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Último Boneco


Contos, por Ana Cristina Melo.


O menino havia empilhado, ao lado de sua mochila, as conchinhas que catara naquele fim de tarde. Fazia isso ao sair da escola, antes de encontrar a mãe no final do turno dela como diarista. O pai tinha um caminhão e o filho só o via uma ou duas vezes no mês, quando voltava das viagens.



Sentado de costas para o horizonte, a maior satisfação do menino era fechar os olhos e ouvir o barulho vindo do mar. Gostava também de deitar de bruços, no banco de cimento, e acompanhar o ir-e-vir de cada tênis, discreto ou berrante, calçando homens e mulheres sem pressa de atravessar um bom trecho da orla.

Do fundo da mochila onde estavam as conchas, ele tirou o boneco, de nome difícil, coisa de gringo, conhecido dos anúncios da tevê. Um braço, em vez de articulado, estava quebrado. Rapidamente livrou o banco das conchas: queria curtir o brinquedo achado na rua, a um quarteirão da escola. Não que ele o tivesse desejado algum dia; preferia a bola que seu pai lhe dera no Natal, junto com a camisa autografada de um jogador do Vitória da Bahia. Mas era bom experimentar como se brincava com um boneco daqueles; fazê-lo escalar árvores, torná-lo o amigo que o ajudaria a empinar pipa; e sentá-lo, apenas companheiro, para lhe ajudar nas contas de multiplicação que eram seu tormento. Sempre preferiu a matéria de português, em razão das diferentes viagens que as histórias lhe ofereciam.

O boneco falava e se tornava herói pelos lábios do menino. Sabia voar também, e foi num desses voos que aprendeu a planar. Na linha de visão do novo dono, ele deslizava lento, braços estendidos, posição de pássaro, encobrindo as tranças loiras que repousavam na janela do terceiro andar, do prédio em frente.

O menino abaixou o boneco lentamente e o sentou no colo. A imagem, livre de impedimentos, foi se tornando nítida. A menina, braços cruzados sobre o parapeito, olhava para o horizonte, pensamentos tão distantes que poderiam alcançar o além-mar. Ao seu lado estava uma boneca. Não era preciso ver de mais perto para ter certeza sobre a beleza das duas.

Ele tanto fixou seu olhar que ela correu a atenção do mar para o calçadão. Ao vê-lo com o boneco no colo, como se fosse o mágico ventríloquo que estivera em sua festa, ela sorriu.

Ele soube que era o objeto daquele afago e sorriu de volta. Ficaram assim, conversando sorrisos, enquanto ele, sem saber o que fazia com as mãos, as esfregava no short já puído (que seria trocado no início do ano seguinte, promessa da mãe). Temia que a menina percebesse a sujeira de seus dedos.

Ela, despreocupada com as próprias mãos, mas atenta às reações do rapazinho de dez anos, movia lentamente os dedos e os deixava escorrer, alisando as tranças caídas sobre os seios ainda tímidos.

Ficaram assim por um tempo que não saberiam contar. Podiam sentir uma espécie de poeira dourada em suspensão. Então, o menino viu a boneca voar direto até a calçada.

Ao testemunhar a queda, sentiu a tensão provocada pelo pequeno acidente. Refeito do susto, cruzou em disparada a avenida de mão dupla. Buzinas, gritos e freadas não reduziram sua determinação. A boneca de cabelos de lã, corpo de pano e boca desenhada a caneta, estava salva em suas mãos quando ele pressentiu que ela vinha atrás. A porta de vidro se abriu e a menina de tranças apareceu. Estava séria, o que fez o menino recuar.

Passos curtos já o levavam embora quando se lembrou do volume que segurava. Voltou, cauteloso. Próximo demais, esticou o braço. Com a boneca de volta ao seu colo de mãe, ela lhe sorriu novamente. A luz daquele sorriso atravessou o coração do menino. Ela desceu o degrau, único obstáculo que os separava, e tocou os lábios dele com os seus, fugindo em seguida.

Ele não conseguia se mover. Deteve-se olhando o mar como se se tratasse da primeira vez. Longe de seu pensamento, do outro lado da avenida, seu boneco, junto à mochila, desaprendera a voar.

 
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Créditos da imagem:

Um comentário:

  1. Que história linda, Ana! Me fez lembrar da minha doce Beatriz, dos olhares furtivos na sala de aula do grupo escolar, nas minhas primeiras séries. Só que a timidez permitia que o amor se manifestasse apenas pelos olhos verdes cintilantes dela e o meu coração de menino. Um abraço. Paz e bem.

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