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Amor Objeto




Conto para a seção Autor Convidado, por Rafael Gimenez



"Mas a ereção que estava vindo acabaria por me denunciar."

Reflito enquanto olho a chuva cair, atrás da janela gradeada. É engraçado como as coisas mudam num curto espaço de tempo, e como a vida dá um nó nos planejamentos que a gente traça, assim sem mais. Seis meses atrás eu estava batalhando um lugar ao sol, como ator e modelo, tinha à minha disposição qualquer mulher que eu quisesse ver nua em cima de uma cama - e eu preferia as menininhas de dezoito anos, loiras, magras e burras. Era um fodido, já que meu pai me deu um chute no rabo desde que larguei a faculdade de Administração pra fazer profissionalizante em teatro, mas isso não me atrapalhava. Sou bonito paca, estou sempre fazendo comerciais. As menininhas burras caem fácil na minha lábia. Mais difícil era pegar uma mulher madura ou bem sucedida. Essas costumam me tratar como michê, tem comigo casinhos rápidos, apenas para quebrar o tédio e a mesmice de seus casamentos infelizes. No entanto, eu era feliz assim, nunca achei que a coisa sairia do meu controle. Até que conheci uma mulher de cerca de 40 anos que vou chamar de Gisele. Gisele me conheceu num trabalho que fiz para ela e conversamos ainda no estúdio de gravação. Achei-a interessantíssima, diferente das mulheres de sua condição social, que eu estava saturado de traçar. Logo na primeira conversa, soube que ela era casada. Mas, como é comum entre os ricaços, tratava-se de um casamento de aparências. Ela e o marido - um comerciante tubarão do setor de lojas de departamentos – dormiam em quartos separados e só apareciam juntos nos eventos sociais, por mera formalidade. Pude perceber, pela forma como Gisele falava de sua vida, que ela era uma mulher frustrada, faltava-lhe algo para ser feliz, talvez alguma coisa que o dinheiro por si só não pudesse comprar, embora eu sempre tenha acreditado que o dinheiro compra tudo, inclusive felicidade. Mostrou-se uma mulher inteligentíssima, articulada, elegante. Eu, que nunca priorizei essas qualidades numa mulher, senti de repente um fogo esquisito dentro de mim. Olhei para o corpo perfeito de Gisele, acondicionado naquele vestido justo, e isso foi me enchendo de um tesão animal. Era amor. Fui direto:

“Vamos sair daqui, agora”.

Ela me olhou sem espanto. Devia estar sentindo o mesmo que eu. Amor.

“Quero você todinho”, sussurrou no meu ouvido. Tive vontade de colocá-la de quatro ali mesmo, comê-la na frente de todo o pessoal da agência. Caralho, eu estava apaixonado.

 *   *   *

Só de lembrar da primeira trepada que dei com Gisele, parece que meu pau vai furar a calça. Fomos para um motel, e começamos a nos agarrar no corredor. Por muito pouco quase não chegamos ao quarto. Quando chegamos, Gisele me atacou com voracidade, queria arrancar a minha roupa, mas a contive. Pedi para que ela se despisse devagar. Eu queria rezar uma oração por aquele corpo, contemplá-lo em toda a sua perfeição. Por um momento julguei que chegaria às lágrimas, e então fiz um esforço tremendo para me reprimir. Imagine, chorar na frente de uma mulher que se vai comer pela primeira vez! Gisele tirou o vestido por cima da cabeça, ficando só de lingerie, preta, com babados. Não havia uma única estria em todo seu corpo, sua bunda não tinha um sinal de celulite que fosse. Beijei-a toda. Primeiro devagar. Depois acelerando. Quando dei por mim, já a lambia, como se fosse um gato. Lambi suas coxas, seu umbigo, suas axilas. Demorei-me mais no pescoço, porque ato contínuo às minhas lambidas e mordidas, ela dizia palavras profanas, lindas, que poetas como Camões e Fernando Pessoa nunca chegaram a usar porque estavam guardando para a ocasião perfeita, que jamais chegou até que eles morressem. Não havia mais como frear a natureza: tirei minhas calças, com cueca e tudo, tirei a calcinha e o sutiã dela. Ela ficou só de meias e cinta-liga. Admiramos nossos corpos por um breve momento, e então ela me disse “Me penetra!”. Fodemos na posição papai-e-mamãe, depois ela me pediu para pegá-la de quatro e enquanto me movimentava vendo aquele belo rabo eu sentia todo o meu corpo tomado por uma enorme emoção. Ao contrário do que esperava, o orgasmo demorou para vir, e tive o prazer de vê-la gozando enquanto eu ainda tinha meio tanque pra gastar. Foi, de longe, o melhor sexo da minha vida até então. Passamos a tarde toda fodendo. Quando chegamos às 6 da tarde, ela me pediu para parar. Tinha que ir para casa. Assenti com a cabeça, eu também não podia ficar mais. Nos vestimos, paramos na porta do quarto para um último beijo, e o beijo foi se prorrogando, demorando, como uma vela que chegou ao cotoco mas não quer cessar de arder, talvez porque algum santo ou orixá a mantenha queimando. Estávamos novamente nus, nos pegando no chão, nos arrastando por todas as paredes, nos chocando contra os móveis, quebrando coisas, enchendo o ar de gemidos, de gritos, de odores, de suores, de secreções. A sensação que eu tinha - e que tinha certeza de que ela também compartilhava - era de que podíamos ficar ali para sempre. E, realmente, quando saímos do motel no dia seguinte, depois de uma maratona de sexo incrível que só interrompemos por algumas horas para comer e beber, ela me disse: 

