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Patrícia e Jussara



Conto, por Tiago Correa.

"A cama, os móveis, o pó misturado com um frango grelhado que havia nos servido na primeira vez, também estava ausente na nova vida de Patrícia."



Dentro do apartamento estavam quatro ou cinco pessoas. Não lembro ao certo quantas e nem em que momento elas chegaram. Não me lembro de suas fisionomias e nem o que diziam. Tudo naquela noite parecia tão surreal. Percebia que a chuva caia. Muita chuva. O vento trepidava as janelas de alumínio e o ar gelado entrava por debaixo da fresta da porta.

Nesta época eu morava com Jussara. Uma mulher com trinta e oito anos e olhos a procura de carinho e companheirismo. O que mais me encantava em Jussara era seu jeito de caminhar, o rebolado e seu sorriso forçado. Mesmo que ela tentasse ser a pessoa mais bem-humorada de onde estivesse, sua depressão e angustia sobressaia ao esforço da simpatia. Mas mesmo assim eu a admirava.

Nessa mesma noite, Jussara estava sentada em uma poltrona cor de oliva de um lugar só na extremidade oposta a minha na sala. Via que ela conversava com as visitas e logo me fitava com aquele olhar de compaixão. Talvez quisesse que eu tomasse uma atitude em mandar aquela gente embora para irmos para o quarto ou então maquinava em sua cabeça um modo de ela mesma tirá-los dali. Nada foi feito por um longo tempo. Nem por mim nem por ela, mas sempre fazia as mesmas ações: conversava e me olhava.


As outras pessoas estavam sentadas no chão com suas costas escoradas na parede enquanto tomavam suas cervejas e soltavam fumaças de cigarros de suas bocas, quase todos ao mesmo tempo.

Alguns minutos escutando aquelas vozes, eu me levanto e vou a geladeira pegar mais uma cerveja. Todas aquelas vozes, todas aquelas risadas estavam me deixando cada vez mais zonzo. Não sabia se era pelo teor alcoólico subindo ou porque suas vozes eram estridentes.

Abro a geladeira e pego uma garrafa. É incrível como as pessoas sempre arrumam um jeito de burlar os problemas que batem a porta. E o meu método para burlar aquelas vozes seria tomar o maior número de garrafas possíveis até que eu começasse a fazer vexame e fizesse todo mundo ir embora.

Volto para o lugar onde eu estava. Acho que esses passos que dei até a cozinha me fizeram bem. Começo a perceber melhor as pessoas que estavam na minha casa. Quem estava com a palavra era um cara alto, magro e nariz arrebitado. Seus cabelos eram levemente brancos que caiam sobre as orelhas. Suas pernas estavam cruzadas uma sobre a outra que balançavam enquanto conversava demasiado olhando fixamente para Jussara. O outro que estava sentado próximo era negro e tinha uma voz rouca e olhos miúdos. Talvez fosse um cantor de alguma banda. Ao menos aparentava. E ainda tinha mais um branquelo careca, que, quando falava sua boca abria-se demais e eu enxergava sua língua vermelhada com uma placa amarelada do cigarro perto do esôfago.

Continuei ali. Imóvel e prestando atenção naquelas baboseiras todas.

- Mas não sei. Hoje em dia as coisas estão tão frias e sem sentido. – dizia Jussara.

- Concordo. – fala o negro. – Se fossemos pensar, tudo é baseado em espera. Esses dias eu estava na fila do INSS e esperei quase três horas para ser atendido. Outro dia esperei para ser consultado por um dentista, noutro para me chamarem numa entrevista de emprego e depois esperei quatro meses para que minha mulher aceitasse o pedido de casamento. Continuo achando que tudo que tem muita espera acaba se tornando frio e desesperador.

Ambos tomaram mais um gole de suas respectivas cervejas.

- Muitas vezes a espera é necessária para haver a tão esperada conquista. – retruca o branquelo.

- Eu já acho tudo isso uma baboseira. – digo olhando para o chão. Percebia que todos me olhavam espantados por eu ter quebrado o jejum da fala. – Não é preciso ter espera, cautela ou esperança. Eu não sou descrente, mas isso tudo é um meio de nos fazer ter menos tempo para as coisas que realmente importa em nossas vidas. Ou fazemos aquilo que nos bate à cabeça ou não fazemos e deixamos pra lá. Tudo é uma questão de escolha.

Tiro um cigarro do bolso do casaco e acendo.

