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O lugar do sagrado e a poesia: Paula Tavares em tom de confissão

"O lugar do sagrado e a poesia: Paula Tavares em tom de confissão", por Claudia Fabiana de Oliveira Cardoso¹


"Embalado pela palavra, o artista ia lavrando,
na tampa da panela, um primeiro esboço de uma
escrita iluminada, a gravação dos sons da alma
em tom de confissão."
Ana Paula Tavares




¹ Professora do curso de Licenciatura em Letras da UNIABEU.

Uma das questões essenciais aos estudos culturais, em especial aos estudos das literaturas africanas, é o debate sobre o lugar do sagrado no território híbrido da escrita pós-colonial. Kwame Appiah já apontara no capítulo “Velhos deuses, novos mundos”, de sua célebre obra Na casa de meu pai, que “o entendimento da religião tradicional é central para as questões conceituais suscitadas pela modernização”(1).

O sagrado é pensado no Ocidente desde a Grécia clássica, e várias correntes, dos pré-socráticos à fenomenologia da religião, têm proposto interpretações para o fenômeno e sua origem. Entre as perspectivas de estudos, a que nos parece mais relevante é a de Mircea Eliade, pois pensa o sagrado não tanto como categoria religiosa mas como princípio filosófico de compreensão do homem no mundo. Segundo este pensador romeno, o entendimento do sagrado se dá através de sua oposição ao profano, sendo “a manifestação de algo ‘de ordem diferente’ — de uma realidade que não pertence ao nosso mundo — em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo ‘natural’, ‘profano’”(2).

Nas sociedades chamadas tradicionais, contudo, o “natural” não se traduz nas experiências com o “profano”, pois, como destaca o próprio Eliade, o sagrado nessa sociedade equivale à realidade por excelência. Assim, “o sagrado está saturado de ser. Potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade, perenidade e eficácia”(3).

Nesse sentido, o espaço do sagrado apresenta-se como “heterogêneo”, “forte” e “significativo”. Ele opera uma “rotura” no espaço profano, instaurando uma “abertura” que comunica nosso mundo com um outro mundo, que liga Terra e Céu, e possibilita uma experiência singular: o contato do ser humano com o transcendente. Na comunicação do homem com os deuses, o espaço sagrado tem um valor absoluto, orientando tudo que o rodeia. É considerado, portanto, o “Centro do Mundo”, potência que, mesmo sendo centro, pode estar em toda e qualquer parte.

Se o espaço do sagrado não é homogêneo, o mesmo acontece em relação ao tempo. Criado no interior do tempo profano, o tempo sagrado equivale ao tempo da origem do cosmo, está fora da História, é “por sua própria natureza reversível, no sentido em que é um tempo mítico primordial tornado presente”(4).

O fenômeno da heterogeneidade e da circularidade do tempo sagrado dos ritos está ligado à regeneração da existência humana e do mundo. Podemos relacionar tal manifestação justamente à experiência poética, quando, segundo Octavio Paz, em O arco e a lira, “o tempo cronológico — a palavra comum, a circunstância social ou individual — sofre uma transformação decisiva: cessa de fluir, deixa de ser sucessão,
instante que vem depois e antes de outros idênticos, e se converte em começo de outra coisa”(5). A própria poesia é, portanto, lugar do sagrado, já que “não é nada senão tempo, ritmo perpetuamente criador”(6).

Associado ao tempo mítico, a figuração do sagrado se faz por símbolos. Os seres, as palavras e os objetos simbólicos são retirados de seu lugar costumeiro e assumem novo sentido. Ora, a linguagem metafórica da poesia realiza esse processo de reconfiguração, trabalhando com múltiplos significados que co-existem em uma imagem. Júlio Cortazar, ao pensar a poesia a partir de seu eixo estrutural, a imagem, destaca: “Todo verso é encantamento, por mais livre e inocente que se ofereça, é criação de um tempo, de um estar fora do habitual, uma imposição de elementos”(7).

Mas se a poesia é lugar do “valor sagrado” do pensamento metafórico, no caso da poética de Paula Tavares, nosso objeto de estudo, a linguagem traduz-se tanto por uma redescoberta estética do poder da palavra quanto por uma revisão crítica dos sentidos do sagrado para a sociedade angolana atual.

Entre as preocupações dos poetas angolanos a partir da década de 70 está a ameaça da perda da memória cultural. Após a independência de Angola, os conflitos gerados, no período colonial, com o confronto entre várias culturas, ganham novos contornos e reiteram a impossibilidade, como em qualquer outra sociedade, de um reencontro absoluto da sociedade angolana moderna com seu passado ancestral. Hoje, o sistema global, ao reduzir as fronteiras entre as diferentes comunidades, manifesta-se sob o signo da pluralidade e da renovação constante de estilos e práticas culturais, incluindo as da ordem do universo sagrado.

É assim que Paula Tavares recria esteticamente provérbios, mitos, ritos e outras manifestações do sagrado no modo de viver angolano, discutindo as relações entre a tradição e a modernidade e a presença marcante de uma diversidade étnica e cultural em Angola.

