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O Milagre da Borboleta




Conto, por Cláudia Banegas

"As bordas de suas asas eram verdes. Por um momento, passou pela sua mente que verde era a cor da esperança."

Lá estava ela. De camisola branca, descalça, subiu pelas escadas até chegar no telhado do prédio de 15 andares. Não tinha mais esperanças, todas se foram, morreram. Todos os sonhos também se foram.

Passou a mão pela barriga, bem lentamente. O que seria daquela criança? Agora ela não sabia mais. Os pensamentos estavam confusos, embaralhados. Como chegou a ficar assim?

No início era tudo tão lindo, um amor perfeito. Tinha encontrado o seu príncipe encantado.

Ele era maravilhoso. Meigo, atencioso, simpático e carismático. Conquistou todos os seus amigos, em apenas uma única noite de festa. Ela o conhecera no metrô, em uma das viagens ao centro da cidade. Se tivesse o dom de ver o futuro, teria se afastado dele, corrido, se escondido, teria feito de tudo para que ele não a visse, não a sentisse, não tivesse sua atenção despertada.

Teria sido o destino? Quem sabe... que destino traiçoeiro foi esse então...

Ficaram juntos por dois meses. Tudo parecia ser tão lindo... eram o casal perfeito. Então, um dia, a verdade veio a tona.

Estava no mercado, escolhendo frutas e legumes que fariam parte do cardápio especialmente preparado para ele, quando o celular tocou.

Por telefone, ele contou que estava no aeroporto. Ia viajar no primeiro vôo. Viagem só de ida, para o exterior. Com a voz embargada, ele disse que tinha amado todos os momentos vividos ao lado dela, mas que infelizmente não poderia ficar. Tinha esposa e dois filhos no Canadá. Sabia que ela era especial, e que um dia encontraria uma pessoa que pudesse ficar ao lado dela, para sempre.

Que diabos!

Ela não queria uma outra pessoa, ela o queria!

Sabia que era especial, mas queria ser a única!

O que faria com todo aquele amor que enchia o seu coração?

Simplesmente o esqueceria? Seria simples assim, como quem seleciona um texto no computador e apaga tudo, apertando uma simples tecla?

Largou todas as compras no carrinho e foi para casa, ansiosa para ficar sozinha. Precisava esquecer aquele dia, precisava esquecê-lo, precisava dormir. Pegou alguns calmantes e um copo de água.

De que adiantaria? Com os comprimidos na mão, ela pensou de que forma eles a ajudariam. Se não acordasse mais... mas haveria um dia seguinte, e outro, e mais outro... como sobreviveria a eles sem o grande amor da sua vida?

Que tipo de pessoa faz outra feliz, plena e realizada, para depois deixá-la, subitamente, transformando-a na pessoa mais infeliz da face da Terra?

Por semanas, fugiu dos amigos e da família. Não foi mais trabalhar. Provavelmente, seria despedida, mas e daí? Nada mais importava.

Foi quando em uma manhã, acordou com enjôos fortíssimos.

Desconfiada, foi em uma farmácia e comprou um teste de gravidez. Não deu outra.

Estava esperando um bebê. Deveria ter suspeitado mais cedo, afinal, sua menstruação não era de atrasar, mas achou que fosse algo psicológico, um efeito do seu estado emocional. Olhando pela janela, pela primeira vez, reparou em um jardim. Borboletas bailavam felizes, rápidas, leves, banhadas pelo sol que as amornava. Pareciam felizes.

Queria ser como elas... feliz e leve, mas era impossível. Sabia que algo dentro de si havia morrido.

Na manhã seguinte, não acordou diferente. Pelo contrário, o desespero aumentara.

Então, ainda de camisola, subiu pelas escadas, até o telhado.

Não havia ninguém. O dia estava apenas começando. Seria fácil, rápido e eficiente.

Com um pouco de sorte, não sobreviveria.

Colocou um dos pés na beirada do prédio. Respirou fundo. Se preparava para colocar o outro quando algo aconteceu. Uma linda borboleta branca pousou em cima do seu pé, mas não era uma borboleta qualquer. Tinha algo diferente nela.

As bordas de suas asas eram verdes. Por um momento, passou pela sua mente que verde era a cor da esperança.

Borboletas são o símbolo de transformação, mutação; quando as lagartas, antes pesadas, lentas e feias, saem do casulo, nunca mais são as mesmas.

A borboleta ficou ali, no seu pé, por alguns segundos. Parecia querer dizer alguma coisa.

Por que voara tão alto? Por que se afastara tanto do jardim?

Haveria uma razão ou tudo era apenas fruto da sua imaginação?

Um vento suave soprou em seus cabelos; com as costas das mãos, os afastou do rosto.

Mais uma vez, passou a mão pela barriga. Dentro de si, carregava uma nova vida.

Em um insight, entendeu que o que realmente importava não eram os fatos do passado, mas sim o que faria no dia chamado Hoje, para que seu futuro fosse melhor.

Fora abandonada. Estava doída, magoada, deprimida, mas seriam essas razões suficientes para abandonar um ser que não pediu para vir ao mundo?

Não suportava o abandono e agora, abandonaria?

Lentamente, tirou o pé da beirada do prédio. Andou alguns passos para trás e dando meia volta, retornou ao seu apartamento.

Tomou um banho e imaginou que naquela água que descia pelo ralo, desciam suas razões para deixar de existir. Por que desistiria, sem ao menos tentar? Tentar não significaria necessariamente, conseguir, mas e daí?

É melhor tentar e não conseguir, do que nunca tentar.

É melhor ter amado e perdido, do que nunca ter amado.

É melhor viver... para depois, ter histórias para contar aos netos.

Naquele telhado, aconteceu um milagre.

Sete meses depois, nasceu Esperança.

*
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Créditos da imagem

2 comentários:

  1. Belo conto, Cláudia. Uma narrativa consistente, uma história comovente, um final inesperado. Abraços. Paz e bem.

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  2. Gostei muito porque, ao ler seu conto, parece que viajei através de suas palavras.
    Eu acompanho o seu trabalho e, enquanto você continuar escrevendo, nunca deixarei de fazer isto.

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