- Todo mundo perde tempo demais chorando, pensando, refletindo, argumentando e deixando que todos pisoteiem e esmaguem o ego das pessoas perdidas. – continuo. – Se soubessem que a glória está dentro delas mesmas, aí sim tudo têm uma grande chance de que tudo melhore.

- Mas Joe... – retrucava Jussara.

Resolvo deixá-los ali falando coisas que não me interessava. Me levanto agarrado em minha garrafa de cerveja e meus cigarros batendo a porta com força logo atrás de mim.

- Joe. Joe, espere.

Eles iriam se entender. E eu não iria fazer a mínima importância naquela casa. Papo filosófico nunca foi meu forte, penso.

Atravesso a rua e pego a próxima à esquerda, ando mais duas quadras, subo a calçada e bato na porta. Por sorte a chuva já havia parado, mantendo apenas as nuvens claras na noite ventosa.

- Quem é? – pergunta com a voz suave de uma mulher experiente.

- Joe.

- Um minuto, cara

Escuto sons de cadeiras arrastando, toalhas sendo sacudidas e louças. Enquanto espero em frente à porta, uma vontade absurda de urinar pesa logo abaixo da barriga. Na parte direita da porta tinha um vaso com algumas flores amarelas muito bem cuidadas e firmes. Fico em frente do vaso, abro o fecho-ecler e dou aquela esguichada de revirar os olhos e soltar aquele orgástico gemido de alivio. A porta finalmente se abre e eu já me mantinha “pronto” para a recepção da dona da casa como se nada tivesse acontecido ali fora e as suas flores.

- Entre.

Ela estava fantástica com aquele vestido acima dos joelhos e sapatos pretos de salto alto. É interessante que uma mulher ande assim mesmo estando em casa. O ambiente estava todo arrumado e limpo com a toalha da mesa estendida e sem o mínimo pó no chão ou em cima dos móveis. No som rolava uma música clássica. Muito bem diferente da primeira vez de que vim visitá-la.

- Vou pegar uma bebida para nós. – disse ela.


Sentei no sofá com um forro idêntico com as listras de uma zebra. Me deparo com uma foto de família próximo da televisão, aquelas em preto e branco que a pele das pessoas pareciam do tempo do faroeste. Na foto um lindo jardim os acompanhava pelas costas. Um lindo jardim branco e o reflexo do sol cintilante.

Ela volta com duas garrafas de cerveja. A minha já havia acabado antes de chegar na esquina de sua casa alguns minutos atrás.

Estica uma de suas delicadas mãos com unhas pintadas cor de café e me alcança uma garrafa.

- Obrigado.

Ela senta-se ao meu lado. Ambos abrimos as garrafas.

- O que houve, cara? - pergunta

- Estou tão mal assim? – indago

- Está estampado na sua testa. Pode acreditar. – toma um gole. – É ela mais uma vez?

- Hum hum.

- Será que ela não aprende, não!? Parece que não merece o homem que tem em casa. Se fosse comigo faria tudo diferente. – dizia.

- O velho papo de sempre: vida, sucesso, fracasso, persistência e blábláblá

- Não fique assim, Joe. Acho que você está precisando de uma boa massagem pra relaxar.

A garrafa que estava em sua mão agora descansa sobre a mesinha de centro.

Ela vira-se para meu lado dobrando a perna direta para cima do sofá e escorando o tronco, de lado, naquelas listras de zebra.

- Largue essa cerveja. – ordena. – Deite-se aqui nas minhas pernas. – esticando a perna dobrada na posição inicial.

Resolvo não seguir sua ordem de deixar minha querida garrafa longe de mim, mas encosto minha cabeça exatamente no meio de suas pernas. Sentia a abóboda do crânio sendo consumida por aqueles lábios macios que nem esponja de louça.

Eu ainda mantinha a posse da garrafa com a mão direita.

- Mas diga-me de você, Patrícia. Virou perua é? – brinco

Um silencio repentino partiu dela que veio acompanhado logo depois, por um suspiro quase de indignação.

- Conheci um homem.

- Ele é gente boa ao menos?

- Está vendo tudo isso que tenho aqui? – apontando para cada canto da sala – Tudo foi ele que me deu.

- Sorte a sua. Eu tenho uma mulher que não daria nem a metade.

- Mas nem nos velhos tempos eu te presenteava. Isso quer dizer que não saiu do parâmetro. – dizia.

- Infelizmente. Mas não foi de todo mal nossa separação. Se fosse de outra forma nem estaria aqui agora.

