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Se correr o bicho pega



Conto, porJota Marques.

"Precisava manter a adrenalina bombeando em seu corpo, ou do contrário, toda sua força de vontade entraria em colapso."




André corria com todas as forças de suas pernas pelas ruas e avenidas, forçando seu caminho por entre pessoas que cuidavam de seus afazeres diários. Intrigadas pela agitação, acompanhavam com seus olhares julgadores a passagem do moço. Donas de casa e empregadas domésticas, ignorando tendências ecológicas da moda enquanto lavavam as calçadas, saltavam em seus chinelos, assustadas e enraivecidas pelo frenesi. Carros freavam bruscamente em xingamentos velados quando o rapaz atravessava sem medo e sem pudor pelos cruzamentos da cidade. Ouvia o som estridente característico do escapamento da moto que o perseguia, fazendo com que acelerasse além de seu limite. Uma curva, silêncio; um descanso. Tempo para recuperar o folego. Pernas exaustas pedindo trégua. A roupa encharcada pelo suor. O torpor pela falta de oxigênio no cérebro afetando-lhe os sentidos, misturando-os com lembranças remotas de sua infância.

- Corre André! Corre filhão! - gritavam seus pais a plenos pulmões junto da torcida. Não podia se virar para receber seus sorrisos: seus olhos concentrados na linha final. Passadas firmes e decididas ultrapassando seus adversários; a glória enfim.

Vitória após vitória, etapa por etapa, o jovem fenômeno nos quatrocentos metros rasos, teve sua trajetória acompanhada de perto por pessoas importantes do meio desportivo desde seu início, quando fora selecionado para a equipe de atletismo do colégio. Seus professores, seus pais, o diretor da escola, todos com quem convivia dividiam esse momento.

Numa sociedade onde o sucesso é cobrado em cada propaganda, cada outdoor que embeleza o horizonte acinzentado das estradas, como se fosse de uma característica essencial para chegar-se à virtude, tal qual idealizara pensadores de renome histórico, a conquista desse dia desdobraria-se em uma série de oportunidades. Um pano de fundo para lucrativos empreendimentos altruísticos, deixando-lhe a responsabilidade universal de continuar a ser um vencedor. As esperanças de uma família pobre depositadas em seus frágeis ombros de menino.

Os gritos de uma motocicleta descendo a rua despertaram-no dos sonhos do passado. Assutado, disparou em nova carreira na maratona urbana. Sua linha de chegada nessa corrida era o shopping, onde pretendia o sossego físico e mental para lidar melhor com sua situação. Ignorava as solas de seus pés em brasa. Continuou sua jornada despudorada saltando em frente de ônibus e carros, mulheres e crianças, cães e latas de lixo, aos trancos e barrancos, até o templo de adoração da vida consumerista.

Sua velocidade diminuía cadencialmente conforme se aproximava das grande portas de vidro decoradas de cartazes promocionais. Um segurança desconfiado, daquelas pessoas que não se deixam enganar por sorrisos rasteiros, acompanhou a entrada do homem em estado lastimável que arrastava seus pés cansados porém, num passo acelerado e suspeito.

André não desejava despertar muita atenção por sua aparência desordenada. Um leve acerto no cabelo com os mãos pareciam-lhe bastar por hora, ocultando seus temores com a expressão de alguem apressando-se para aproveitar um promoção ocasional de alguma loja. Preferia ir até o banheiro para lavar seu rosto, sentir o alívio frescor da água em seus lábios e deixar-se descansar em algum vaso sanitário, mas a ideia de se encurralar em um lugar com apenas uma saída o aterrorizava. Procurou por maior conforto em uma grande loja de roupas, com visibilidade para todos que entravam e saiam, onde poderia se misturar facilmente ao enxame de compradores.

- Posso ajudar com alguma coisa? - apressava-se a jovem vendedora, não se incomodando pelo estado deplorável de seu cliente em potencial. Fazia a pergunta de rotina com o falso carisma comercial, motivada por minguadas comissões de vendas.

- Estou apenas dando uma olhada. - respondeu simulando interesse por alguma blusa no cabide.

- O senhor aceita um copo d água? - continuava com pretensa solicitude.

- Não precisa, obrigado. - disse incapaz de continuar a sustentar o sorriso amarelo.

- Qualquer coisa meu nome é Carla, ficarei a disposição. - as falas retiradas do roteiro do bom atendente.

Suspirou de alívio com a desistência da mulher. Pensou na ironia do oferecimento de ajuda quando nenhuma perspectiva nascia no seu horizonte. Voltou sua atenção para a agenda de seu celular, à procura por alguém que poderia ajudá-lo a contornar essa situação. Não tinha muitas opções nesse momento. Sua lista de contatos limitava-se a poucos parentes que a muito não tinha contato, e algumas pessoas que, além de não poderem ajudar, talvez complicariam ainda mais. Tentaria falar com o Bernardo ou com o Rafael, pensava. A essa altura do jogo o que mais poderia perder.

