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Microconto: o valor das pequenas coisas

Artigo, por Ju Blasina


 “Escrever é cortar palavras” - Carlos Drummond de Andrade




Adequada à necessidade de acompanhar a velocidade do mundo moderno, utiliza-se das ferramentas tecnológicas disponíveis para a produção de pequenos textos, compatíveis com sites microblogging de grande popularidade, conseguindo assim, alcançar a milhares de leitores em potencial.


Dentro deste cenário, o microconto funciona como uma espécie de intervenção literária minimalista, pois invade a vida digital e impõe-se, causando surpresa desde o primeiro momento. É também uma forma de estimular a leitura com cápsulas literárias de fácil publicação, rápida leitura, mas não necessariamente rápida compreensão, pelo contrário: a microliteratura é muito mais complexa do que pode julgar um olhar superficial — os textos sucintos têm como objetivo trazer um instante de reflexão em meio a toda a massa de informações — relevantes ou não — dos meios digitas. É como um estalo de consciência, um breve despertar da percepção e imaginário do leitor, que muitas vezes é pego de surpresa por estes textos tão inusitados.




Todo microconto é um uma narrativa extremamente curta, porém nem toda narrativa curta é um microconto. Autores do gênero defendem que, para ser considerado um microconto um texto deve conter: (1) Concisão, (2) Narratividade, (3) Totalidade (deve ser um todo significativo, não um fragmento de algo maior), (4) Subtexto (aquilo que está implícito), (5) Ausência de descrição e (6) Retrato do cotidiano.


Diversos sites especializados no gênero consideram textos que trabalham com o limite de 50 letras como nanocontos, de 150 caracteres como microcontos e, minicontos, os que abrigam até 300 palavras ou 600 caracteres, mas de fato, não existe uma regra definitiva. Muitos adotam 140 caracteres como limite, por assim possibilitar que o texto seja enviado através de mensagens SMS (torpedos) e postado em qualquer rede social – o que evidencia uma das principais características do microtexto: sua ligação com as novas tecnologias de informação e comunicação.




Twitter + Literatura = Twitteratura?



Em 2009, o site americano de microblogging, Twitter, lançou o primeiro concurso literário de microcontos, recebendo 1.800 textos inscritos. Diversos outros concursos surgiram desde então, e esse ano foi a vez da Academia Brasileira de Letras (ABL) aderir a moda – no concurso ocorrido em março, dentre os mais de 2.000 inscritos, foram três os microcontos selecionados, sendo a grande vencedora Bibiana Silveira Da Pieve, do Rio de Janeiro, (premiada com um Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), com o seguinte trabalho:


"Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida” – Isso nos mostra que a microliteratura pode se um excelente estímulo para as pessoas começarem a escrever, podendo inclusive servir como uma interessantíssima ferramenta de criação literária na escola.



A produção de microcontos vem sendo bem representada no País, por livros como “Ah, é?”, de Dalton Trevisan (1994); “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Marcelino Freire, 2004), que traz textos de cem diferentes autores, entre eles Moacyr Scliar, Millôr Fernandes e Manoel de Barros; o livro “Contos de Bolso” (publicado pela Editora Casa Verde, no Rio Grande do Sul), que apresenta aquele que talvez seja o menor conto já produzido em Língua Portuguesa, de Luís Dill: “Aventura Nasceu”, além é claro, daquela que é considerada obra-prima no estilo minimalista: "DoisPalitos", obra de Samir Mesquita, onde 50 microcontos de até 50 letras cada, formam um livreto apresentado dentro de uma caixa de fósforos.


Dois Palitos - obra de Samir Mesquita


O que admira é o fato de que, apesar do aparente sucesso dos microcontos junto ao público em geral e da crescente produção de obras incluindo renomados autores da literatura brasileira, ainda não há cânone do gênero. Tal dificuldade lembra o passado de seu antecessor, o conto, que levou muito tempo para se estabelecer e ainda hoje enfrenta preconceitos por parte dos críticos. O grande escritor Machado de Assis, que junto a Aluísio Azevedo foi contista pioneiro no Brasil, certa vez disse a respeito do conto: "É gênero difícil, a despeito de sua aparente facilidade".


No Brasil, assim como em outros lugares do mundo, grande parte do sucesso conquistado pelo conto se deve à industrialização, que trouxe consigo a alfabetização em massa, a necessidade de informações sintéticas e o jornal impresso, o qual popularizou o conto no século XIX (quando os grandes jornais destinavam um espaço para a publicação de contos, como hoje fazem com as crônicas). Já dizia Edgar Alan Poe, escritor considerado o primeiro teórico do conto:




  


"Temos necessidade de uma literatura curta, concentrada, penetrante, concisa, ao invés de extensa, verbosa, pormenorizada… É um sinal dos tempos… A indicação de uma época na qual o homem é forçado a escolher o curto, o condensado, o resumido, em lugar do volumoso".











Seguindo esta linha de pensamento, a condensação dos contos em minicontos, pode ser vista como uma resposta condizente às características e ferramentas da sociedade atual, sendo a internet a principal delas.


Por outro lado, é essa mesma tecnologia, em parte, a culpada pelo preconceito em relação ao microconto, uma vez que a maioria dos sites de hospedagem de textos, os quais comportam uma gama de autores e leitores, não faz nenhum tipo de vistoria ou autenticação de autoria do material a ser divulgado e, portanto, possuem pouca credibilidade. Para obter sucesso com a autopublicação virtual, cabe ao autor inspecionar a qualidade, não só de seu trabalho, como também, da vitrine escolhida para exibi-lo. E, a despeito do que se especula em relação ao futuro do livro em papel, por enquanto, para se obter o reconhecimento da academia – e de grande parte do público – ainda é preciso ganhar o suporte impresso.


Questionar a relevância da microliteratura é tão válido quanto questionar a qualidade de qualquer outro tipo de produção literária: podem-se produzir textos bons ou ruins, em 50 caracteres ou 500 páginas — a qualidade de um texto não pode ser mensurada em tamanho, mas sim em significado, em efeito, e isso, independe de gênero. Se é, ou não, possível produzir boa literatura em poucas palavras? Cabe ao leitor decidir!

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Para concluir, alguns microcontos da série “Oqdz”, de Ju Blasina:





Da Opressão

Monge Tibetano abstém-se da opressão deixando de ser





Da Razão

Enchia a boca de razão ao provar-lhe errado.





Da Maculação

Sentia-se tão profana ao ver a cruz caída sobre os seios nus. Virava os porta-retratos e cobria os rostos dos santos. Já podia pecar em paz.





Da Inconstância

Vez outra era dele, mas não raro falhava.





Da Exorbitância

Custava os olhos da cara, mas vinha uma bengala de brinde.







Da Clemência

Implorou para que não fizesse aquilo, daquele jeito, naquele lugar, mas Clemente era surdo seletivo.





Da Dormência

Na assembléia do corpo, os membros formigam. Ainda ontem, encontrei meu pé num pote de açúcar!

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Para ler mais contos do autor, clique aqui

3 comentários:

  1. Ótimo artigo, Ju!!
    Pode parecer estranho, mas realmente, é muito difícil ser breve!!

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  2. Belo artigo e excelentes microcontos! Fui o terceiro colocado do concurso da ABL.
    Aguardo sua visita no meu blog:
    www.eryckmaga.blogspot.com

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