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Descentrando¹ o sujeito



Como uma introdução aos artigos que tratarão do sujeito pós-moderno na literatura, escolhemos uma seção do capítulo do livro de Stuart Hall. Questões teóricas sobre personalidade e consciência da personagem podem ser solucionadas (ou levantadas) após o escritor ter em mente os conceitos aqui apresentados.

Boa leitura!





Capítulo. 2.2) Descentrando¹ o sujeito
¹: Descentrar: afastar(-se), desviando-se de centro ou eixo central; descentralizar.

in HALL, Stuart. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva Guacira Lopes Louro. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.


Aquelas pessoas que sustentam que as identidades modernas estão sendo fragmentadas argumentam que o que aconteceu à concepção do sujeito moderno, na modernidade tardia, não foi simplesmente sua desagregação, mas seu deslocamento. Elas descrevem esse deslocamento através de uma série de rupturas nos discursos do conhecimento moderno. Nesta seção, farei um rápido esboço de cinco grandes avanços na teoria social e nas ciências humanas ocorridos no pensamento, no período da modernidade tardia (a segunda metade do século XX), ou que sobre ele tiveram seu principal impacto, e cujo maior efeito, argumenta-se, foi o descentramento final do sujeito cartesiano.

A primeira descentração importante refere-se às tradições do pensamento marxista. Os escritos de Marx pertencem, naturalmente, ao século XIX e não ao século XX. Mas um dos modos pelos quais seu trabalho foi redescoberto e reinterpretado na década de sessenta foi à luz da sua afirmação de que os ”homens (sic) fazem a história, mas apenas sob as condições que lhes são dadas”. Seus novos intérpretes leram isso no sentido de que os indivíduos não poderiam de nenhuma forma ser os ”autores” ou os agentes da história, uma vez que eles podiam agir apenas com base em condições históricas criadas por outros e sob as quais eles nasceram, utilizando os recursos materiais e de cultura que lhes foram fornecidos por gerações anteriores.

Eles argumentavam que o marxismo, corretamente entendido, deslocara qualquer noção de agência individual. O estruturalista marxista Louis Althusser (1918-1989) (ver Penguin Dictionary of Sociology: verbete ”Althusser”) afirmou que, ao colocar as relações sociais (modos de produção, exploração da força de trabalho, os circuitos do capital) e não uma noção abstrata de homem no centro de seu sistema teórico, Marx deslocou duas proposições-chave da filosofia moderna:

• que há uma essência universal de homem;

• que essa essência é o atributo de ”cada indivíduo singular”, o qual é seu sujeito real:

Esses dois postulados são complementares e indissolúveis. Mas sua existência e sua unidade pressupõem toda uma perspectiva de mundo empirista-idealista. Ao rejeitar a essência do homem como sua base teórica, Marx rejeitou todo esse sistema orgânico de postulados. Ele expulsou as categorias filosóficas do sujeito do empirismo, da essência ideal, de todos os domínios em que elas tinham reinado de forma suprema. Não apenas da economia política (rejeição do mito do homo economicus, isto é, do indivíduo, com faculdades e necessidades definidas, como sendo o sujeito da economia clássica); não apenas da história; ... não apenas da ética (rejeição da idéia ética kantiana); mas também da própria filosofia (Althusser, 1966, p. 228).

Essa ”revolução teórica total” foi, é óbvio, fortemente contestada por muitos teóricos humanistas que dão maior peso, na explicação histórica, à agência humana. Não precisamos discutir aqui se Althusser estava total ou parcialmente certo, ou inteiramente errado. 0 fato é que, embora seu trabalho tenha sido amplamente criticado, seu ”anti-humanismo teórico” (isto é, um modo de pensar oposto às teorias que derivam seu raciocínio de alguma noção de essência universal de Homem, alojada em cada sujeito individual) teve um impacto considerável sobre muitos ramos do pensamento moderno.