Já no seu primeiro livro, Ritos de passagem (1985), a autora põe em cena experiências da iniciação, reescrevendo criticamente ritos de passagem de seu local de origem. O movimento que a obra realiza em torno das práticas tradicionais se dá desde o poema inicial, quando, ao buscar na estrutura da parlenda, brincadeira típica da tradição oral que tem como finalidade trabalhar com a memorização, realiza a cerimônia de passagem ao próprio universo da escrita.

CERIMÓNIA DE PASSAGEM

a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto
a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho
o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto
o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio

A imagem do tempo mítico circular no poema estará presente em toda a obra. Estão representados ritos de passagem de uma faixa de idade a outra, como acontece neste poema inicial — a rapariga, a mulher/ o homem e o velho, cada um cumprindo sua tarefa e fazendo a roda girar —, mas também do casamento e da reversão de um status social. Nestes dois últimos casos o que se pretende é problematizar uma viagem iniciática da mulher a um novo espaço de construção de sua identidade. Assim como o rito de passagem garante ao indivíduo o desempenho de seu novo papel social e afirma seu direito a ele, as três partes da obra são organizadas de forma a dramatizar gradativamente a entrada do sujeito lírico feminino em uma nova ordem. Uma das estratégias utilizadas pela poeta é apresentar o eu-lírico na primeira pessoa apenas na
última parte do conjunto. Nesse momento, há uma reincorporação do sujeito à sociedade, como um ser diferente, assumindo-se definitivamente entre o som e o silêncio, a tradição e a ruptura.

Tanto o sujeito quanto a página em branco são marcados pela pedra que fere e produz lume. A palavra fogo, como lembra Paula Tavares na crônica “Os doces frutos da árvore do pão”, “em certas línguas bantu, se diz otupia”(8). Ora, o fogo, enquanto elemento sagrado, marca na poética da autora a própria utopia iniciática da literatura. Como preceitua Michel de Certeau, em A invenção do cotidiano, ao analisar o valor
mítico que a prática da escrita assumiu nos quatro últimos séculos:

A ilha da página é um local de passagem onde se opera uma inversão: o que entra nela é um “recebido”, e o que sai dela é um “produto”. As coisas que entram na página são sinais de uma “passividade” do sujeito em face de uma tradição; aquelas que saem dela são as marcas do seu poder de fabricar objetos.(9)

O poeta é, dessa forma, aquele que fabrica imagens e experimenta através delas uma transmutação, manifesta um desejo de transgredir, de ser outra coisa. No caso de Paula Tavares, do ponto de vista africano, a poesia é uma prática ritualística, a confissão da morte e do renascimento iniciáticos, o simbolismo do regresso às tradições e da abertura à modernidade.

Em O lago da lua, obra publicada quatorze anos depois de Ritos de passagem, Paula Tavares mais uma vez reencena aspectos do sagrado angolano. No poema de abertura, que dá título à obra, a imagem do lago, “símbolo lunar e feminino”10, ao refletir a luz invertida da lua, faz o sujeito questionar o tempo, marcado pelos ritmos da vida, pelas fases da lua.

No lago branco da lua
lavei meu primeiro sangue
Ao lago branco da lua
voltaria cada mês
para lavar
meu sangue eterno
a cada lua

Assim como a lua “morre” quando desaparece e renasce depois de três noites, a iniciação feminina começa com a primeira menstruação e esta se repete em ciclos. O sangue e a lua, reguladores do tempo feminino, são, pois, os elementos que não deixam que a memória se perca. Esta, como aponta Paula Tavares, surge como um novo gênero, em que se “reconstrói, com maior ou menor talento da palavra, a própria palavra:
ajustam-se contas com a história e o presente continua... por resolver”(11).

Desse modo, no espelho do “lago branco da lua” encontramos o duplo movimento de esquecimento e rememoração do processo de memória, que supõe duas cenas — da água parada do lago e das águas do rio a correr —, duas articulações — do sangue lavado todo mês e do caminhar com as caravanas —, passagem para uma outra dimensão, que, sendo outra, porém, reflete a primeira, nunca se esgotando como pura repetição. Essas múltiplas imagens vão se fazendo no nível do próprio discurso, como um processo, um jogo de espelhos.

Desta forma, na tentativa de desocultamento das tradições, isto é, em um ato de recuperação da memória, a linguagem poética de Paula Tavares revela-nos tanto a recomposição de uma imagem passada, o preenchimento de lacunas, enfim, traços míticos do tempo cíclico, como a própria lacuna, a decomposição, a rasura da imagem, do futuro, da ruptura, o “VOU / para o sul saltar o cercado”.

