há de se fazer um passeio pela própria história de Moçambique para flagrar a sua composição étnico-cultural e os seus variados processos de desenvolvimento humano. Como diz Serrano e Waldman (ix), “todas as construções elaboradas sobre a África nunca se distanciaram da ambição de dominá-la nem de configurá-la como contraponto de uma Europa que se arrogava um papel dominante”. E isso se consegue distorcendo a compreensão que se tem do outro. Acrescenta Munanga (x) que a África continua existindo, contrariando e escapando aos critérios cartesianos de desenvolvimento, edificados pelo homem ocidental. Quando observamos que cada personagem da história de Paulina traz consigo um componente da cultura e da história nacional, além do europeu, temos de concordar com as palavras de Munanga. Caminham na mesma direção, os estudos de Alberto Costa e Silva, que observa que o povo Banto, nos primeiros séculos da era cristã, influenciou todos os povos da costa sub-saareana oriental da África, onde se situa Moçambique. As rotas comerciais de árabes, persas, povos das índias e outros ajudaram a construir o mosaico cultural do país(xi).

Assim, o feminismo, ou o feminino em Niketche deve ser observado a partir caleidoscópio cultural moçambicano. No fragmento abaixo, a reflexão de Rami exemplifica que queremos dizer. Trata-se da representação do mosaico cultural de que já falamos, mas também mostra a resistência no que tange a determinadas práticas:


Lobolo no sul, ritos de iniciação no norte. Instituições fortes, incorruptíveis. Resistiram ao colonialismo. Ao cristianismo e ao islamismo. Resistiram à tirania revolucionária. Resistirão sempre. Porque são a essência do povo, a alma do povo. Através delas há um povo que se afirma perante o mundo e mostra que quer viver do seu jeito.(xii)


Dizem Serrano e Waldman que para o africano típico, a sua identidade está primeiramente centrada na família. “É justamente a sua existência que permite compreender por que a África tem suportado séculos de agressões contínuas”(xiii). A família africana é uma categoria muito ampla, incluindo parentes diretos e parentes distantes, daí ser denominada “família extensa”. Nesta visão de família extensa incluem-se as esposas, todos os filhos e todas as ligações que destes advém. Vê-se que um conjunto de fatores, combinados entre si, contribui de forma decisiva para que a monogamia, mesmo sendo a forma de união matrimonial considerada legal em Moçambique, não consegue suplantar a poligamia.

Pela leitura de Niketche percebe-se que não se muda um costume milenar de um povo, a partir da compilação de leis escritas. No Norte do país, a poligamia, principalmente entre o povo Macua é costume adquirido dos mulçumanos, e no Sul, predominantemente católico, é comum os negros ricos, mesmo casados, terem muitas mulheres. Tony nada mais é que uma personagem simbólica, “esculpida” metaforicamente para representar esta realidade em Moçambique.


Conclusão: o feminino reconquistando a história

Paulina Chiziane explicita de forma serena as redes de cultura moçambicanas, denuncia vigorosamente as formas públicas e sutis da opressão, dominação e exploração masculina sobre as mulheres de seu país, mas vai além. Durante a narrativa, suas personagens, sejam individual ou coletivamente, buscam saída. Cada uma das mulheres de Tony vai ingressando no mercado de trabalho formal ou informal, vão construindo sua independência financeira e, ao mesmo tempo, tomando iniciativas coletivas de destruição do mito do macho, poderoso e invencível. Por mais de uma vez, elas se unem para enfrentar Tony: na reunião social, na discussão sobre Eva, na dança niketche. Mas elas também se vão reconstruindo psicologicamente, algumas casam, conquistam novos espaços. Recriam relações, rompem com a experiência de obediência, estabelecem partilhas.

Poderíamos dizer, então, que Niketche é um retrato da mulher universal, de todas as culturas, de diversas formas de organização familiar, das diversas formas de predomínio do homem sobre a mulher. Mas fica também a pergunta sobre o título da obra. Sabe-se que a escolha de um título não é algo inocente. E certamente a escolha do título Niketche não o foi. Com ele, busca-se na cultura ancestral, os rituais de dança, prenhes de sentido criador e libertário do feminino, que se reconstrói para o futuro. Niketche é uma dança do norte de Moçambique, do povo macua, dança da fertilidade, da sexualidade, é parte componente dos ritos de iniciação. A nova mulher é apresentada à tribo, pronta para o amor, para a fertilidade e para assumir a sua vida. Neste sentido, Niketche, além de designar a dança do povo macua, deve ser lido como um canto, um chamado feminino à humanidade. O chamado da grandiosidade da partilha, da roda, da dança, que supera as amarras machistas e inquisitoriais.


Referências bibliográficas:

CHIZIANE, Paulina. Niketche: uma história da poligamia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ENGELS, Friedrich. Origem da família, da propriedade privada e do estado. São Paulo: Escala, 1985.

SERRANO, Carlos; Waldman, Mauricio. Memória da África. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2007.

SILVA, Alberto da Costa. A enxada e a lança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

KRAMER, Henriche; SPRENGER, James. Malleus Maleficarum, o martelo das feiticeiras. 6 ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos, 1991.

i MURARO, in: KRAMER e SPRENGER, p. 13.

ii ENGELS, 1985, p. 62.

iii Idem, ibidem,, p. 64.

iv CHIZIANE, 2004, p. 29. Grifo meu.

v Idem, ibidem, p. 157.

vi Idem, ibidem, p. 55.

vii Idem, ibidem.

viii Idem, ibidem, pp. 123-4.

ix SERRANO e WALDMAN, 2007, p. 33.

x Apud idem, ibidem.

xi SILVA, 2006, p. 351.

xii CHIZIANE, op. cit., p. 47.

xiii SERRANO e WALDMAN, op. cit., p. 129.

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