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Mosca






Conto para a seção Fantásticos, por Tiago Correa.


"Eu estava careca e meus lábios ficaram para frente, como se estivesse pronto para beijar a mais bela das bocas femininas.Reparei que no lugar das mãos... "

          Parei um tempo e escutei. Murmúrios e vozes alteradas se misturavam, era estranho e profundo. Mantinha a posição inicial enquanto tentava aliviar meu estômago. O som dos respingos da água me distraia por alguns instantes, mas voltei à atenção para os resmungos que vinham do outro lado do muro.


- Seu cafajeste, sem vergonha. Vi você com aquela lambisgóia da Marília, Como você pode? Estudei com ela no primário e agora, que dediquei bons frutos ao lado de um homem, ele fica de xaveco com essa pessoa. Terrível.

O homem não falava mais nada. Talvez por medo de perder o casamento ou perder uma de suas melhores transas. Por fim, uma porta de madeira é fechada com violência e as vozes, antes alteradas, se esvaem, deixando o silêncio da noite.

Escoro meus cotovelos aos joelhos e fico a observar uma mosca grudada nos azulejos. Tão graciosa e pequenina. Podendo vasculhar quaisquer das situações corriqueiras das pessoas, não precisar pagar contas, não precisar trabalhar e ainda – o melhor delas -, poder fazer um ménage à trois com os vizinhos. Pura fantasia de minha pobre cabeça, pensava.

Puxei a descarga, ergui minhas calças e sai do banheiro. Eu morava numa casa até bem organizada situada próximo a um dos bairros ricos de Heggerstern. O que acontecia com os moradores da rua, praticamente todos ficavam sabendo em menos de horas. Não por serem pessoas fofoqueiras que não tem o que fazer, mas por se tratar de um lugar minúsculo onde todos se conheciam. Certa feita, Rose, uma mulher de cabelos ruivos esvoaçantes se envolveu comigo. Foi coisa rápida, de dois dias no máximo. Nos encontrávamos depois das onze da noite pois era a hora que a vizinhança ficavam com seus olhos grudados nas televisões que reproduzia um seriado italiano incrível. As ruas ficavam desertas. Chegávamos ao clímax nas ruelas escuras, as gotas de suor percorria nossos corpos, saliva, sussurros e arranhões.

Saí para comprar um pacote de cerveja e quando retornei me recostei no sofá ao som de Frank Sinatra. Percebia que a vida passava tão rápido que nem sabia o dia da semana, as horas ou o que eu deveria fazer amanhã. Em meio à pensamentos, acendo um cigarro. Ao colocá-lo na boca, o telefone toca.

- Alô.

- Olá. O senhor Martin, por favor? – dizia a voz feminina do outro lado da linha.

- É ele.

- Senhor Martin, aqui é a Sylvia. Nos conhecemos um tempo atrás numa livraria. O senhor havia me pedido ajuda, lembre-se?

- Mas claro. Como poderia me esquecer. – menti. – Como vai? Mas porque da surpresa em me ligar?

- Chegou o livro que o senhor pediu: ‘Como viver em paz com uma vizinhança brega’.

- Mas que beleza. Em que dia posso ir buscá-lo?

- Entre hoje e amanhã, senhor Martin.

Escutava o som de máquinas de escrever ao fundo e sons de moedas caindo ao chão.

- O.K. Estarei aí em alguns minutos.

- Muito obrigada. Espero sua chegada.

Ponho o telefone no gancho, pego meus cigarros, uma garrafa de cerveja e saio de casa batendo a porta por fora.

As ruas estavam tranqüilas. Alguns cães caçando gatos e borboletas azuladas sobrevoavam diante de meu nariz.

Chegando à livraria, as prateleiras que antes estavam espalhadas pelo meio da loja agora não existiam mais, se resumindo em pouquíssimas fileiras e quase nada de livros sobre elas. Peço por Sylvia. Ninguém sabia quem era Sylvia. Insisti dizendo que era uma moça que trabalha aqui e que havia me telefonado para vir buscar um livro. Pela exaltação das vendedoras, um senhor alto e de cabelos brancos, vestindo camisas e calças beges, - deduzi que seria o gerente -, chegou perto de mim e anunciou que de fato existia uma Sylvia, mas estava desaparecida a mais de um mês e ninguém sabia de seu paradeiro. Uma sensação de impotência e desespero fez com que meus poros se arrepiassem. Seria uma ilusão minha? Estava ficando maluco?