A imagem do cercado é recorrente na obra de Paula Tavares. Representa um espaço sagrado e limitado, guardado e defendido, “local intransponível, proibido a todos, exceto ao iniciado”12. Por ser um espaço construído, cuja representação e vivência falam-nos dos valores, dos costumes, da visão do mundo de seus habitantes, é reencenado na poética da angolana com todo o conflito do sujeito diante de um patrimônio marcado pelo passado e as constantes mudanças que a história exige. É assim que na obra Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001), o poema “O cercado” traz um sujeito lírico feminino interrogando a mãe sobre a realidade que conheceu há muito e que, no hoje, não passa de vestígios a serem ordenados e recriados:

O CERCADO
De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó
Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado
De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias
Onde está o tempo prometido p’ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p’ra lá do cercado

As imagens do cinto de missangas, da panela do provérbio e da própria voz da mulher que se tenta recolher são traços que testemunham o passado, cuja memória interpela. É interessante observar que a medida em que o sujeito procura recuperar o passado pela memória, esta permanece sempre aberta, sempre incompleta, como o futuro em espera. O silenciado cercado, espaço da tradição no qual o sujeito se movia, encontra-se, nesse contexto, aberto, quebrado pela “palavra grito”, pela pergunta, pela memória que procura criar uma ponte entre a tradição perdida, o presente a ser entendido, e o futuro de esperança, o “tempo prometido p’ra viver”, segundo inclusive os ideais utópicos do período de luta pela independência angolana.

Nesse saltar do cercado, encontramos uma escrita que volta também a si mesma, na apresentação de imagens recorrentes, na própria renovação de seus versos. Como exemplo, citamos a própria organização dos poemas na obra Dizes-me coisas amargas como os frutos. O primeiro conjunto, do “Boi, boi”, soma-se ao segundo “Vaca fêmea”, resgatando o sentido de “Navegação circular”, segunda parte do primeiro livro de Paula Tavares, Ritos de passagem. Em especial os poemas “Boi à vela” e “Olho de vaca fotografa a morte”. Isto porque, para Paula Tavares, o olho parado de um boi, de uma vaca, representa ao mesmo tempo o universo tradicional, parado sobre si próprio, e o que está mais à frente13 e a sua volta. No encontro dessas duas visões é que se instaura sua poesia. Visões mediadoras de som e silêncio, de vida e morte, de tradição e modernidade.

No livro Ex-votos, publicado em 2003, as imagens do boi sagrado, dos antepassados, do ancião, da tecedeira, das máscaras ritualísticas, reencenam mais uma vez o sentido do sagrado para a sociedade angolana atual. Os ex-votos podem ser lidos exatamente como a tradição enquanto elemento dinâmico, metaforizada pela cera do voto religioso.

Enfim, a escrita dessa poeta nasce de uma reescrita, de uma releitura da língua materna, em que aspectos da tradição oral de seu local de origem se vêm cruzar. Pensa, enfim, a língua portuguesa em outro espaço, o angolano, apreendendo-a sob uma perspectiva outra, em um entrelugar que desliza “entre voz e letra”14. E ao articular literariamente a modalidade dominante de oralidade, “cuida da memória”, para usar uma expressão de Paula Tavares na crônica “Edith Södergran”, em A cabeça de Salomé (2004). Nesse mesmo texto, a poeta declara:

À força de preparar e colocar a voz pelos caminhos, comecei a contar memórias. Agora sou o griot, contador de histórias que não começam e não terminam nunca. Conheço de cor os jogos dos deuses.15


Por conhecer muito bem as estratégias do verbo, Paula Tavares encena a descoberta de um novo espaço sagrado, um lugar de encontro da liberdade, do amor e da poesia.


Referências bibliográficas:
APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos. 13. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.
CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1993.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
LABAN, Michel. Angola: encontro com escritores. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1991. v. 2.
PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX. Niterói, RJ: EdUFF, 1995.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
SOW, Alpha... [et. al.]. Introdução à cultura africana. Lisboa: Edições 70, 1990.
TAVARES, Paula. Ritos de passagem: poemas. Luanda: Lito-Tipo, 1985 (Cadernos Lavra & Oficina, n. 55).
________________. O sangue da buganvília: crônicas. Praia; Mindelo: Centro Cultural Português, 1998.
__________________. O lago da lua. Lisboa: Caminho, 1999.
__________________. Dizes-me coisas amargas como os frutos. Lisboa: Caminho, 2001.
__________________. Ex-votos. Lisboa: Caminho, 2003.
__________________. A cabeça de Salomé. Lisboa: Caminho, 2004. 1 APPIAH, 1997, p. 156.



2 ELIADE, 2001, p. 17.
3 Idem, ibidem, p. 18.
4 Idem, ibidem, p. 63.
5 PAZ, 1982, p. 225.
6 Idem, ibidem, p. 31.
7 CORTÁZAR, 1993, p. 94.
8 TAVARES, 1998, p. 156.
9 CERTEAU, 2002, p. 226.
10 CHEVALIER, 1999, p. 395.
11 TAVARES, 1998, p. 71.
12 CHEVALIER, op. cit., p. 772.
13 Cf. LABAN, 1991, p. 857.
14 No estudo Entre voz e letra – o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX (1995), Laura
Cavalcante Padilha destaca a tensão existente entre a voz e a letra na produção literária angolana dos anos
50 aos 80, em que “as antigas marcas da oralidade buscarão tecer-se a da letra literária, construindo-se o
fecundo entrelugar da voz e da letra” (p. 163).
15 TAVARES, 2004, p. 43.

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