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O amor como acontecimento

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O amor como acontecimento, capítulo 1 do livro 'O amor na Literatura e na psicanálise' de Nadiá Paulo Ferreira. Editora DialogArts Publicações, 1998 e disponível para download gratuito no site da editora.


O amor como acontecimento
Nadiá Paulo Ferreira
Professora Titular de Literatura Portuguesa/ UERJ
Doutora em Letras/ UFRJ
Pós-Doutora em Letras/ UFRJ

O amor deixa marcas e lembranças em nossas vidas. No instante em que acontece o amor, simplesmente amamos.

Amar significa inventar sentidos para tudo o que nos cerca. Ama-se o outro por um sorriso, uma voz, um olhar...

Ama-se para colocar em cena o desejo ou para aprisioná-lo na doce ilusão amarga de que o outro a quem se ama tem o que nos falta. Tudo depende da estrutura em que o amor se inscreve.

É impossível dizer o que é o amor. Fala-se do amor. Mas, mesmo assim, nunca sabemos a verdade do amor.

É importante assinalar aqui a diferença que Jacques Lacan estabelece entre a verdade e o verdadeiro. A verdade sempre está relacionada à singularidade de um sujeito e se caracteriza, por sua própria estrutura, por ser não-toda, por ser uma meia-verdade. O verdadeiro é o que se diz:

E o que é dito? É a frase. Mas a frase, não há meios de fazê-la se sustentar emoutra coisa senão no significante, na medida em que este não concerne ao objeto.A menos que (...) vocês postulem que não há objeto que não seja pseudo-objeto.Quanto a nós, nos atemos a que o significante não concerne ao objeto, mas ao sentido (LACAN, Seminário 17, 1992, p. 53).

Amar implica a suposição de se tocar a verdade. Tudo depende do modo pelo qual o sujeito se posiciona diante da castração.

Castração, aqui, não é usada no sentido corrente, isto é, icionarizado, onde significa ato ou efeito de se castrar. O verbo castrar (do latim castrare) faz parte do código de nossa língua com os seguintes significados, segundo a versão de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, em Novo Dicionário da Língua Portuguesa: cortar ou destruir os órgãos reprodutores; capar; impedir a proficuidade ou eficiência; anular ou restringir fortemente a personalidade; eliminar os estames de flor hermafrodita, antes que se abram para soltar o pólen, a fim de se proceder ao cruzamento artificial. Estes significados são inteiramente antinômicos ao conceito de castração em psicanálise. Ninguém castra, a si mesmo, a condição para um ser falante se constituir como sujeito é se tornar um ser submetido às leis da linguagem, cuja estrutura, além do simbólico e do imaginário, inclui o real, sob a forma de uma falta radical, na medida em que o real só pode se apresentar para o ser falante como impossível de ser significado. Isto é castração para a psicanálise.

Ama-se para encontrar a verdade partida ou para alimentar a esperança de que irá se descobrir toda-a-verdade.

Não se trata de uma falácia qualquer, mas de um dizer que tenta dar conta de um acontecimento. O nó reside justamente aí: tanto o amor quanto a verdade têm uma estrutura de ficção e se articulam com o real. O paradoxo de todo ser falante é se deparar a todo instante com questões para as quais não têm respostas ainda, ou, se as tivesse, estas só poderiam ser dadas pela metade.

Afirma-se que o amor é contrário ao ódio. Também se diz que o amor desemboca no ódio. Basta um sujeito começar a tecer relações com as palavras, isto é, com os significantes, e os sentidos se multiplicam sem que a significação tenha um ponto final. Não se pode dizer tudo, e conseqüentemente definir o amor. Há um muro que não se pode transpor. Mas o haver do real não implica a desistência do homem em buscar um sentido para o amor ou para suturar o rasgo que o real faz em tudo que nos cerca ou para girar em torno do inalcançável¹. Assim cria-se o mito do amor...
¹ O real, o simbólico e o imaginário são os três registros da estrutura do ser falante: o real só pode comparecer como impossível, o simbólico corresponde às leis do significante, que são as mesmas da linguagem, e o imaginário se refere ao corpo e ao sentido.
Lacan, no decorrer do seu ensino, faz referências a várias modalidades de amor e aos diferentes mitos que se criaram em torno dele: o amor dom-de-si, narcísico por excelência; o sentimento da paixão, característico de toda neurose; o amor cortês, sublime e na mais absoluta abstinência sexual; o amor ao próximo, suporte dos laços fraternos e homossexuais; o amor trágico, que tem como representante a personagem Antígona – a que não cede sobre o seu desejo; o amor de transferência, cuja descoberta por Freud deu lugar ao nascimento da psicanálise, o amor como metáfora e o amor como recusa do dom.

