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Conto, por Wellington Souza.

Parte I: Mais um quarto.

"Melhor parar agora de registrar minhas ações, os verbos serão conjugados todos em voz passiva e não quero voltar à condição de Costela."

          Nossas temperaturas estão há um bom tempo equilibradas e altas, o calor incomoda ainda mais quando se divide cama de solteiro. Estou de costas e me chego em seu corpo, quero mais calor. E, para sentir a respiração leve do seu metabolismo desacelerado, enrolo meus cabelos e os ajeito de lado, pousando a cabeça em cima e vou afastando-a até sentir que o seu nariz afogou-se em cabelos e que meu perfume impregne o escritório, a academia, o avião ou qualquer lugar onde esteja; que acorde e diga que sonhou comigo.

Não sei bem se o amo, se esse querer-bem é o objeto cantado tantas vezes. Mas me protege e me dá orgasmos (no plural mesmo). Talvez me sinta acomodada, numa “zona de conforto”, como diriam os profissionais de recursos humanos. Só não sinto nosso relacionamento seguro, acho que relacionamentos não são seguros, não são isentos das incertezas quanto ao futuro. Parei de sair com outros caras, mas não por respeito à virilidade, mas à feminilidade. Tento ficar quietinha, respirar o mais suave possível para não ser descoberta em vigília.

Pena não conseguir dormir em camas estranhas à minha. Nunca me acostumei a outras e não descubro o por quê. Não me esforço muito, também, talvez Deus tenha me feito assim, intuitivo que é; talvez tenha em meu subconsciente algum bloqueio que me impeça de suspender o alerta e a atividade sensorial em habitats excêntricos. Me disseram que pode ser pela mudança do ambiente. Nunca fui boa investigadora, desisto das respostas após poucas tentativas frustradas ou incertas.

Desisto e levanto. Calço uns chinelos que ficam grandes e arrasto-os até a escrivaninha, onde acredito estar a minha calcinha. Visto-a. Apanho uma lapiseira e uma folha A4 na impressora, escolho um livro de capa dura na prateleira e vou sentar-me na varanda. Todos dormem, ou fingem, tanto faz. Não há o que escrever. O livro é de Administração de Marketing.

Não sei também se ele me ama, nunca ouvi nada parecido, nem na cama. Mas isso pouco importa de tão importante que é. Melhor não pensar. Nem nos conhecemos. O pior não é nunca ter escutado palavras como paixão ou amor, o pior é não fazer parte dos planos. A questão não é nem não fazer parte dos planos, também não quero me casar; acho que é não compartilhar os planos. Não vou me fazer de culpada (não posso em consideração a mim mesma), mas gostaria de saber dos seus anseios, suas aspirações. Medos já seria demasiado, homens são herméticos e nem eles o conhecem; talvez esse seja um subterfúgio para construírem.

Vem a inspiração. Checo se o grafite está OK. “Há um cofre e não há o segredo./ O cofre está fechado./Talvez os séculos com suas armas corrosivas o abra/ talvez.”. Está frio e logo será hora de acordar.

Tivesse agora, fumaria meu primeiro cigarro. Ninguém sorri enquanto fuma, me disseram. Não quero sorrir. Acho que só deveríamos sorrir ante a morte, pois ai é certo que não haverá mais futuro para se chegar. É um erro sorrir enquanto se luta. Não tenho nada, porque o que conquisto jogo fora para ir atrás de mais, senão morro. E o cigarro me parece uma parada técnica. Meu pai fumava e quando discutia com a minha mãe sempre pausava para um cigarro na varanda e, quando voltava, estava mais sereno e a mulher logo acalmava também. Na verdade queria pensar assim e fumar, mas acho as duas coisas muito másculas. Queria ser uma mulher dedicada e fiel, mas também não ser essa. Tentarei fumar, mas só em festas.

Já estamos enjoando um do outro, acho. O nosso elo mais forte é na cama, talvez o único. Antes nos víamos quase todos os dias, nem que fosse para dar uns beijinhos apenas, no cinema ou em mesas de fundo no bar. Agora fodemos no final de semana e ele nem me liga todos os dias. Está decaindo ao sexo casual, ou banal, como dizem. Necessidades fisiológicas de ambos supridas, cada um em sua solidão. Acho que já posso começar a procurar outro ou fazê-lo acreditar isso.

