Novidades

Na espera


Conto, por Matheus Galvão

Ele estava sentado na sala de espera com uma cara de preocupação que preocupava até quem estava por perto e nada tinha de ver com a estória toda. Que brincadeira sem graça, pensava. Coçava a cabeça calva enfeitada somente com uma pequena região de cabelo. Puxava o zíper do capote de nylon. Fazia frio. Um frio agudo, e o ar refrigerado do hospital continuava ligado. Dezoito graus. Quando ouvia um barulho de porta se abrindo levantava-se afoito. Nunca era ela. Bom ou ruim, não era ela. Precisava beber algo quente. Enfiou a mão no bolso do capote, esforçou-se para encontrar uma moeda de um Real. Não achou. Achou apenas duas de vinte e cinco. Cinquenta. Não dava para o Nescau quente. Contentou-se (teve que) com um café expresso. O açúcar! O copo! Esqueceu de por o copo na máquina. E lá se foi o café. Escorria pelo chão. Afobou-se tentando separar um copo dos demais e lá se ia seus cinquenta centavos. Uma mulher com um curativo no olho esquerdo assistia a cena com um sentimento misto de pena e comicidade. Desejou rir. Desejou sair dali. Foi o que ela fez. E deve ter ido rir em outro canto. 


Ele voltou e se sentou, esperou mais, ouviu uma porta abrir...não era ela. Não, espere, era. Não, não era. Era uma mulher com os cabelos dela sentada numa cadeira de rodas (também!). Uma servente passou limpando o café no chão. Agora o cheiro forte de café resfriado pelo ar gelado era substituído por um cheiro de desinfetante concentrado. Um choro. Alguém chorava aos braços de uma médica. Chorava um choro escandaloso, grave; babava, gritava que alguém não poderia ter ido assim, daquele jeito. Que jeito? A médica se retirou e um homem alto e branco tomou o seu lugar no consolo. Tinha uma cara de choro contido. Homem não chora nesses momentos de perda, ao menos tenta não chorar. Levaram água para a chorona. Água. Não tinha que pagar para pegar água. Bastava colocar o copo no filtro. O copo! Ele se levantou e foi em direção ao filtro. Estava quase no corredor quando uma porta se abriu. Saiu alguém rindo, marcando algo que parecia ser um ótimo final de semana em Itaparica, a coisa ia ser boa, teria pagode e cachaça free, dizia uma enfermeira sorridente ao colega enfermeiro. Continuou a caminhada até o filtro. Gelada ou quente? Resolveu misturar.

Tinha uma janela do seu lado e ele se distraiu com os carros passando lá em baixo, como formigas que seguem umas as outras em direção ao formigueiro, os pneus levantando água da chuva no chão. Havia a praia também (e tinha gente na praia!). Lembrou-se de quanto tempo não ia à praia mesmo morando numa cidade cercada de praias como Salvador. Sujeira, pensou, praia de Salvador não presta, à exceção talvez da Barra, a Paciência. Ele viu um homem caminhando com um Ipod na cintura e os fones no ouvido (na chuva!?). O homem reduziu a velocidade, parou numa barraca de coco, mas continuou marcando passo. O barraqueiro entregou-lhe o coco, o homem deu uma cédula e seguiu. Ele deduziu que era uma cédula de dois Reais, já que não tivera troco e havia uma placa que dizia CÔCO - 2,00. Lembrou-se dela [da esperada]. Pensou em voltar, mas ainda deu tempo de ver uma batida, um assalto e uma briga de mendigos (na Barra tem muitos!). Chovia uma chuva fina, entre um sol tímido, e fazia frio. Ele riu de tudo aquilo.

Voltou para seu lugar. Uma porta abria, ele olhava. Começava uma novela, mas o som da televisão era baixo demais e ele nem gosta de novela. Foi para uma cadeira lá atrás, encostou na parede, respirou fundo, estava cansado. Enfiou as mão nos bolsos do capote de nylon, fechou os olhos. Uma porta abriu, seus olhos abriram assustados e esperançosos. Não era ela. Continuou na espera. Cochilou. E não viu a mulher que chegou para o parto, o homem sem o dedão do pé que prendeu na bicicleta, o menino que engoliu uma tampa de refrigerante...

*
Para ler mais textos do autor, clique aqui.

Um comentário:

  1. Nossa, muito bom! Essa agonia me fez lembrar do dia em que a minha filha mais velha nasceu. Era um parto cesariana de alto risco, mas eu pensei que quem estava correndo o risco de morrer era eu, de aflição, pressão alta, uma mistura de de tudo que a aisiedae permite numa só pessoa. Abraços. Paz e bem.

    ResponderExcluir