Continuava sempre em movimento pelos corredores da loja. Seu corpo cambaleante esbarrava com as outras pessoas. Sua frustração chegava à níveis cataclísmicos com o toque sinalizando que seu celular estava fora da área de cobertura. Vários clarões em sua visão, o zunido em seu ouvido, lembravam-no da necessidade de um descanso, mas não podia deixar-se fraquejar. Precisava manter a adrenalina bombeando em seu corpo, ou do contrário, toda sua força de vontade entraria em colapso. Finalmente, como em um passe de mágica, a conexão de seu celular foi do zero para a mais perfeita recepção já atingida. Respirou fundo e discou. A cada toque seu coração acelerava.

- Atende essa merda Bernardão. - gritava em vão com o aparelho, como um Ali Babá pós-moderno, entoando as palavras mágicas para satisfazer seus desejos. - Merda!- disse ao fim, despertando o interesse dos outros compradores, ao sinal de chamada perdida. Seu impulso de arremessar o celular, fora impedido por um súbito lampejo de autocontrole.

Não havia mais o que fazer naquele lugar. Não poderia permanecer escondido ali por muito tempo. Seus amigos não podiam, ou não queriam, atender seus telefones. Mergulhando cada vez mais em um transe psicótico, continuava a busca em sua agenda por alguma solução. Seus olhos deitaram-se em um nome no telefone que a muito não ouvia a voz. Relutante discou, sentindo o tempo de uma vida em cada chamada, até ser finalmente atendido.

- Alô. - dizia calmamente a voz suave de mulher do outro lado da linha.

"Mãe", desejava dizer enquanto seus olhos marejavam, atacados pelo cansaço e pela tristeza.

- Alô? Alô?! - questionava incessantemente a mulher. - Deve ter caído a ligação. - e desligou por fim.

Mesmo agora era incapaz de falar o que precisava ser dito. Um pedido de desculpas? Mesmo atrasado o que mais ele diria a sua mãe? Inconscientemente, seus pés levaram-no até o estacionamento. O calor do sol de outono queimando em seu rosto. Recostou-se em um carro erguendo sua cabeça aos céus e fechou seus olhos para sentir o frescor do vento. Suas pernas eram incapazes de sustentar o seu peso e deixaram-se encolher. Com as mãos apoiando seu rosto desabou-se em prantos. Chorava como uma criança. Arrependia-se de todo o sofrimento causado a sua família como da vez em que foi preso: o olhar de desgosto de seu pai, sua atitude impertinente, virando as costas para sua mãe e seus irmãos enquanto o policial o colocava no banco de trás da viatura. A curiosidade dos vizinhos e passantes para com o sofrimento alheio.

Os anos subsequentes a sua grande vitória no colegial, não mostraram-se à altura das expectativas. Algumas poucas vitórias sem importância não foram capazes de manter o patrocínio e a bolsa de estudos recebida. Sem essa ajuda, era incapaz de continuar arcando com os valores altos da mensalidade escolar. Sua família não sacrificaria o bem estar de quatro filhos em favor de um, para concluir um curso de nível superior onde ele pouco deu valor ao que lhe era ensinado. O sonho acabara, não teve outro caminho a não ser contentar-se com a mediocridade da vida comum, em um trabalho simplório para conseguir um salário de miséria. Insatisfeito com sua condição, enterrou-se em empreendimentos de legalidade duvidosa para progredir na cadeia social. O pouco que conseguia diluía-se no estilo de vida discutível que desenvolveu. O álcool, as drogas, as más companhias, as festas, os gastos desnecessários com roupas e outros bens. A arrogância, a indiferença para as súplicas de sua mãe, culminaram naquela tarde de tristeza e vergonha.

No ambiente hostil e selvagem do sistema carcerário nacional, encontrou seu caminho por trilhas perigosas, relacionando-se com criminosos de grosso calibre. Embarcando na vida alternativa que o recebeu de braços abertos, com oportunidades arriscadas mas de retorno certo. Mesmo após o cumprimento de sua pena, continuar com esse trabalho era a única coisa que sabia fazer agora. Nunca voltou a procurar sua família, seus nomes eram apenas carácteres luminosos sem importância no visor de seu celular.

Não continuaria nessa cidade. Precisava voltar até os quartos de fundos onde morava. Juntar tudo que ainda tinha, e recomeçaria em outro lugar. O segurança do shopping fazia sombra com seu porte avantajado. O olhar de poucas amizades, a voz grave sem falsa cordialidade.

- O senhor é proprietário desse veículo?- André precisou de um momento para lembrar-se de onde estava.

- Não senhor. - a voz saia com dificuldade, a garganta seca.

- Então terei que pedir para o senhor ir a outro lugar, porque não pode ficar sentado entre os carros não.