O segundo dos grandes ”descentramentos” no pensamento ocidental do século XX vem da descoberta do inconsciente por Freud. A teoria de Freud de que nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente, que funciona de acordo com uma ”lógica” muito diferente daquela da Razão, arrasa com o conceito do sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada - o ”penso, logo existo”, do sujeito de Descartes. Este aspecto do trabalho de Freud tem tido também um profundo impacto sobre o pensamento moderno nas três últimas décadas.

A leitura que pensadores psicanalíticos, como Jacques Lacan, fazem de Freud é que a imagem do eu como inteiro e unificado é algo que a criança aprende apenas gradualmente, parcialmente, e com grande dificuldade. Ela não se desenvolve naturalmente a partir do interior do núcleo do ser da criança, mas é formada em relação com os outros; especialmente nas complexas negociações psíquicas inconscientes, na primeira infância, entre a criança e as poderosas fantasias que ela tem de suas figuras paternas e maternas. Naquilo que Lacan chama de ”fase do espelho”, a criança que não está ainda coordenada e não possui qualquer auto-imagem como uma pessoa ”inteira”, se vê ou se ”imagina” a si própria refletida - seja literalmente, no espelho, seja fígurativamente, no ”espelho” do olhar do outro - como uma ”pessoa inteira” (Lacan, 1977). (Aliás, Althusser tomou essa metáfora emprestada de Lacan, ao tentar descrever a operação da ideologia). Isto está próximo, de certa forma, da concepção do ”espelho”, de Mead e Cooley, do eu interativo; exceto que para eles a socialização é uma questão de aprendizagem consciente, enquanto que para Freud, a subjetividade é o produto de processos psíquicos inconscientes.

A formação do eu no ”olhar” do Outro, de acordo com Lacan, inicia a relação da criança com os sistemas simbólicos fora dela mesma e é, assim, o momento da sua entrada nos vários sistemas de representação simbólica - incluindo a língua, a cultura e a diferença sexual. Os sentimentos contraditórios e não-resolvidos que acompanham essa difícil entrada (o sentimento dividido entre amor e ódio pelo pai, 0 conflito entre o desejo de agradar e o impulso para rejeitar a mãe, a divisão do eu entre suas partes ”boa” e ma , a negação de sua parte masculina ou feminina, e assim por diante), que são aspectos-chave da   formação inconsciente do sujeito” e que deixam o sujeito ”dividido”, permanecem com a pessoa por toda a vida. Entretanto, embora o sujeito esteja sempre partido ou dividido   ele vivência sua própria identidade como se’ ela estivesse reunida e ”resolvida”, ou unificada, como resultado da fantasia de si mesmo como uma pessoa   unificada que ele formou na fase do espelho.

Assim a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento   Existe sempre algo   imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre  em processo”, sempre ”sendo formada” As partes    femininas” do eu masculino   por exemplo, que são negadas, permanecem com ele e encontram expressão inconsciente em muitas formas não reconhecidas, na vida adulta. Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é ”preenchida” a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós   imaginamos   ser   vistos   por   outros. Psicanaliticamente, nós continuamos buscando a ”identidade” e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos seus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado da plenitude.

De novo, o trabalho de Freud e o de pensadores psicanatíticos como Lacan, que o lêem dessa forma, têm sido bastante questionados. Por definição, os processos inconscientes não podem ser facilmente vistos ou examinados. Eles têm que ser   inferidos   pelas   elaboradas   técnicas psicanalíticas da reconstrução e da interpretação e não são facilmente suscetíveis à ”prova”. Não obstante, seu impacto geral sobre as formas modernas de pensamento tem sido muito considerável. Grande parte do pensamento moderno sobre a vida subjetiva e psíquica é ”pós-freudiana”, no sentido de que toma o trabalho de Freud sobre o inconsciente como certo e dado, mesmo que rejeite algumas de suas hipóteses específicas. Outra vez, podemos avaliar o dano que essa forma de pensamento causa a noções que vêem o sujeito racional e a identidade como fixos e estáveis.

O terceiro descentramento que examinarei está associado com o trabalho do lingüista estrutural, Ferdinand de Saussure. Saussure argumentava que nós não somos, em nenhum sentido, os ”autores” das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste a nós. Não podemos, em qualquer sentido simples, ser seus autores. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais.

