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Poeszeja 3 - Odes

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Neste mês, apresentamos quatro odes modernas (em versos livres). A primeira, uma sincera homenagem a um patrono da literatura mundial, foi enviada pela escritora e leitora do site. A segunda é uma cantiga intimista, sussurrada ao pé do ouvido, mas de um realismo nada condizente com o ambiente da poética. Já a terceira é um clássico do poeta que se usa ao máximo da oralidade (e às vezes até dos berros) para clamar a sua cidade. E esse 'sua' é ambíguo, pois na forma de pronome possessivo é como o de um órgão que admira o organismo; e na forma de substantivo feminino, como o de uma parte que lança sobre o todo um olhar crítico e esboça, ali, a idealização da sua cidade (mas que, nem por isso, deixa de ser real). E fechamos, então, com um passeio na megalópole de construções poéticas,  espiando cada esquina e cada avenida na companhia do poeta (de seu "ego" ou "eu-lírico"?) e traçando o seu itinerário surreal à la Macunaíma.



Boa leitura!!

Wellington Souza
Coordenador da seção



Para participar da seção, acesse informações aqui.



*

Ode ao Itabirano Carlos
por Jessé Barbosa Oliveira¹

Pento solto
Poetar parindo a ROSA DO POVO.

Poetar o estar no mundo
Poetar reverenciando O ADORÁVEL VAGABUNDO
Poetar fazendo verso com o substantivo próprio RAIMUNDO.

Poetar AS MÃOS DADAS
Poetar A ROSA E A NÁUSEA
Poetar o quão é funda a angústia
Poetar a consciência de que a vida
                                                 Anda em contínua fuga.

Poetar a supernova prematura do leiteiro
Poetar o encontro com as pedras no CAMINHO
Poetar o ensimesmar criativo.

Poetar Itabira
Poetar a saudade de uma ERA perdida
Poetar como é BESTA a VIDA.



Poetar a perda de identidade
Poetar o amor maduro e a desumanidade
Poetar sutil e de fogo alto é o poetar de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE!




*

Será o que nos restará


Digo te, meu bem, o que há.

Há um céu roxo no horizonte
e pássaros que se esquentam da noite fria
como muitas crianças miseráveis, amontoadas
(ao contrário das ricas, engaioladas).

Digo te que há motores dando partida
e muitas mulheres vendo uma ultima partida,
dizendo: “até já”.beijando e engolindo um coração...
mas logo haverá o reencontro
- seja lá em qual plano.

Digo te que há jovens derrubando velhas árvores
velhos jequitibás que monopolizam a copa da floresta
e com a madeira fazem fogueiras... tocam violão...
Mas ainda estão em suas manhãs, Apolo marcha
e os velhos costumes que derrubam é o campo em que perderam seus filhos...

Digo te que há muitos tomando café da manhã em padarias
e isso em nada se parece com comercial de margarina
- o ato de pedir aos garçons é o mesmo que colocar ficha em máquina expressa.
Houve um acidente automobilístico. Ambulâncias. “Estragaram carros do
[ano”, alarmam.

Digo te que há peões que temem a guerra.
Há reis que temem a guerra e não demonstram, não.
e há jogadores que marcam o tempo das jogadas
e sabem em quantas rodadas haverá um xeque-mate.

Digo te que há um casal que acaba de se conhecer intimamente
mas já sabem das viagens a acampamentos, shows, filhos e infartes...
Mal sabem a felicidade que se contrasta com o azul.
Mal sabem serem dois pontos traçando a mais bela das retas,
a única beleza muito além da relatividade das coisas
pois é bela em si - um 'todo'.
Mal sabem mal saberem de tudo e se acham onipotentes
pois são apenas dos corações – um com sutil arritmia – na primeira manhã do
[resto de suas vidas.





*

Sampacaosmopolitana

Santo São Saulo
De Tarso, rico em cultura
Das alturas, herança deixou
E edificou a cidade assim:

Parques, Vilas e Jardins
Pinheiros, Maria e Mariana
Negra, rubra e ariana
Sampacaosmopolitana

De punhos cerrados
Recebe os afilhados
Com olhos de assombro
Em seu tapete negro

Retirantes, imigrantes, viajantes
Romarias, passeatas, procissões
Revoluções, campanhas, companhias

Aglomerações em suas vias
Devastações de suas ramas
Amálgama, é estrela tramontana
Sampacaosmopolitana

Reza às alturas, aos deuses
Por meses, em línguas, novenas
Terços, penitências, por horas
Ora as sagradas escrituras

Judia, Cristã, Protestante
Católica, Espírita, Testemunha
Umbandista, Budista, Ateia
Quadrangular, Pentecostal, Muçulmana
Cética, Política, Maometana

Ortodoxo só seu ecumenismo
Cigana, Agnóstica, Anglicana
A mistura é o seu absolutismo
Sampacaosmopolitana

