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Closura

Crônica, site literário, literarura, Matheus Bastos Galvão



Crônica, por Matheus Bastos Galvão.


"Em psicologia existe um termo chamado closura - termo da psicologia da gestalt -, o qual significa que os indivíduos, por "terem a exigência" da sensação do todo, completam formas ou mesmo comportamentos incompletos. Pois é, tive uma destas closuras. Óbvio que qualquer um, naquela situação, teria."




Existe coisa pior do que tensão? Tensão de esperar por algo que não se quer que aconteça, mas que pode acontecer?

Aconteceu que um dia desses, indo para a faculdade, entrei num ônibus daqueles lotados. E vocês já podem imaginar que fiquei em pé. Arranjei um lugar folgado onde geralmente ficam os deficientes físicos com cadeira de rodas. Achei que ficaria bem ali, com mais espaço do que aqueles que disputavam um pedaço de chão. Mas houve quem tivesse a mesma ideia que eu. É aí que começa a história...

Uma mãe com uma garotinha encostaram e ficaram bem em minha frente. A mãe preocupada, alisava a cabeça da filha, que fazia cara de enjoo e de dor. A dor não me preocupava tanto, e não pensem que eu sou mal por isso, mas a cara de enjoo me preocupava: se ela estava enjoada, em pé, num ônibus chacoalhando durante quarenta minutos não haveria o que prestasse. Ai dos meus sapatos brancos...

Em psicologia existe um termo chamado closura - termo da psicologia da gestalt -, o qual significa que os indivíduos, por "terem a exigência" da sensação do todo, completam formas ou mesmo comportamentos incompletos. Pois é, tive uma destas closuras. Óbvio que qualquer um, naquela situação, teria. As condições eram tensas, e o pior: não havia mais condições de eu sair, mudar de posição, estava tudo preenchido. Ai dos meus sapatos brancos e da minha camisa limpa...

Durante a trajetória não parei de pensar na nojenta cena e me preparava para me desviar do jato de regurgitação. Calculava para que lado me esquivaria se a minha closura se efetivasse. A mãe massageava o peito da filha que fazia cara de dor.

Foi então que uma alma caridosa, percebendo a situação da passageira enjoada, cedeu o lugar. Fiquei feliz por saber que ainda existem pessoas assim, que cultivam a virtude da prestatividade... mas a situação pirou para mim: agora ela ficava a minha frente e a mulher que cedera o lugar me encurralou no espaço da catástrofe.

A situação era essa, e para distrair - e me conformar com o fato de chegar egrégia Faculdade de Direito da UFBA cheirando a vômito ou voltar para casa direto - comecei a formular o texto para escrever aqui, afinal há muito tempo que não tinha ideias para um post criativo. Aliás eu nem sei se isso é criativo, mas aconteceu e achei que deveria compartilhar com vocês, por mais nojento, disgusting que pareça.

Sim, mas vocês devem querer saber se a tal closura se concretizou. Pois é, uns dois pontos - ou duas paradas para os pernambucanos - antes do meu a garotinha e a mãe desceram do ônibus, para minha felicidade e felicidade da pobre mulher que sentava ao lado delas. Acredito que a tensão dela também fosse grande e que ela quisesse xingar a caridosa de todos os nomes. Só sei que desde que a menina e a mãe sentaram ao seu lado ela não desgrudou os olhos da duas.

Portanto, cheguei bem. Assisti minha aula de Civil e Penal, discuti sobre o aborto e tive aula de psicologia, quando pude usar mais uma vez o termo que aprendi recentemente: closura. Não entendeu ou não gostou do texto? Freud explica.


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Um comentário:

  1. Cada uma que passamos nessa vida de universitários, não é mesmo? rsrs

    Gostaria de escrever crônicas assim...

    Abraço
    blog

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