I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Dois em Um


Conto da Seção Estórias Gozadas, por Liliane Akamine


Só de pensar que conheci o Lucas em um chat, mesmo eu não sendo adepta a entrar nessas coisas, me faz acreditar cada dia mais que é coisa do destino. Entediada e sem dinheiro, num fim de semana chuvoso, e lá estava ele com o Nick “grudado em você”. Começamos a conversar sobre futilidades e vimos que tínhamos muita coisa em comum.

Faz mais de seis meses que nos falamos, seja por MSN, Orkut, SMS e raras vezes por telefone. O ruim de falar com ele por telefone é que ele tem um irmão muito, mas muito mala que fica gritando ao fundo. Aliás, não entendo bem essa relação dele com o irmão. Parece-me que eles são muito unidos, são gêmeos, mas o irmão é completamente diferente. Se chama Matheus. Um cara excêntrico, pelo que Lucas diz, mas ele não fala mal diretamente. Deixa as coisas um meio subentendidas.

Lucas é doce, atencioso, gosta de literatura, cinema e diz coisas coesas. Só é muito tímido. Sabe, em seis meses de conversa ele nunca me chamou pra sair. Eu tive que insistir muito para que a gente se conhecesse. E até hoje ele me mandou uma única foto, 3x4. Ele é lindo. Nunca cobrei uma foto de corpo inteiro, mas acho que já estou apaixonada e nada fará eu deixar de gostar dele, mesmo que ele tenha uma barriga enorme, ou pés chatos, ou talvez não tenha uma das pernas.Enfim, acho que encontrei minha cara metade.

- Eu conheço essa história de cabo a rabo! Tome cuidado, Luana. Você sabe muito bem que, hoje em dia, os loucos estão por ai na internet, se fazendo de bonzinhos. São lobos em pele de cordeiro. Ontem mesmo passou no jornal o caso da moça que foi conhecer o namorado virtual de 3 anos, três anos de namoro virtual, imagine. E ele matou a coitada estrangulada, cortou os pedaços com um canivete e colocou dentro de um saco de dormir, ainda mandou para os pais pelo correio.

- Credo e cruz, Cris. Deus é mais!

- Sério, tome muito cuidado com essas coisas. Além disso, tem aquela conversa do irmão dele, que é estranho... Aliás, o irmão dele vai?

- Não tive coragem de perguntar, Cris. Pelo que ele me disse, eu acho que sim. Eles são muito unidos mesmo. Aquela estória lá que o irmão dele freqüenta orgias e tem práticas sexuais incomuns, não sei viu, me deixou com a pulga atrás da orelha. Apesar do Lucas abominar essas coisas que o irmão dele faz.

- Então Lu. Vai que são dois maníacos sexuais. Quer que eu vá junto?

- Não Cris, obrigada. Acho que é um momento meu. Nunca estive tão apaixonada. E se o irmão dele não for, melhor pra gente né? Eu tiro aquela timidez em cinco minutos.

- É nem adianta eu ir, o irmão dele é gay, né?

- Bissexual, Cris.

- Mas dá a bunda. Logo, é viado.

- Cris... que coisa! Ele me contou que o irmão dele gosta sim de dar a bunda, mas isso num ménage a trois. Ou seja, o irmão dele também come.

- E se a gente chamasse os dois pra uma festinha?

- Não começa, Cris. Você sabe muito bem que a gente faz festinha sempre, mas não com meu príncipe. Você vai ser sempre a minha gostosa. Sempre. Mas ele pode ser o homem da minha vida, o pai dos meus filhos.

- Então vem aqui um pouquinho pra sua gostosa, seu príncipe nem vai perceber. Tá cheirosa gatinha, to ficando com ciúme.

- Só um pouquinho vai. E lambe tudo porque daqui cinco minutos eu to saindo.


***

- Tchau princesa, qualquer coisa me ligue.

Não sei ao certo o que acontece, mas estou realmente apaixonada. Se fosse só sexo eu ficaria com a Cris. Moramos juntas há três anos, desde que vim pra esta cidade e ela é melhor do que muito homem. Mas o Lucas é diferente e, além disso, a gente tem que ter um namorado pra apresentar a família.

Estou tão ansiosa que cheguei uma hora antes do combinado.

- Cris, cheguei no shopping. Liguei pro Lucas e o mala do irmão dele tava falando, acho que vem junto.

- Quer que eu vá ai, Lu?

- Não amiga. Vai que o irmão dele se toca e sai né? Mas poxa, ele disse que era muito unido ao irmão, não pensei que fosse tanto.

- Vai ver rola um incesto ali.

- Cris...

- Tá bom, nem falo nada. Bom encontro pra você.

- Acho que são eles vindo ali, beijinho.


***

- Oi.

- Ois.

- Então Lu, tudo bem com você?

- Não. Quer dizer, sim. Quer dizer, não sei.

- Esse é meu irmão, Matheus.

- Então essa é a gostosa? Prazer, Matheus seu criado.

- Matheus, cale a boca.

- Olha Lucas, acho melhor a gente conversar outro dia. Hoje não estou muito bem, não sei ao certo.

- Desculpe Lu. É sempre assim. Por isso não gosto de conhecer as pessoas.

- Entendo.

- Entende porra nenhuma! Tá ai toda assustada com a gente. É mais um
a vaca.

- Matheus, cale a boca.

- Não Lucas, essas putinhas são todas iguais. Querem dar pra você e ficam todas assustada, só porque somos siameses, porra!

- Olha Lucas, eu vou embora. A gente se fala outro dia.

- Lu, espere. Eu te amo.

- Ama nada, metade do coração é meu. Ele só quer te comer, gatinha. Eu vejo quando ele vê suas fotos e fica se masturbando, e com a minha mão. E a outra enfiando no cu. Porque você sabe né, eu sou bi, mas nós temos um cu só. Logo, meu irmão também gosta de levar na bundinha, assume po!

- Pra mim chega. Tchau Lucas, Matheus, seja lá o que vocês forem.

***

- Já chegou?

- Cris,me abrace.

- O que aconteceu?

- Me abrace, forte. E promete pra mim que nunca vai se grudar em mais ninguém.

- Prometo.

***

- Lu, você leu o jornal essa manhã?

- Ainda não, o que está escrito?

- Uma notícia bizarra: “Gêmeo siamês dá um tiro na cabeça do irmão, e depois se mata”. Que coisa mais tosca. E se chamavam Lucas e Matheus.

- Cris, me abrace. Forte.





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