Amor, gozo e desejo. Amar é diferente de desejar e de gozar. Isto não significa que não haja
articulações entre o amor, o desejo e o gozo.

Há inconsciente porque há linguagem. Só por isto o homem pôde inventar o amor que, ao contrário do desejo, não faz parte da estrutura do falante. O amor é uma contingência que surge como um dos efeitos dessa estrutura. É a entrada na Lei que possibilita a inscrição na estrutura da linguagem, inaugurando o desejo como a marca que diferencia a espécie humana dos outros seres vivos. A origem de tudo o que é vivo está no real. Dele só se pode, a partir do simbólico, constatar o seu haver e esbarrar com o impossível de dizê-lo. Por isso uma das definições dadas por Lacan do real é o que não pára de não se escrever como impossível. Mas, para que um falante possa esbarrar com este impossível, é preciso que tenha ocorrido a passagem do real para o simbólico, o que, por sua vez, só acontece se tiver ocorrido a inscrição do Nome-do-Pai², que, como representante da Lei, funda não só o desejo mas também a diferença sexual que pertence ao campo do simbólico. É nessa passagem que algo que teve sua origem no real e não se simbolizou irá para sempre reaparecer como pura falta indizível, engendrando o desejo do homem como desejo do Outro.
² Lacan, durante todo seu ensino, se refere a um significante de base: o Nome-do-Pai. Apesar de me referir a esse conceito em todo o livro, é, precisamente, no segundo capítulo, “Fundamentos de uma práxis”, que irei tecer algumas considerações sobre esse conceito.
Ao contrário do amor, o desejo faz parte da estrutura do falante e tem como característica ser, ao mesmo tempo, indestrutível e invariante. Todo desejo é sempre o mesmo já que se articula à falta do objeto. Por não haver o que se deseja, o desejo está sempre se deslocando. Do ponto de vista do desejo não se trata disto e sim de outra coisa, mais outra, ainda outra, e assim sucessivamente... É porque o desejo faz parte da estrutura do ser falante que se pode usar o amor como álibi da verdade. O desejo visa sempre o objeto em função daquilo que falta e o amor se dirige ao outro não enquanto objeto, mas enquanto ser. A suposição de que haja um ser no outro dá origem ao amor.

O lugar do gozo é o corpo. Um corpo vivo goza por inteiro. Mas, quando esse corpo se inscreve na linguagem, dimensão do simbólico, opera-se uma separação entre corpo e gozo. A partir daí, o ser falante tem como destino um gozo partido, um resto a gozar. Entre a experiência de um corpo que goza e o que falta a gozar se interpõe a palavra: fala-se do gozo e dessa fala nasce a suposição de um mais-gozar. Então, fala-se de amor, sofre-se por amor e se retira gozo do sofrer por amor. Da extração de um gozo pela dor de amor, o sujeito se petrifica, cedendo ao gozo e estancando o movimento do desejo, que não é outro, senão que está girando em torno do que ainda falta, do que sempre irá faltar. É nesse sentido que se pode falar da antinomia entre desejo e gozo. Entre eles, novamente o amor. Ama-se para se desejar, ama-se para gozar do sofrimento de amor. Justamente por isso, identifica-se um masoquismo moral no discurso do amor na literatura do século XIX.

A complexidade do tema e a necessidade de expor alguns conceitos, que estão em jogo na teoria do amor formulada por Lacan, deram origem ao capítulo “Fundamentos de uma práxis”.

Eis os meus passos como leitora: selecionei alguns textos para falar do amor e do meu amor pela literatura portuguesa, o que não deixa de ser uma tentativa de reunir os pedaços de algumas marcas que traçam o perfil de minha infância no Brasil, convivendo com emigrantes portugueses amigos de meu pai, e ouvindo estórias da terra em que nasci. Lembranças do encontro da menina com a professora de literatura portuguesa que descobriu a psicanálise.


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Créditos da imagem:
" o amor, o amor é que nos desfaz", por MARIAH

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