- Sim senhor. - não tinha a energia e nem a disposição para bravatas infundadas.

Esticou suas pernas sentindo um estalo nos joelhos, coçou os olhos com dificuldade e se pôs a caminhar lentamente para a saída do estacionamento. Seu vaguear errático e despreocupado foi tomado de assalto pelo o estouro do escapamento de algum carro nas ruas, dando-lhe a dose exata de energia para despertá-lo de divagações filosóficas sobre a vida, arrependimento, família e amigos.

Prosseguiu com extrema cautela até chegar em sua casa. Verificou em cada esquina, se haviam sinais da motocicleta branca e azul que estava em seu encalço desde aquela manhã. Às ruas, crianças brincavam inocentes de futebol, vivendo em seus sonhos como se fossem os grandes heróis do esporte, com direito a narrações de seus feitos incríveis. As sombras bem vindas projetadas pelas árvores nas calçadas recobrando-lhe o vigor, enquanto uma dona de casa juntava as folhas secas com a vassoura.

O portão enferrujado, com uma dobradiça precariamente composta de arames, marcava a entrada do corredor que levavam ao seu lar. Suas mãos tremiam enquanto tentava acertar o buraco da fechadura. Arrastou seus pés através do pequeno aposento. A cama convidativa para um merecido descanso ignorada enquanto revirava caixas de sapato, gavetas e armários à procura de seus documentos, algum dinheiro, e um cigarro. Contentou-se com seu velho documento de identidade onde mal podia-se ler seu nome encontrado em uma gaveta, algumas notas enroladas de dez reais sobre a mesa e um cigarro deixado pela metade dentro do lixo.

Enquanto saboreava seu cigarro acompanhado de um refrescante copo d'água de torneira, aproveitou mais esse momento em que pode respirar com calma, para arquitetar seus planos de fuga. O som de uma motocicleta à distância arrepiou-lhe os cabelos da nuca, e trouxe sua atenção de volta aos acontecimentos mais próximos. Ouvia o som do portão abrindo, e por um momento desejou ser alguma criança tentando entrar para recuperar uma bola perdida. Olhou pela fresta da janela, tomando cuidado para não ser visto. O rapaz de mais ou menos sua idade, vestindo chinelos e uma camiseta velha de time de futebol, atravessava o portão sem se preocupar com as crianças brincando na rua. Aproximava-se furtivamente de sua porta com uma pistola em punho.

O coração batia ensurdecedor em seu peito. Estava encurralado. Tinha que aproveitar essa chance: sua mão agarrou a panela suja sobre o fogão. Abriu a porta, saltando sobre o invasor e o golpeou até que sua mão afrouxasse da arma. O sangue manchava suas roupas e alguns garotos esticavam seus olhares para o corredor. Partiu mais uma vez em disparada em direção a rua, tropeçando no rapaz estendido ao chão. As crianças, antes ocupadas com suas brincadeiras, olhavam assombradas para o homem enlouquecido que corria pelas calçadas.

A motocicleta branca e azul surgia a sua frente no meio da rua, sinalizando a chegada do cavaleiro da morte com seu escapamento ruidoso. André aproveitou o pouco que restava de força em suas pernas para pular sobre o muro de uma casa, numa tentativa frustrada de fugir pelos fundos da casa. A queda do outro lado finalizou seus planos em uma torção feia em seu tornozelo. Enquanto sentia a dor aguda subindo em seu corpo, ouviu os movimentos vindos do lado de fora. Em seus últimos momentos ergueu sua cabeça e viu sobre o muro a figura de seu perseguidor: a arma em punho o olhar frio, as palavras de xingamento. Um, dois, três disparos. Chegava ao fim essa corrida. Algumas pessoas saíram as ruas para verificar todo esse barulho. As crianças gritavam e corriam para todos os lados. A moto branca e azul deixava o local. André agarrava-se ao fim de sua vida em cada suspiro antes do silêncio e da escuridão solitária da morte. Mães puxariam seus filhos pelos braços, enquanto outras pessoas se aglomeravam no local, sedentas pelo sabor da tragédia.

A história do jovem André seria esquecida e soterrada pelas milhares de manchetes de jornais que retratam a violência urbana sem o seu contexto humano. Pais de família, mães, médicos, advogados, entre outros, continuariam a alimentar a máquina de banalidade social, preocupadas com suas próprias vidas e seus próprios problemas. Buscando cada um sua própria linha de chegada, sua própria janela de oportunidades perdidas.

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Créditos da imagem Running man, por Jorge Ferreira

2 comentários:

  1. Se não correr o bicho pega mesmo assim, não é? Esplêndido retrato social moderno, Jota! Esplêndida narrativa também. Meu abraço. Paz e bem.

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  2. Parabéns pelo conto! Muito bem escrito... me emocionei. Aí parei e percebi que não basta emocionar-me, é necessário agir. Obrigada então pelo "cutucão" desproposital e certeiro.

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