Além disso, os significados das palavras não são fixos, numa relação um-a-um com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua. Nós sabemos o que é a ”noite” porque ela não é o ”dia”. Observe-se a analogia que existe aqui entre língua e identidade. Eu sei quem “eu” sou em relação com ”o outro” (por exemplo, minha mãe) que eu não posso ser. Como diria Lacan, a identidade como o inconsciente, “está estruturada como a língua”. O que modernos filósofos da linguagem — como Jacques Derrida, influenciados por Saussure  e pela ”virada lingüística” - argumentam é que apesar de seus melhores esforços, o/a falante individual não pode, nunca, fixar o significado dê uma forma final, incluindo o significado de sua identidade As palavras são ”multi-moduladas”. Elas sempre carregam ecos de outros significados que elas colocam em movimento, apesar de nossos melhores esforços para cerrar o significado.Nossas afirmações são baseadas em proposicões e premissas das quais nós não temos consciência mas que são, por assim dizer, conduzidas na corrente sangüínea de nossa língua. Tudo que dizemos tem um ”antes” e um ”depois” — uma ”margem” na qual outras pessoas podem escrever. O significado é inerentemente instável; ele procura o fechamento (a identidade), mas ele é constantemente perturbado (pela diferença). Ele está constantemente escapulindo de nós. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis (veja Derrida, 1981).

O quarto descentramento principal da identidade e do sujeito ocorre no trabalho do filósofo e historiador francês Michel Foucault Numa série de estudos, Foucault produziu uma espécie de ”genealogia do sujeito moderno”. Foucault destaca um novo tipo de poder, que ele chama de ”poder disciplinar”, que se desdobra ao longo do século XIX, chegando ao seu desenvolvimento máximo no início do presente século. O poder disciplinar está preocupado, em primeiro lugar, com a regulação, a vigilância é o governo da espécie humana ou de populações inteiras e, em segundo lugar, do indivíduo e do corpo. Seus locais são aquelas novas instituições que se desenvolveram ao longo do século XIX e que ”policiam” e disciplinam as populações modernas oficinas, quartéis, escolas, prisões, hospitais, clínicas e assim por diante (veja, por exemplo, História da loucura, O nascimento da clínica e Vigiar e punir).





O objetivo do ”poder disciplinar” consiste em manter ”as vidas, as atividades, o trabalho, as infelicidade e os prazeres do indivíduo”, assim como sua saúde física e moral, suas práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder dos regimes administrativos, do conhecimento especializado dos profissionais e no conhecimento fornecido pelas ”disciplinas” das Ciências Sociais. Seu objetivo básico consiste em produzir ”um ser humano que possa ser tratado como um corpo dócil” (Dreyíus e Rabinow, 1982, p. 135).



O que é particularmente interessante, do ponto de vista da história do sujeito moderno, é que, embora o poder disciplinar de Foucault seja o produto das novas instituições coletivas e de grande escala da modernidade tardia, suas técnicas envolvem uma aplicação do poder e do saber que ”individualiza” ainda mais o sujeito e envolve mais intensamente seu corpo:

Num regime disciplinar, a individualização é descendente. Através da vigilância, da observação constante, todas aquelas pessoas sujeitas ao controle são individualizadas... 0 poder não apenas traz a individualidade para o campo da observação,    mas    também    fixa    aquela individualidade objetiva no campo da escrita. Um imenso e meticuloso aparato documentário tornase um componente essencial do crescimento do poder   [nas   sociedades   modernas].   Essa acumulação de documentação individual num ordenamento sistemático torna ”possível a medição de fenômenos globais, a descrição de grupos, a caracterização de fatos coletivos, o cálculo de distâncias entre os indivíduos, sua distribuição numa dada população” (Dreyfus e Rabinow, 1982, p. 159, citando Foucault).

