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O garoto, a médica, o pirulito e a negociação


Conto, por Matheus Galvão


"A mãe fica encurralada, mas já é o momento de dizer que é; e se ele fizer um escândalo? E o garoto é escandaloso. Se o vissem no primeiro dia de aula, quando a mãe desapareceu sem mais nem menos..."


O menino abriu a embalagem de uma bala de maçã sem olhar para ela; assistia a televisão, um desenho animado. Parecia desatento. A atendente preenchia os dados do paciente. O paciente era ele, o menino. A bala e a televisão faziam parte da engenharia que faria o garoto aceitar, ou pelo menos se acalmar até a presença da doutora. Havia mais crianças, bebês mamavam, outras crianças mais agitadas brincavam com bonecos e outros brinquedos espalhados num ambiente cercado. O menino de olhos atentos na televisão. 

Chamaram um Maurício. Aí ele sentiu algo estranho. Ele, como muitos outros petizes, não gostam de médicos. Eles, os médicos, enfiam um pauzinho na boca, dá vontade de vomitar. As crianças têm medo de agulha, de injeção. "Mas hoje não tem agulha!" diz a mãe. Ela tenta corrigir o próprio erro. O de apresentar um ambiente clínico maligno quando o filho não quer comer ou coisa do tipo. "Se não comer, vai ficar fraco e doente e vai ter de ir ao médico tomar injeção". 

-Mãe, aqui é o médico é? - perguntou ele, já suspeitando.

A mãe fica encurralada, mas já é o momento de dizer que é; e se ele fizer um escândalo? E o garoto é escandaloso. Se o vissem no primeiro dia de aula, quando a mãe desapareceu sem mais nem menos... Não teve quem segurasse. Esperneou, gritou, chorou, babou, ficou rouco; as veias estufaram.

-Dona Mônica, não tem jeito, a senhora tem que vir buscá-lo - disse a coordenadora pelo telefone, naquele dia.

Imagine, ali, a vergonha que passaria. Ele balançou a perna da mãe, já com voz de choro. 

-Vamo embora, mãe. Tô com dor de barriga.

-Então vamos esperar o médico, ele vai dar um jeito nela.

A atendente sorriu; o menino se arrependeu da desculpa; a mãe respirou fundo; o tal Maurício saiu da sala. Levava consigo um pirulito, e ria. A mãe tentou aproveitar o momento:

-Olha lá o amiguinho, conseguiu um pirulito, você já é um rapazinho, não pode ter medo, também.

O garoto balançou a cabeça, fez cara de choro, encostou a cabeça na barriga da mãe.

-Mas eu não quero - disse enquanto arregalava os olhos na preparação para o show de lágrimas.

-João Miguel! - a médica apontou na porta.

O menino, ao ouvir seu nome, levantou-se assustado. Começou a voz ainda mais chorada; sacudia a cabeça; a mãe sem graça. A médica, com bonomia, percebendo mais uma daquelas situações costumeiras da sua profissão de pediatra, entrou na sala e saiu com um Bob Esponja de borracha, além de um pirulito. Tentou negociar. Ela tinha um estetoscópio rosa no colo.

-Você entra com a tia e ganha um Bob Esponja e um pirulito, não dói nada, só vou ouvir o coraçãozinho.

Os diminutivos e as chantagens funcionam geralmente.

-Mas eu gosto do Patrick, tem Patrick?

A médica olhou pra mãe; sorriu.

- Dá próxima vez você ganha o Patrick, fico te devendo.

O menino, de mãos dadas com a médica, entrou na sala, já com o Bob Esponja na mão. O pirulito só depois.

*

Um comentário:

  1. Tem uma verdade interessante nesse conto, além de sua beleza toda, claro. A gente costuma chantagear as crianças lhes ameaçando com médicos diante de suas pirraças para não comer e depois não quer que os pequenos tenham medo. rsrs. Muito legal! Abraços. Paz e bem.

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