Ela coloca as duas mãos nos meus ombros e me impulsiona para frente. Me sento e fico cara a cara com ela. Não parávamos de nos olhar. Como ela mudou, pensava. Todo esse charme, esses cabelos negros escorridos e a boca bem desenhada. Seu cheiro também havia mudado bruscamente. Antes usava perfumes adocicados de arder as narinas, mas agora um odor cítrico amadeirado exalava até mesmo pelas listras brancas e pretas do sofá. A cama, os móveis, o pó misturado com um frango grelhado que havia nos servido na primeira vez, também estava ausente na nova vida de Patrícia.

- Venha, Joe. Vamos para a cama.

Sua mão macia agarra em meu pulso.



Em menos de tempos eu já estava em seu poder. Sentia seus seios nus amassados sobre meu peito. Sua língua finalmente tocou a minha. As luzes do quarto acesos, os cabelos esvoaçando a cada estocada, o suor de nossas peles, os gemidos que ela soltava. Deixei que ela fosse por cima. Suas unhas cravadas no meu pescoço e os fios do cabelo caiam sobre minha testa. Estávamos com nossas bocas coladas e a respiração ofegante era percebida na maçã do rosto. Seus olhos se fechavam e depois abriam lentamente com as expressões de uma felina, eu percebia e era bom nisso. Aquele olhar inigualável de mulher satisfeita. Pensava se seu marido não lhe dava tanto prazer assim desta maneira. Pensava em Jussara e no que ela deveria estar fazendo agora com aquele bando de gente e suas conversas filosóficas pé no saco.

Num salto, eu estava por cima agora. Um mar de cabelos negros derramava sobre o travesseiro, as orelhas ornando brincos em formato de pimenta, alguns fios por detrás, outros pela frente e aquele corpo todo sendo consumido por mim, um homem que tinha uma mulher em casa. Suas pernas extremamente lisas e depiladas foram parar em volta do meu pescoço. Uma pequena tatuagem realçava o colorido na pele branca, via os poros eriçados que me dava a sensação de poder e fome animal.

Terminamos o ato da luxúria ao mesmo tempo. Puxei seus cabelos para trás e então minha mão foi parar para trás de sua nuca, fazendo nossos lábios tocar novamente em meio aos gemidos e sussurros. Deitei para o lado e adormecemos.



Mais ou menos quatro horas depois eu desperto. Patrícia ainda dormia e com aquelas montanhas para o alto. Aquelas montanhas cheias de carne. Sempre fui um adorador de glúteos, mas os de Patrícia eram de deixar qualquer um aos seus pés.

Me levanto e vou ao banheiro lavar o rosto. Olho no relógio que já passava das três da manhã. Saio do banheiro e acendo um cigarro. Patrícia continuava dormindo. Ponho minhas calças e saio para a rua no mais absoluto silencio.

Obrigado, Patrícia. Acho que você sempre fará parte de meus sonhos e pesadelos.



Subo a calçada de casa, tiro as chaves do bolso, posiciono na fechadura e viro. A porta estava aberta, que me fez poupar esforços por causa do barulho a essa hora da manhã. Baixo a maçaneta e entro. Tudo estava do mesmo jeito: as poltronas, a mesa, as cortinas, alguns corpos pelo chão. Corpos pelo chão? Com a claridade da luz dos postes que clareava a sala através da janela, eu conseguia ver aquele bando de sem vergonhas, todos sem roupa, inclusive Jussara que dormia grudada nas costas do cara alto. Não tinha a intenção de fazer nada. Não iria fazer nada.

Vou até o quarto e pego minhas roupas. Coloco todas dentro da primeira mala que vejo, fecho o zíper e saio dali. Abandono tudo, deixo o passado para trás.




TOC TOC TOC

Ninguém responde por alguns minutos.

TOC TOC TOC

O vaso com aquelas flores amarelas ainda estavam ali, firmes e fortes.

TOC TOC TOC

Escuto os passos de Patrícia em velocidade.

- Quem é? – pergunta

- Joe. – digo

Seu rosto amassado pelo sono interrompido era encantador. Nunca fiquei tão feliz em ver Patrícia.

- Entre, cara.

Coloco a mala perto da porta e fecho logo atrás de mim.

- Venha, vamos para o quarto. – dizia Patrícia apertando firme na minha mão.



Estava deitado ao lado de Patrícia olhando para as estrelas que brilhavam ao fundo da janela. Lá no horizonte. Jussara, eu, Patrícia e seu marido. Uma igualdade de amor e ódio. Dois mundos de céu e inferno. E se aqui com Patrícia fosse o inferno, nunca mais eu quero voltar aos céus com Jussara.

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Créditos da imagem:
Tua vida..., por Cátia.

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