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Crônica, por Mariana Collares.

Uma resposta à carta intitulada ‘ O homem perfeito’, de Arnaldo Jabor.



Concordo com o Jabor – homem perfeito não existe. É realmente um erro tentar encontrar no sexo oposto qualquer possibilidade de perfeição, ou um arquétipo de ser intangível e sem máculas – algo muito parecido com um ser bíblico dos tempos de Abraão. Não. Sabemos disso. Já desde cedo, junto com os contos de fadas que nossas mães nos liam, nos diziam que “perfeição só a de Deus”. A escola, a igreja, a seita, a comunidade, todos já refutavam qualquer possibilidade de incutirmos em nosso subconsciente essa elevação digna dos anjos. O ser humano, e todo mundo já sabe, é falho. Bom, isso é pacífico e não há maiores delongas. Entretanto, a carta de Jabor, a par de nos fazer crer que não há, realmente, homem perfeito (posto que é dirigida a nós, mulheres), pretende nos acomodar a esta idéia, a conviver e até a ser feliz com ela. Ok. Não há seres perfeitos. Todo mundo, vez ou outra, escorrega na moral ou nos deveres. Mas fazer disso uma bandeira, ao contrário de ajudar, só nos enterra mais e mais no lodo da corrupção dos sentimentos. Não, não é papo de carola. Não estou aqui pra dizer a vocês, mulheres, que devemos nos lançar em uma cruzada contra a infidelidade masculina. Nem devemos perder tempo e dinheiro lendo manuais que ensinam como manter um homem por mais tempo, ou como casar antes dos 40, ou os dez segredos para deixar o seu homem maluco na cama. Paremos com isso e já!

Sabe, me deparei com esta idéia após ler o tal texto do Jabor para duas amigas: uma delas, uma mulher linda e experiente, dona de um senso crítico inigualável e de uma sensibilidade ímpar, a outra, uma pinup na flor da idade, com o viço e o aroma da juventude, cheia de esperança no amor e na sublimação romântica. E a reação foi a mesma: nas duas pude ver, não o contentamento que só as grandes descobertas podem trazer, mas um olhar distante e amargo, de quem perdia o último fio de esperança.

Não que eu não concorde com o texto. Não se trata disso. Acho até que ele é muito sincero. E realmente tenta entregar ‘o ouro ao bandido’, como se houvesse efetivamente uma briga entre os sexos ou como se a descoberta da fraqueza humana masculina fosse trazer às mulheres alguma espécie de compreensão ‘sobre-humana’ - própria, diga-se, do nosso eterno instinto maternal. Mas sim, podemos até fazer um esforço de consciência e compreender que dentro da revelada ‘miséria masculina’ há qualquer coisa de animal ou, como queiram, natural. E até poderíamos conviver com isso. Se quiséssemos.

Mas vejam, meninas, será que é por aí? Bom, como o texto do Jabor só jogou pela janela nosso sentimentalismo barato, mas altamente lucrativo para os machos (depois explico melhor porque), entendi que me restava a insana tarefa de trazer de volta um pouco da crença no lado bom disso tudo. Mas veja, REALMENTE BOM. Sem ‘faz-de-conta que tá tudo bem porque o mundo é assim mesmo e não mudará’.

Assim, vamos por partes:

Primeiro, não quero essas carinhas tristes estragando a maquiagem. Vamos começar dizendo que o mundo atualmente possui oito bilhões de pessoas. Desses oito bilhões, imaginemos que três bilhões são machos. Como é fato (e não fui eu quem disse) que toda a unanimidade é burra, deve haver alguém, nesses três bilhões (digamos um por cento), que não saia por aí munido de uma pistola cheia de espermatozóides, pronto a atirar em qualquer ser que cheire a estrogênio. Deve haver alguém do sexo masculino, que não seja crente, gay ou psicótico, e que não anda por aí brincando com os próprios testículos a “Deus dará” e com qualquer uma. Sim, por que não imaginarmos que há, na espécime macho, algum que não está preso à maçante filosofia do tacape-caçador? Seja por qual motivo for - se está passando por alguma doença provisória chamada paixão, ou se por ideologia mesmo, ou simplesmente porque não é ‘alfa’ o suficiente pra sair se atirando de cabeça em qualquer buraco (literalmente falando). Eu mesma conheço homens assim, e olhe, não são gays, não são feios, não são esquizóides e nem moram com a mãe. São poucos, mas existem. E se eu, que sou só uma, conheço uns... dois homens assim, façam a conta e multipliquem, em proporção, por uma em cada grupo de 100 mulheres. Vai dar um número considerável. Pouco relativamente à grande massa espermática restante, mas ainda um número importante.