Não é necessário aceitar cada detalhe da descrição que Foucault faz do caráter abrangente dos ”regimes disciplinares” do moderno poder administrativo para compreender o paradoxo de que, quanto mais coletiva e organizada a natureza das instituições da modernidade tardia, maior o isolamento, a vigilância e a individualização do sujeito individual.

O quinto descentramento que os proponentes dessa posição citam é o impacto do feminismo, tanto como uma crítica teórica quanto como um movimento social. 0 feminismo faz parte daquele grupo de ”novos movimentos sociais”, que emergiram durante os anos sessenta (o grande marco da modernidade tardia), juntamente com as revoltas estudantis, os movimentos juvenis contraculturais e antibelicistas, as lutas pelos direitos civis, os movimentos revolucionários do ”Terceiro Mundo”, os movimentos pela paz e tudo aquilo que está associado com ”1968”. O que é importante reter sobre esse momento histórico é que:

• Esses movimentos se opunham tanto à política liberal capitalista do Ocidente quanto à política ”estalinista” do Oriente.

• Eles afirmavam tanto as dimensões ”subjetivas”   quanto   as   dimensões ”objetivas ” da política.

• Eles suspeitavam de todas as formas burocráticas de organização e favoreciam a espontaneidade e os atos de vontade política.

• Como argumentado anteriormente, todos esses movimentos tinham uma ênfase e uma forma cultural fortes. Eles abraçaram o ”teatro” da revolução.

• Eles refletiam o enfraquecimento ou o fim da classe política e das organizações políticas de massa com ela associadas, bem como sua fragmentação em vários e separados movimentos sociais.

• Cada movimento apelava para a identidade social de seus sustentadores. Assim, o feminismo apelava às mulheres, a política sexual aos gays e lésbicas, as lutas raciais aos negros, o movimento antibelicista aos pacifistas, e assim por diante. Isso constitui o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como apolítica de identidade uma identidade para cada movimento.

Mas o feminismo teve também uma relação mais direta com o descentramento conceituai do sujeito cartesiano e sociológico:

• Ele questionou a clássica distinção entre o ”dentro” e o ”fora”,  o ”privado”  e ”público”. O slogan do feminismo era: ”o pessoal é político”.

• Ele abriu, portanto, para a contestação política, arenas inteiramente novas de vida social: a família, a sexualidade, o trabalho doméstico,  a divisão doméstica do trabalho, o cuidado com as crianças, etc.

• Ele também enfatizou, como uma questão política e social, o tema da forma como somos formados e produzidos como sujeitos generificados. Isto é, ele politizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificação (como homens/mulheres, mães/pais, filhos/filhas).

• Aquilo que começou como um movimento dirigido à contestação daposição social das mulheres expandiu-se para incluir a formação das identidades sexuais e de gênero.

• O feminismo questionou a noção de que os homens e as mulheres eram parte da mesma identidade, a ”Humanidade”, substituindo-a pela questão da diferença sexual.

Neste capítulo, tentei, pois, mapear as mudanças conceituais através das quais, de acordo com alguns teóricos, o ”sujeito” do Iluminismo, visto como tendo uma identidade fixa e estável, foi descentrado, resultando nas identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas, do sujeito pós-moderno. Descrevi isso através de cinco descentramentos. Deixem-me lembrar outra vez que muitas pessoas não aceitam as implicações conceituais e intelectuais desses desenvolvimentos do pensamento moderno. Entretanto, poucas negariam agora seus efeitos profundamente desestabilizadores sobre as idéias da modernidade tardia e, particularmente, sobre a forma como o sujeito e a questão da identidade são conceptualizados.


Biografia da capítulo:
Lacan, J. ”The mirror stage as formative of the function of the I”. In Ecrits. Londres: Tavistock, 1977.
Althusser, L. For Marx. Londres: Verso, 1966
Derrida, J. Writing and Dijference. Londres: Routledge, 1981.
Dreyfus, H. e Rabinow, P. Michel Foucault: Beyond Structuralism and Hermeneutics. Brighton: Harvester,
1982.


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Que tal nos dar uma sugestão de tema para o próximo mês? Diga-nos o que acharia interessante aqui!

Abraço!

Wellington Souza




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