Seus sons são somas
Gritos grunhidos das gargantas
Buzinas, balbúrdia, Babel
Ritmos retumbantes radiofônicos

Rock, Sertanejo, Baião
Reggae, Punk, Samba
Eletrônica, Rap, Clássica
Inglesa, Hispânica, Americana

Suas tribos se multiplicam
Na selva de pedra urbana
Aqui todos se coisificam
Sampacaosmopolitana

Grande centro financeiro
Do trem é a loucomotiva
Boas são as perspectivas
Que vive o ano inteiro

Os subúrbios desditosos
As periferias populosas
Casarões de muros grandiosos
Desigualdades escrabosas

Todos querem o montante
Da equação: trabalho x salário
E nisso não há nada de hilário
Pois o chicote estrala constante

Agora, o dinheiro é o seu fruto
Brota das mãos, das cabeças
Dos negócios, do tributo
Espessa nasce sua grama
Sampacaosmopolitana

Nas esquinas as meninas
Pintadas, pouco vestidas
Boca naquilo na Boca do Lixo
Aqui sexo não é pecado, é nicho

O bicho pega, a bicha
Que disputa pelo ponto: rixa
A polícia coerciva, ficha
E a Santa Hipocrisia, lincha

Prostituida por qualquer troco
O cafetão sempre nos engana
O prazer muitas vezes dura pouco
Sampacaosmopolitana

A solidão aqui é coletiva
O dia a dia gera ansiedade
A lágrima escorre corrosiva
Tamanha é a brutalidade

Parece até que é covardia
Mas é assim que ela ama
Nunca afaga sua cria
Sampacaosmopolitana

Viver aqui é uma arte
Arte que se vê em marquises
Prédios, pontes, grafites
Nos passos da porta-estandarte

Baluarte dos escritores, poetas
Pintores, antropófagos das letras
Modernistas das palavras
Pau-Brasil que o artista lavra

No cotidiano se forma o léxico
Reflexo da língua provinciana
Parnasiano agora disléxico
Sampacaosmopolitana

Assim ela se faz, refaz e desfaz
E nós vivemos meio a essa metamorfose
Simbiose que muito nos cansa
Dificilmente aqui se tem paz
Mas, quem não ama essa criança?

Sampa cosmopolita
Caótica, metropolitana
Agora é a bendita
Entre todas, a mais bonita
Sampacaosmopolitana

A minha cidade.


**
Rolê
Acendi uma vela
E fiz uma prece pra
SANTO AMARO
SANTA CECÍLIA
SANTO ANDRÉ

São Nunca
Que nunca me falte
SAÚDE ou SOCORRO

Desço a praça da SÉ
Em direção ao Sul
JAGUARÉ
Ou SUMARÉ

Já me encontro perdido
Em PERDIZES
entre vários achados

Na VILA MARIA
MARIANA nem GUILHERME
encontrei na VILA MADALENA

Me distraio com a
BELA VISTA
Da CACHOEIRINHA
E do CAMPO BELO

Do Alto da CASA VERDE
Vejo as motos
Mergulhando nas avenidas
Uns CARRÃO
E TATUAPÉ

De longe as buzinas
Incessantes
E daí se?
ITAIM BIBI, fofom, poooooommmmmm
Kabbuuummm...

Mais adiante
Respiro o ar quase puro
Debaixo de PINHEIROS cinzas
E fumaça preta

Na Marginal
passa Fusca
Fiat Uno
SANTANA
Passam trabalhadores
Acelerados...acelerando

A parada é dura
PARADA INGLESA
A barra é pesada
Na BARRA FUUUNDAAA
Às seis da tarde

Quantos indo em direção
A LUZ
De certo que o PARAÍSO
É meio longe
E os Inferninhos lá na RUA AUGUSTA

Já pisei na CIDADE JARDIM
Arranquei uma flor
Do JARDIM IRENE
E plantei no JARDIM ÂNGELA
Para as mulheres guerreiras...

No JABAQUARA
Enchi a cara
Senti a falsa LIBERDADE
Fluir na cabeça

Copos de CONSOLAÇÃO
E um grito de IPIRANGA
De esperança...

Já deu minha hora
Vou embora pra BARUERI
O dia amanhecendo
E eu no TUCURUVI

Semana que vem
Novo rolê
Por aí...
Nessa louca REPÚBLICA


* *

¹ Jessé barbosa de oliveira. Nasci em junho de 1982, na cidade do salvador, Bahia, paraíso onde ainda resido. Quase no pôr-do-sol de minha adolescência, descobri que o meu destino era caminhar tropegamente pelas alamedas da poesia. E, há cerca de três anos, publico regularmente em diversos sites literários.


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Créditos da imagem:

São Paulo Sunset, por Rodrigo Kristensen

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