“Eu queria ter você para sempre”.

Não disse nada. Não tinha nada para dizer. Estava, na verdade, apavorado. Sabia que ela tinha me pego na arapuca. 


*   *   *

Gisele ficou uma semana inteira sem aparecer nem me ligar. Imaginei que tivesse se arrependido de seu adultério, embora isso me parecesse ilógico: ela não tinha mais qualquer tipo de ligação afetiva com o marido. Eu não cessava de pensar nela. Fiz ensaios de merda, me apresentei duas vezes na peça que estava encenando com um desempenho abaixo da crítica. Estava puto com isso, porque mulher nenhuma me tirava o foco. Na sexta-feira, Gisele apareceu. De carro, na saída do teatro onde eu estava em cartaz. 

“Entra”.

“Por onde você andou, sua vaca?”

“Entra”.

Entrei no carro. Fomos direto para o motel. O que parecia impossível, aconteceu: o sexo entre nós foi ainda melhor e mais intenso do que a primeira vez. Ela pedia para que eu a chamasse pelos piores nomes, coisas que assustariam as próprias putas. Eu obedecia, e ambos ríamos por dentro, embora nossos rostos estivessem crispados de prazer e dor. Pediu para que eu desse tapas em suas nádegas, em suas coxas. Finalmente, implorou:

“Me bate na cara”.

E como eu hesitasse, repetiu, veemente:

“Me bate na cara, puto!”

Dei um tapa no seu rosto lindo, ela pedia mais força, comecei a bater sem dó. Ela gritava, e ria, e metia mais forte. Gozamos juntos, e isso me encheu de uma alegria quase pueril. 


*   *   *


Gisele e eu nos encontramos durante uns dois meses por quase todos os dias. Ela ia me procurar na saída dos teatros, na saída do curso ou em qualquer lugar em que eu estivesse trabalhando. Eu não sabia seu endereço, tinha apenas um número de celular que ela atendia quando queria. Nossos contatos eram sempre de mão-única, e ela me tinha à disposição. Até que, um belo dia, fui contratado para fazer uma turnê com minha peça por várias cidades do interior. Mandei um sms avisando-a de que ficaria pelo menos um mês fora. Ela me ligou e percebi que estava fora de si:

“Você não vai”.

“Como assim não vou? Quem você pensa que é, sua puta?”

“O que você vai fazer em Botucatu, Piratininga, Rio Preto, Votuporanga? Tá maluco? É pela grana? Eu te dou dinheiro!”

Mandei-a tomar no cu e desliguei. Ela ligou em seguida, não atendi. Veio me ver na saída do curso. Tentou manter a pose:

“Você não pode ficar um mês fora. Arranja alguém pra te substituir nessa peça”.

Aquele ar de superioridade, de minha “dona” me irritava muito.

“Eu tenho uma carreira, sabia?”

Ela riu. Aquilo me ofendeu profundamente. Percebi que ela não me respeitava, não levava a sério a minha atividade. Antes de ouvir mais groselhas, levantei-me e saí. Ela tentou me segurar, pedir desculpas, mas me desvencilhei e fui embora. Um tempo depois, ela me telefonou chorando.

“Eu te amo”.

Não disse nada. Desliguei. E fui para Bauru no dia seguinte.