- Mas como? Eu falei com ela a menos de meia hora. – disse.

As vendedoras e o suposto gerente me encaravam com ares de desconfiança. Decerto suas mentes falavam: “Vamos chamar alguém para levar esse cara para o manicômio”, ou então “Só pode ser um assaltante ou uma piada.” Não liguei para suas expressões. Dei meia volta e saí para a rua esfriar minha cabeça. Fui andando pelas esquinas, entrei na próxima à esquerda, atravessei a avenida principal que ficava logo abaixo e dobrei duas ruas para a direita. Sentei-me num dos bancos do bar State Skill. Gostava daqui. Sempre tinha pessoas interessantes e o som era agradável.

Pedi uma dose generosa de uísque. O cara que servia demorou alguns minutos, mas logo, o copo estava em minhas mãos. A cada vez que pedia, ele demorava o mesmo tempo. Tomei cinco doses, paguei a conta e fui embora. Eu estava me sentindo estranho. Não era pelas doses de uísque, era algo diferente que afetava meus movimentos. Eu sabia o efeito que o álcool fazia comigo e tinha certeza que não era por causa dele que eu estava assim.

Tirei meus tênis e fui dormir na cama incomodado com essa reação do meu corpo.

Acordei no meio da madrugada. Estava enjoado e precisei ir vomitar umas duas vezes no vaso sanitário até que tudo parasse. Estava só de calças de pijama verde musgo. Lavei minha boca na torneira da pia e sequei na toalha pendurada logo à frente.

Minhas pernas estavam estranhas e cada passo que eu dava parecia que eu demorava mais para chegar à cama. Uísque bom esse, pensei e sorri.

No outro dia pela manhã o despertador me acorda. O criado-mudo estava distante das minhas mãos. Fui escorregando o corpo pelo colchão até apertar no botão do maldito despertador que não parava de berrar. Parecia que meus braços estavam menores que o de costume. Não dou bola e vou preparar o café. Ao calçar os chinelos, mal conseguia pôr a tira entre o dedão e o indicador. Estava apertado demais. Mas que merda é essa? – digo em voz alta olhando para meus pés. Recostei a sola do pé delicadamente sobre o chinelo, sem calcá-lo e constato algo um tanto quanto macabro. Meu pé havia diminuído de tamanho. Não sei como, mas ele havia encolhido.

Levantei rapidamente da cama e fui até o espelho do banheiro. Por aqui seria uma grande prova de minha estatura. Parei em frente e fiquei me observando. Entrei em choque. – PUTA MERDA!!

Antes minha cabeça passava acima da dimensão do espelho, mas agora eu vejo minha face, minha testa, orelhas e meus cabelos por completo. Ainda sobrava um tanto de espelho que refletia o chuveiro atrás de mim ao alto.

Não saía mais de casa depois que descobri que meu tamanho ia se reduzindo a cada dia. Mal me alimentava e não tinha coragem de ir ao médico. Estava começando a ficar deprimido. Minhas calças de pijama cor verde musgo que antes dava na altura dos tornozelos, agora já passava dos meus dedos. As camisas que sempre usava serviam de lençol nas noites de maior frio. Poderia calçar os dois pés em um único par de chinelos ou de sapatos. Os dias ficavam mais longos e as noites mais escuras. Minha visão não era mais a mesma. Além de virar um anão eu iria ficar cego. Eu sentia.

Os dias iam passando e tudo ao meu redor ficava maior. Tomavam dimensões estrambólicas e desproporcionais para meu novo tamanho. Me sentia preso numa muralha que eram as paredes da sala e o quarto. Fui obrigado a serrar os pés da mesa e das cadeiras para poder sentar e fazer as refeições. Antes, quando eu tinha meu tamanho normal de gente normal, eu lia jornais de folhas gigantescas, agora via em minhas mãos uma revista em quadrinhos do tamanho de um celular. As tardes iam passando. As noites iam voando e os dias correndo. Me deparei com tudo dentro de casa exageradamente grande. Meus braços, depois de alguns dias, começaram a ficar estranhos. Eles se debatiam com tanta força em minha perna que avermelhava em menos de minutos. Meu quadril estava empinando involuntariamente e minhas nádegas estavam sumindo. Deveria ter no máximo um metro e vinte de altura agora.