“Gostaria que, ao tocá-lo/ ele se abrisse/ (como se a senha estivesse em algum buraco de mim)/ só para desmistificá-lo/ ver que não há nada insólito/ que induz a idolatria./Igual/ mas não reciclável.”.

Há tempos não via o dia germinar; o negro está ficando azul-marinho. Está também cada vez mais frio. Entro, fecho a porta e me sento próxima à varanda com a persiana aberta, numa poltrona de antiquário. Não temos mais muito assunto. Filmes, só vemos os recreativos de Hollywood que não dão muito o que comentar. Música, temos gostos totalmente opostos e nenhum de nós é eclético e tão pouco queremos dar o braço a torcer na questão. Conversas banais sobre cotidiano e vida alheia logo me deixam enfadada. Queria que ele me explicasse suas empresas, motores de automóveis, futebol que seja. Queria que me aplicasse testes.

Agora está azul-turquesa e os pássaros começam a lavrar o café-da-manhã. Qual será a diferença entre ave e pássaro? Logo acordará. Deixa a persiana aberta para que a luz do dia seja seu despertador natural. Criativo.

“//O que preciso é que esteja ao meu alcance/ como um brilhante/ para ditar a hora de usá-lo/ e de negá-lo.”

Já está ficando azul-azul. As nuvens, de invisíveis, foram pintadas dum laranja que fosforesce e já estão descorando. Acho que vou me deitar. Destaco a parte escrita da folha, amasso a não-escrita e tento fazer uma “cesta” na lata de lixo, mas erro. Levanto e vou arrastando o chinelo em direção à cama. No caminho coloco o poema na bolsa e displicentemente o livro e a lapiseira na escrivaninha. Admiro, ainda em pé, suas pálpebras trêmulas: certamente, em sonho, me perdeu.

Sento-me na cama devagar e deito tentando imitar uma pluma. Ele dorme de lado e um pouco encolhido, tento encaixar meu corpo ao seu. Conchinha. Novamente enrolo meu cabelo e faço dele travesseiro. Deixo a região da clavícula e cervical nuas, sei que ao acordar ele irá atacá-la como um anti-vampiro que dá vida ao despertar sensações diversas...

Dissolveram a aquarela azul, e agora está aguado e límpido. Os pássaros já quietaram e as nuvens estão brancas. Acho que as coisas voltaram ao normal após a turbulência que o rompimento da madrugada causa, inclusive eu.

Roço minha bunda em seu púbis em intervalos desritmados, se ele acordar um pouco mais cedo e se deparar com meu corpo livre, quererá. Não há porque terminar esse relacionamento, afinal de contas temos o que precisamos um do outro. Não sei se me portaria bem como cúmplice, talvez não seja esse o porquê de sermos. Estamos mais para um ser válvula de escape do outro, mas não no sentido portuário, tange ao circense, algo sem itinerário ou contratos. A tradução literal de boyfriend e girlfriend talvez seja a que melhor nos defina.

Ele está acordando e já vai pulando em minha nuca com os lábios. Melhor parar agora de registrar minhas ações, os verbos serão conjugados todos em voz passiva e não quero voltar à condição de Costela. Acho. Toma minha barriga com o braço e trás para si. Ataca meu pescoço e vou esquivando-me para frente ante suas investidas. Mas nesse movimento nossas partes inferiores se friccionam e ele já se faz sentir.

Ocorreu-me o título: ídolo de barro. Espero que ele me faça esquecer.


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Ídolo de Barro

Há um cofre e não há o segredo.
O cofre está fechado.
Talvez os séculos com suas armas corrosivas o abra,
talvez.
Gostaria que, ao tocá-lo
ele se chorasse
(como se a senha estivesse em algum buraco de mim)
só para desmistificá-lo
ver que não há nada insólito
que induz a idolatria.
Igual
mas não reciclável.

O que preciso é que esteja ao meu alcance,
como um Brilhante,
para ditar a hora de usá-lo
e de negá-lo.


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Créditos da Imagem:
...simplesmente mulher..., por Marisa Duarte.





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