*   *   *


Fiz uma peça de merda em Bauru, para um público ridículo, que dava para contar nos dedos. Estava profundamente infeliz, me sentindo culpado por ter deixado Gisele sozinha, embora a palavra “solidão” não pudesse ser aplicada na vida de uma mulher como ela. Ia sair para jantar com a equipe quando a vi, na saída do teatro. Nos abraçamos e nos beijamos avidamente, sem palavras. Evidentemente só havia uma coisa a fazer, e fizemos: fomos para o hotel e transamos como se fosse a última vez.


*   *   *


Já de volta a São Paulo, voltamos à velha rotina e, por algum tempo, abri mão de compromissos e de ótimas oportunidades de trabalho para não me afastar de Gisele. Evidente que ela não podia ir comigo nas viagens porque, além disso dar na vista, tinha seus inúmeros afazeres. Administrava os negócios junto com o marido, era aliás a única coisa que faziam juntos. Sua ida ao interior, atrás de mim, tinha sido uma tremenda loucura e ali percebi que nossa relação estava ficando grave. Eu no começo tentei me enganar, achando que estava abrindo mão de pouca coisa por ela. Mas, aos poucos, fui me dando conta de que eu mesmo já estava deixando em segundo plano a minha carreira. Faltava a compromissos para ir foder com Gisele, e ficava às vezes horrorizado ao descobrir certas coisas na nossa convivência. Gisele tinha lampejos em que ficava muito semelhante às burrinhas que eu estava acostumado a foder antes, e esses lampejos, com o passar dos dias, começaram a ficar constantes. Ao mesmo tempo, eu já estava sendo escanteado no próprio meio artístico: ninguém me convidava mais para nada, e o boato de que eu era bancado por uma coroa começou a surtir um efeito terrível na minha vida, fazendo com que eu fosse visto com enorme preconceito por gente muito bem conceituada. À contragosto, aceitei que Gisele me desse dinheiro quando passei as primeiras dificuldades econômicas. Aceitei antes dinheiro de outras mulheres que comi, porque elas colocavam o pagamento como condição para a foda, e eu queria foder mais do que queria ter grana. Mas com Gisele eu achava que seria diferente. Achava que nos amávamos. Aquilo dela me oferecer grana me decepcionou profundamente e, quando tivemos a primeira discussão em que ela me jogou o assunto na cara, me decidi a não vê-la mais. Fiquei algumas semanas sem atender seus telefonemas e fugindo dela. Um tempo depois, saí do curso, seu carro estava estacionado à frente, com os vidros fechados. Abri a porta, entrei, conversamos como se nada tivesse acontecido.

*   *   *


“Já posso tirar essa venda?”

“Calma, apressadinho. Já estamos quase chegando...”

“Espero que seja uma bela sacanagem isso que você está aprontando”.

“Você vai ver, meu amor”.


Entramos em algum lugar, ela me guiando pela mão. Tirou a venda: era um apê de dois quartos, totalmente mobiliado. Não sabia o que dizer, estava embasbacado. Gisele era o meu coronel, agora com todas as letras. 

“Ah, porra”, eu disse. “Eu tenho onde morar, sabia?”

“Pois aqui, meu amor”, me disse ela enquanto tirava uma garrafa de champagne francês de frigobar, “você vai ficar mais confortável, sem ter que dividir apartamento com aqueles seus colegas babacas. Além disso, vou ter você à minha disposição, para fodermos sempre que eu precisar”.

O fato dela usar o termo precisar transformou a indignação que começava a nascer em mim num insano tesão. Pedi pra ela bebesse aquele champagne no meu corpo, e ela passou a língua pelo meu peito, pelas minhas pernas e virilha, até abocanhar meu pau, sempre molhando-o com aquele líquido doce e inebriante. A transa de inauguração do apartamento foi magistral, tivemos de dar o braço a torcer. As seguintes - passada a novidade daquela estranha sensação que eu tinha ao ser objeto sexual devidamente guardado numa caixa – foram mornas.


*   *   *


Um dia me ligou Ícaro, um sujeito muito bem relacionado no meio teatral e cinematográfico (embora seu forte fosse agenciar meninas para fazer programa no exterior): 

“Guri, tenho um negócio quente pra ti. Haverá um teste para um filme em Hollywood, eles querem um latino, de preferência um brasileiro. Não tem uma porra de fala pra esse papel no filme, é praticamente figuração, mas eles querem um cara bonitão e pagam cachê bom. Fora que, você vai passar uma semaninha nos States, com tudo do bom e do melhor. E aí? Topas?”