Hoje já fazia uma semana e dois dias que eu estava encolhendo. Desci o espelho da parede e posicionei em cima do sofá para ficar vigiando minha redução de tamanho. Deveria estar agora com noventa centímetros. Meu nariz havia afundado para dentro da face e minhas orelhas não estavam mais ali. Simplesmente haviam desaparecido. Eu estava careca e meus lábios ficaram para frente, como se estivesse pronto para beijar a mais bela das bocas femininas. Reparei que no lugar das mãos surgiam asas brancas e cristalinas que refletiam quase um arco-íris de cores quando a claridade do sol entrava para dentro de casa.

Não conseguia mais ir ao banheiro. Defecava em qualquer canto da casa gigante. Não usava mais roupas, pois nenhuma mais ficava perfeita em meu corpo.

Num dos dias que acordei pela manhã, eu simplesmente levantei vôo e fui planando pelos cômodos da casa, avistando tudo de cima. Parei em frente ao espelho que ainda permanecia em cima do sofá. Comecei a sorrir sem lábios. – Eu virei uma mosca! – disse com uma voz fina.

Os dias seguintes eram iguais. Voava, voava e voava. Defecava e batia as patas da frente sobre a cabeça.
Teve um dia que resolvi investigar a vida dos vizinhos. A primeira pessoa que gostaria de ver era a vizinha dos fundos que havia brigado com o marido há algumas semanas atrás por causa de sua sem-vergonhice.
Entrei pela fresta da janela da cozinha o mais rápido que pude. Percorri a sala, o banheiro e o quarto do casal. Ela não estava em casa. A única pessoa que vi foi o homem negro e com olhar estranho quando dei um rasante perto de sua orelha. Pousei na pia da cozinha para descansar. Estava exausto de tanto voar por aí sem ter o menor jeito para isso.

Escutei um zunido. Estava se aproximando. Minha audição estava dez vezes mais aguçada que antes quando eu era um humano. Meus olhos miraram para a outra extremidade da cozinha. Lá vinha mais uma mosca juntar-se a mim. Rapidamente a mosca pousou próximo de mim.

- Olá. Finalmente apareceu. – dizia

- Quem é você? – pergunto

- Sylvia.

Vi seus lábios grudados fazerem uma força descomunal para sorrir. Não entendi mais nada. Mas preferia nem entender. Dou meia volta na cozinha e saio pela janela, indo em direção de casa. Passo pelo buraco da fechadura da porta principal e chego ao meu quarto até chegar embaixo da cama e adormecer pousado em uma meia suja que estava lá alguns dias, creio eu.

No próximo dia saio para ir ao parque que ficava a dois quarteirões de casa para tentar pensar nos acontecimentos que vinham surgido ate então. Porque acabei virando um inseto tão pequenino e desjeitoso?Consegui chegar na areia do parque que beirava um riacho depois de uma hora voando e pousando vez que outra em fezes de cavalos e folhas de árvores.

Não queria entender mais nada. A vida estava terminada para mim. Nada mais fazia sentido, estava perdido e desiludido. Penso nas coisas que fiz. Foram todas muito bem elaboradas e me contive quando dei por mim que nunca mais seria um humano novamente.

Minhas patas dianteiras ainda batiam fortemente em minha cabeça e antenas. Percebo um sinal de outro inseto próximo. Começo a averiguar ao meu redor onde estaria. Olho para os lados, para baixo e próximo a um chafariz. Nada de ver um intruso. Em meio às batidas das assas, acabo caindo em uma teia de aranha estendida em um galho de uma árvore logo acima. Me debato para tentar sair com vida. Todas as forças que fazia com as patas dianteiras e com as asas faziam-se ficar cada vez mais grudado feito cola. A teia começava a balançar. Um som de arranhões ecoava em minhas antenas. Lá estava ela descendo a teia graciosamente para me devorar com suas mandíbulas afiadas goticulando saliva de apetite. A cada passo que ela dava, começava a suar frio e a temer o pior.

Fecho os olhos. Não sinto mais nada do meu pequeno corpo. Só sinto meus olhos se fechando e a respiração ficando cada vez mais difícil.

Entrego meu espírito para a aranha gigantesca e minha alma ao Deus varejeira.


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Créditos da imagem:
whisky…, por Nuno M Rosário Casimiro

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