Segundo, não se assustem! Para encontrar algo que se assemelhe ao amor-romântico vocês não precisarão virar lésbicas. Nada disso! Não é solução passarmos a formar uma raça de Valkírias, cheias de ódio pelo elemento masculino. Lembrem-se: perfeitos ou imperfeitos, somos todos filhos de Deus. Se podemos compreender e conviver com esse tipo de atitude, de forma soberana e consciente, isso se deve ao nosso espírito agregador e visivelmente mais elevado. Vejam vocês que, como disse antes, esse nosso instinto materno é altamente lucrativo aos machos. Imaginem se passássemos a usar dos mesmos subterfúgios irracionais para nos justificarmos dessas pequenas torpezas e começássemos a buscar fora do meio o nosso macho-alfa do momento (afinal, também somos seres fisiológicos). Teríamos famílias totalmente desestruturadas! Ou vocês acham que os ‘pais-de-família’ ficariam em casa, preocupados em cuidar das fraldas ou da lição de casa enquanto estivéssemos no barzinho buscando um tacape-caçador que não o do cotidiano? Sim, talvez você diga agora que isso é injusto, que somente a nós, mulheres, na generalidade dos casos, é que cabe a tarefa de organizar e empreender a família como grupo social. Mas é isso mesmo! Na grande maioria dos casos, não a totalidade, claro, esta tarefa cabe a nós. Exatamente por sermos assim, menos mundanas, mais sentimentais. E não há mal nenhum nisso, pelo contrário. Quantas famílias se estruturam com a mãe, sem qualquer pai??? Muito mais do que as famílias com o mantenedor puramente masculino...

Então, meninas, seja fato ou filosofia, ainda que o macho seja, na maioria dos casos, mais inconstante e volúvel no que diz com o sexo, não podemos nos esquecer do principal. Não sei onde está escrito que temos que passar a vida inteira ao lado de uma mesma pessoa do sexo oposto, mas se isso lhes parece bonito e poético, não se esqueçam que, sendo ou não ilusão, é dela que se alimentam os nossos filhos, e foi o que nos alimentou desde crianças. Então não há mal nenhum em sonhar. Afinal, a vida, tal como a conhecemos, não passa de uma grande ilusão... E se somos ou não melhores enquanto espécime ou espírito, se somos realmente mais sensíveis, e se nos unimos pensando em construir um futuro, em criar filhos, em nos dignificarmos pela constância e pela compreensão, e se acreditamos em romantismo, e nos esforçamos pra tentar reciclar o tempo e o cotidiano, não tentando subverter o sentimento, mas recriá-lo, e se cremos que é possível sim vencermos, pela razão, as pequenas misérias e os maus atos, e tantas outras coisas que aparentemente nos distinguem do masculino, isso se deve a algo muito bonito e que, talvez, tenhamos conquistado com milênios de progresso e evolução. E é por isso que me dirijo a vocês nesse texto. Não tentando insuflá-las ao rancor do amor-partido, mas mostrando o quanto somos melhores que toda essa mesquinharia que se vende em comerciais de cerveja.


(Extraído do livro DEVANEIOS LITERÁRIOS, de Mariana Collares, Editora Bookess, 2010, 1ª edição, disponível em http://www.bookess.com/read/5947-devaneios-literarios/).

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Créditos da imagem:
Be woman, por Luz Lourenço

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