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Conto, por Wellington Souza.


Parte II - Segundo quarto.

"Abdiquei do amor não pela presunção de crer que, em mim, nada falta; mas sim pela convicção um tanto zen-budista de que, como nada quero ter, nada me falta."




Acordo e fico quieta, sem saber ao certo quem está comigo. Nesses momentos relembro que a saudade é melhor que a presença. Não frustra. Após a batalha, sempre me amparo no inimigo talvez na esperança (ingênua) do êxtase homeopático ser eterno, e me esqueço de mandar o corpo varão (armadura, apenas?) retirar-se da campanha.

Ergo-me ele está sentado ao meu lado na cama, de livro aberto, mas me observando.

“Sei o que é isso”, falo. “O que? Olhar um anjo dormir?”, responde. Sorrio: “não. Não conseguir dormir em camas estranhas.”

Ele para o olhar e perde-se, pensativo.

Deve estar tentando adivinhar em quantas camas eu já me postei insone. Tenta disfarçar a sua ida e a sua volta largando o livro de lado e deitando-se um pouco, se ‘aconchegando’ mas ainda encostado na cabeceira da cama.

Em sinal de compreensão, me endireito um pouco para melhor vê-lo e sorrio novamente, deixando-me ser amparada. Posto minha cabeça em seu ombro e com o dedo indicador fico brincando com uma pinta que lhe tinge o peito. Ouço as ondas do seu coração sereno.

Assim ficamos, com o silêncio da madrugada que entra pela janela aberta. Perigosa solidão essa, acompanhada. Solidão de noivos em lua de mel; de monges perante um ídolo. Ainda não descobri o que é o amor; esse sentimento que brota de mim em momentos assim, acalentados, faz parte de um itinerário percorrido em noites que passo acompanhada. “Você sente saudade de algum amor” pergunto a mim mesma, mas em voz alta.

As palavras impressas no ar logo desbotam-se, mas ficam ecoando em mim. Acompanho ao ritmo da pulsação dele tornar-se frenética. Ajeita-se na cama e responde.

“Sinto a saudade como se ela tivesse se desvanecido da morte. É freqüente aparecer em sonhos mas, ainda hoje, me assombra mesmo acordado. No almoço, no cooper, no escritório, durante leituras sobre finanças ou poetas marginais. Me acostumei, dizem que nunca passa. Aos poucos vai perdendo a dor e fica somente o carinho. Desculpe o clichê, mas vira uma cicatriz.” “De lâmpada fluorescente?”, pergunto. “O quê?” Antes conversávamos sem nos olharmos, mas agora ergo-me a ele para explicar. “Lâmpada fluorescente... Sabe aquelas lâmpadas que são um tubo grande e delgado... que tem nas escolas e lugares assim? Então, minha mãe e meu pai sempre diziam que se eu me cortasse com os cacos dela a ferida nunca cicatrizaria devido ao gás de mercúrio. Na verdade nunca atribuíram ao gás, mas acrescentei esse detalhe ao mito.” “Pode ser”, responde-me, apenas. E desvia o olhar.

Volto ao seu ombro e ao sinalzinho em seu peito. Os detalhes pertencem somente a ele. Serão todos os homens assim: ilhas em que pisamos, mas nas quais continuamos a naufragar? Será o amor colonizar essa terra e receber dela frutos e multiplicarmo-nos?

Se ele perguntasse sobre a minha saudade, mentiria. Sinto que não é normal viver sem amor. Mas se existem pessoas que não conseguem chorar, outras que não sentem dor alguma, por que uma mulher não pode viver sem ser Mulher e sem amar, sem chorar, sem ser generosa e sem sentir dor? Tem sempre que ser a costela de alguém?

Lembro-me da minha casa infantil, meu quarto imaculado onde ouvia estórias de bruxas e princesas nas quais o  máximo do sexo se dava no final, com o beijo de júbilo. Tão avesso a esse meu quarto maduro, onde as estórias começam com o beijo...

Diria que amei muito um homem, mas que ele embrenhou-se na selva que brota a cada manhã... e que eu também embrenhei nessa mesma selva, mas em sentido oposto... para tornar impossível o reencontro. Essa estória seria uma meia-verdade, pois realmente estou sozinha e fujo de alguém – mas nunca conheci esse alguém.

“Por que parou? Estava bom”.

Agora é ele quem me grita da selva. “Continue acariciando meu peito, estava bom. É confortante o tato.” Imersa, nem havia percebido a interrupção do movimento.

Um instante depois, ergo-me olho séria e fixa em seus olhos. Ele também se posta sério e não desvia o olhar. Instintivamente, apostamos que quem rir (ou esquiva o olhar) primeiro perde. Ele faz uma careta com a boca e eu tento ficar vesga; ele empurra a ponta do nariz para trás, exibindo as fossas nasais e eu, ainda vesga, inflo as bochechas. Ele balança randomicamente a cabeça e eu fico “bombando” o ar da minha boca. Duas crianças na tentativa de emular o paraíso.

Mas logo enjôo e rio, para dar um final lúdico à brincadeira.

“Independente de quem ganhasse, o prêmio e o castigo seria sexo.” “Cumpramos!”

Começa a beijar o meu pescoço. Preciso de paz, de aconchego, de harmonia, mas temo a pessoa, o provável cavaleiro, que me trará essa luz. Dizem que o amor nasce da admiração, quando projetamos no outro o que acreditamos não ter e essa personificação de nossas lacunas se torna inseparável. Abdiquei do amor não pela presunção de crer que, em mim, nada falta; mas sim pela convicção um tanto zen-budista de que, como nada quero ter, nada me falta.

Talvez me cause verdadeira admiração encontrar outro alguém que nada queira, ou melhor, que nada espere. Talvez nessa superfície tão despreparada ao amor eu consiga me projetar e encontre, enfim, o remédio para a dor de existir.

Passou lentamente pelos meus seios e abdômen. Sempre, nessas horas, sinto-me um ídolo e, como tal, procuro não pensar em nada. Agora, ajoelhado como um mulçumano em direção à Meca me umedece e ateia fogo.


*
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Créditos da Imagem:
na cama dos sonhos II, por Sónia Cristina Carvalho.

2 comentários:

  1. Belíssimo o conto, meu caro Wellington! Um abraço. Paz e bem.

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  2. Eu nunca tinha lido. Mas é tudo muito profundo e claro. Escreves muito bem!!! Já sou sua fã!

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