Topar eu topava. Mas ao notar que hesitava pra responder, eu percebi pela primeira vez que tinha medo de Gisele.

“Posso responder mais tarde?”

“Porra, mais tarde? Cara, olha a mamata que tô te arranjando. De repente, você dá sorte até de fazer filme por lá depois, hein? Não viu o que aconteceu com o Santoro?”
“Preciso resolver umas coisas aqui primeiro”, disse.

“Ok, sujeito. Como sou teu amigo, vou segurar essa pra você. Me liga até de noite pra dizer o que vai fazer”.


*   *   *


Gisele veio me ver no apartamento. Fui direto ao assunto:

“Vou pros Estados Unidos, filmar”.

“Não vai”.

“Vou, caralho! Chega dessa loucura!”

“Vamos ver se vai”, ela me disse. E saiu.


*   *   *


No dia seguinte, acordei cedo, fiz as malas. Quando botei a chave na fechadura, não abria. A Gisele mandou trocar, enquanto eu dormia no apartamento. Eu devia ter ido embora ontem mesmo, pensei. Antes de ligar para o chaveiro, olhei pelo olho mágico: dois gorilas de terno do lado de fora. Olhei pela janela: na rua uma perua preta, com o logo de uma empresa de segurança e mais um sujeito encostado, olhando diretamente pra minha janela. Que porra era aquela? Gisele tinha enlouquecido de vez. Tirei o telefone do gancho: estava mudo. Procurei em toda parte meu celular e não encontrei. Encontrei apenas um bilhete de Gisele:

“Você é meu. RSRS. Beijinhos”

Fiquei puto como bicho enjaulado mesmo. Comecei a quebrar coisas. Os gorilas do lado de fora deviam ter sido orientados por Gisele, pois nem intervieram enquanto eu destruía o apartamento. Estava fora de mim, espatifava no chão coisas caras, rasgava quadros, destruía estantes. Gisele chegou quando eu estava no chão, exaurido de tanto arrebentar o apartamento. Estava caído entre cacos de vidro, com o rosto cortado e hematomas por todo o corpo. Gisele sentou-se ao meu lado, limpou o ferimento na minha testa enquanto passava a mão por meus cabelos. Comecei a chorar, implorar pra ela me deixasse sair. “Não, você é meu”, ela repetia. 


*   *   *


Os dias foram passando no cativeiro. Gisele vinha todas as noites me ver, tentava me excitar, me masturbava para ver se eu me empolgava, mas eu a olhava com uma enorme apatia. No começo, neguei impassivelmente o sexo. Com o passar dos dias, fazia o que ela queria. Torcia pra que ela se mandasse logo, e ela só ia embora depois de trepar. Quando pensei pela primeira vez em suicídio, percebi que minha razão estava querendo me deixar. Eu não podia sucumbir à loucura, tinha de achar um jeito de sair dali. Mas como? 


*   *   *


Gisele, ao chegar ao apartamento por volta das 7 da noite, já me encontrou morto. Caído no chão, sem respirar, sem pulsação. Ficou desesperada. Chamou os gorilas. Entraram na sala e verificaram novamente os meus sinais vitais. “Sinto muito, dona Gisele”, disse o chefe deles. E, depois dos gritos e do choro convulsivo de Gisele, acrescentou: “É melhor chamarmos uma ambulância e a senhora sair daqui. Isso vai gerar escândalo”. Tiveram que puxar Gisele de perto do meu corpo, ela se agarrava em mim, me beijava, mordia minha orelha. Abri meio olho, tive de conter a euforia: a porta estava aberta. Os seguranças amparavam Gisele, prestes a desmaiar. Au revoir, filha da puta. Saí do apartamento, deixando pra trás o grupo atônito. Foi bem a tempo que os seguranças tiraram Gisele de perto de mim: não sou o ator canastrão que ela achava, e aprendi uma técnica milenar para me fingir de morto. Mas a ereção que estava vindo acabaria por me denunciar. 


*   *   *


Nunca mais nos vimos, Gisele e eu. Mas ela tinha meios de foder com a minha carreira, bastava dar uns telefonemas pra conhecidos. Não o fez. Não sei se por amor a mim, ou por medo de eu também expô-la ante sua família e amigos. Seja como for, minha carreira descarrilhou sozinha. Eu amava Gisele. Nada mais será como antes. 

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