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Abdução


Conto para a seção Fantásticos, por Cláudia Banegas


"Um ser estranho aproximou-se de mim e me aplicou uma injeção. Ele se parecia com um ser humano..."

Foi tudo muito estranho. Consigo lembrar de algumas coisas, mas não todas... Sei que tudo começou na escola, por volta de meio-dia. As aulas tinham terminado e tudo o que eu queria era voltar pra casa. Minha mãe me cumprimentou mas eu mal respondi, só queria subir as escadas e me trancar no meu quarto. Me sentia mal, mas não sabia o motivo, então resolvi que não almoçaria. Desabei na minha cama, exausta, foi quando então me senti caindo dentro do nada, e isso durou um tempo. Já estava nauseada quando vi um rosto conhecido. Era meu professor de Química. Sem dizer uma palavra, sumiu assim como apareceu. Comecei a ouvir vozes, que ficavam cada vez mais misturadas umas com as outras. Eu não conseguia entender nada do que diziam e aos poucos, elas também foram embora. Confesso que me senti um pouco aliviada, mas essa sensação não durou muito. Olhei em volta e me vi deitada em uma maca; estava amarrada à ela. Tentei gritar, mas não pude, não tinha voz. Estava péssima. Um ser estranho aproximou-se de mim e me aplicou uma injeção. Ele se parecia com um ser humano, mas não era. Não sei como, mas eu sabia que não era. Acabei acordando. Tive um pesadelo e tanto...

Desci as escadas devagar, com a mão no corrimão; estava meio fraca, tinha suado bastante. Ouvi a voz da minha mãe contando ao meu pai que eu não tinha comido nada desde a hora do almoço. Quando apareci na cozinha, os dois me olharam meio espantados. Minha aparência não devia estar boa... Meu pai levantou da cadeira, me pegou pelo braço e me sentou na sala. Começou a fazer perguntas, se eu tinha me envolvido com alguma droga, ou algo parecido. Minha mãe mandou ele me deixar em paz. Me chamou pra sentar na cozinha e tomar um prato quente de sopa. Achava que eu estava com alguma virose, e a “sopa milagrosa” dela me curaria bem rápido. Sob o olhar desconfiado do meu pai, concordei, porque eu realmente não estava me sentindo bem. Quando terminei de tomar a sopa, voltei para o meu quarto. Tudo parecia normal novamente, mas só parecia...

No dia seguinte, acordei ótima e como de costume, meu pai me levou até à escola. Algumas meninas olhavam para mim de uma forma estranha. Comecei a ficar constrangida, mas talvez fosse impressão minha, então procurei relaxar. Sentei na minha cadeira e tirei o livro de Química da mochila. Foi quando me dei conta que não tinha feito o dever de casa. Os minutos foram se passando e o professor de Química não apareceu. O boato era que o professor tinha passado mal e não daria aula, o que realmente aconteceu. Voltei para casa mais cedo, e preferi não comentar o assunto com meus pais. Eles iam achar que a escola estava com uma epidemia de alguma coisa e me levariam ao médico. Achei meio irresponsável da minha parte não falar nada, mas não tive vontade de tocar no assunto, mesmo porque não encontrei minha mãe em casa. Do lado de fora, o tempo estava se fechando, o céu estava escuro, o que indicava que uma tempestade estava à caminho. Subi as escadas, larguei minha mochila em cima da cama e fui ao banheiro tomar banho. Quando tirei a blusa, notei que estava com uma marca no braço, no mesmo braço onde eu tinha levado a tal injeção no sonho...E ao me olhar no espelho, as coisas pareciam normais, mas eu sabia, simplesmente sabia que não estavam. O que estaria acontecendo comigo?! Subitamente, uma luz amarelada surgiu na janela. Queria estar sonhando, mas desta vez tudo era real. Comecei a tremer de medo; corri para um canto e me encolhi, abraçando meus joelhos. A luz inundou tudo, e a mim também. Não acreditaria se me contassem, mas estava bem ali, na minha frente. Um ser de estatura mediana e olhos grandes, estendia sua mão para mim. Parecia me oferecer abrigo. Sem pensar muito, eu aceitei. Acordei em uma praia, três dias depois. Meus pais e a polícia estavam me procurando. Nada fazia sentido, nem para eles nem para mim.

Seis meses se passaram. Na minha família, ninguém comentou mais o assunto, porque para o meu pai, o que não se pode explicar, não é para ser discutido. Na escola, passei a ser tratada como “a esquisita”. Me sentia extremamente só. Até que uma noite, alguém tocou a campainha da nossa casa. Meus pais estavam vendo TV, então eu fui atender, e lá estava ele, me esperando, com seus olhos doces. Parada na porta, perguntei:

_ Por que você demorou tanto?!

Ele não disse nada, apenas me abraçou. “Se eu pudesse...” - pensei - “...ficaria aqui para sempre...” Abraçados, fomos inundados por uma luz intensa e levados a um outro tempo, a um outro lugar. E ali ficamos os três: ele, eu e minhas memórias... para sempre.

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Crédito da imagem:
Meditando, por Helton Sansão


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