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Conto, por Jota Marques.

"...Como milhares de outros jovens despejados anualmente pelas universidades, eu agora engrossava os números estatísticos do desemprego..."



Uma hora da tarde; a ansiedade percorre o meu corpo. A minha frente, o painel sinalizando para manter o acento na posição vertical e apertar os cintos. A turbina emite um chiado reduzindo a velocidade, preparando-se para pousar. Pela janela avisto a miniatura da cidade do Rio de Janeiro, com seu traçado singular de casas e mansões, praias e morros, beleza e favelas. O solavanco do trem de pouso atingindo a pista quase faz vir a tona o biscoito com guaraná servido pelos comissários de bordo. A voz semi sintética do capitão saindo pelos autofalantes, saudando a chegada aos passageiros, seguido de um relato formal de agradecimentos. Irônico pensar que sou eu quem deveria agradecer por chegar são e salvo. Não tenho nenhuma fobia em particular, sou apenas mais um dessa massa suscetível aos pavores de desastres aéreos, agora tão comuns no nosso cotidiano em manchetes de jornais, documentários na teve e motes de seriados. Deixo meus medos para trás enquanto abro caminho pelo saguão.

O sempre animado taxista a nos receber, prestimosos com nossas bagagens: uma clássica rotina do atendimento cordial, constante investida de fidelizar a clientela em troca de boas gorjetas e boas corridas. Do banco de passageiros preparo minha câmera em um clássico clichê. Justifico a mim mesmo e ao meu condutor a formação em fotografia, demonstrando que minha câmera não é daquelas convencionais de shopping center, dando enfase aos vários apetrechos que trago comigo. Fingia interesse em minha pretensa pose de fotógrafo, a qual lhe confirmo com dissimulada arrogância.

- Para isso que veio ao Rio? - Continuava em nossa conversa, sempre esbanjando simpatia com seu falar carioca.

Me encolhi por um instante meio envergonhado: recupero o olhar confiante discursando sobre meu trabalho artístico, vomitando dezenas de outros lugares que capturei com as lentes de minha câmera compradas com o dinheiro dos pais. Delineei por quilômetros aos ouvidos pacientes do taxista, sobre todo o desenvolvimento de um site, meus objetivos, número de acessos, projetos engatilhados, oportunidades de ganhos, e tantas outras baboseiras insuportáveis. A linha de chegada em frente ao hotel, traria o tão desejado silêncio aos meus lábios.

Apesar de meu colóquio sobre fama e fortuna, deixo a ele de gorjeta apenas as diferenças de centavos. Vejo-o retornar a esse transito caótico de ruas apertadas, disfarçando educação ao me despedir. Sinto um certo desconforto: não faltei com a verdade sobre meus desejos artísticos e profissionais, porém ocultei o real motivo de minha estada de uma noite na cidade.

Como milhares de outros jovens despejados anualmente pelas universidades, eu agora engrossava os números estatísticos do desemprego. Correndo atrás do próprio sustento, desejoso pelos prazeres prometidos em anúncios de jornais busco, no serviço público, um pedaço do bolo que assistimos em silêncio sendo servido em escândalos políticos. São numerosos os formados de diversas áreas sociais ou biológicas, a disputarem agressivamente por cargos de motoristas ou cozinheiros, em administrações com saborosas bonificações mensais, semestrais e anuais; uma concorrência desleal com os benefícios do setor privado. Amplio as trincheiras daqueles que usam a vida virtual para desaguar nossas aspirações, contando com todas as ferramentas fornecidas por blogues, comunidades e grupos de email. Mantendo secretamente a chama de esperança pelo reconhecimento, como outros assim o fizeram antes de nós.

Tarde quente e movimentada. Sigo por ruas e avenidas conhecendo esse pedaço da cidade, sua gente, suas cores. Prédios de aço e concreto, vidros e pessoas, atingindo céus que testemunharam a passagem da história e da cultura. Capturo a beleza do pôr do sol por detrás das linhas de alta tensão. Revelo o encanto do cotidiano urbano através das minhas lentes objetivas.

Chego a um bar: música ao vivo e cerveja gelada. Deixo-me contaminar pelas pessoas, a dança, pelos risos e sorrisos de mulheres bonitas. Entrego-me aos prazers da animação e ao calor carioca. A noite avança forjando alianças com desconhecidos amistosos. Uma outra festa, outro lugar, outro bar. Sou levado pela correnteza da diversão, debatendo-me em uma oceano de corpos e lençóis, beijos e abraços.

Desperto atrasado e dolorido. Sinto o gosto amargo de minhas escolhas em minha boca, e deixo um pouco de mim na pia do banheiro. Sem tempo para um café, encarrego a missão de manter-me atento ao zunido intermitente em meu ouvido. Faço minha prova com dificuldade para focalizar as questões. O arranhar de lápis e canetas arrepiando-me os cabelos. Deposito minhas esperanças nas mãos dos examinadores. Fecho a conta do hotel apressado para o aeroporto.

Contendo o enjoo, observo melancólico a cidade maravilhosa sumindo no horizonte. Dessas paisagens carrego apenas as lembranças, as fotos e os sonhos de fincar minha bandeira nessas terras, vivendo seu cotidiano de céus e praias, calor e mulheres.

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Créditos da imagem:
Imagem fornecida pelo escritor.

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