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A cor da felicidade

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Conto, por Gabriel Gentilini.

 Era uma sensação meio rosada, bem clarinha, bem serena.

Ele queria um campo florido para sair correndo, tipo naquelas cenas em slow motion de filmes: correndo, sorrindo, sentindo o vento no rosto. As pétalas roçando na pele. Aquele solzinho do fim da tarde forçando-o a olhar sempre pra frente, porque encarar o céu faria os olhos doerem. Queria é se perder num infinito perfumado, abraçar a liberdade, sorrir, sorrir, sorrir. Viver. Botar a alma em movimento, a tristeza pra rodar, os problemas soterrados abaixo das flores. Imaginar que, lá ao longe, imóveis, majestosos, havia morros bem altos, tocando as nuvens, e que ele poderia facilmente voar se pulasse do topo de um deles. Abriria suas asas e se entregaria ao céu exatamente como abre seu coração e o entrega às pessoas. Tudo muito fácil, muito natural.

Mas tudo que ele tinha era um vasinho com um único girassol dentro. Graciosamente, a flor se voltava em direção ao sol que entrava na sala apertada pela pequena janela de vidros sujos. Apontava pra luz, pro céu. Ele então se perdia na mesma direção que a flor olhava, e é assim que pensava nos campos, no perfume, nos morros, nas asas. Quando voltava a si, e isso geralmente demorava, ria e dizia coisas como que mundo engraçado. O girassol sempre se vira na direção da luz, mas não sai correndo, não almeja alcançá-la, não sonha nem reclama. O girassol é feliz com a sua vida, é feliz mesmo sabendo que pode apenas olhar o sol sem nunca correr até ele. Lógico, pensou, é uma planta. Eu posso me curvar em direção ao meu sol também, então por que continuo parado? Eu vou correr e alcançar e pular e abrir as asas e voar até lá em cima, bem alto. Mas ficar parado tinha seus pontos positivos. O sol vai vir até mim da mesma forma que vai até o girassol. As coisas acontecem. As pessoas começam a sorrir quando param de tentar. Porque sorriso é assim: ele vem. Você quer? Talvez ele venha. Não quer? Cara, ele pode te pegar de surpresa. Vem pra ficar, vem pra dar movimento, é uma resposta, é um convite, é um momento, é um pra sempre. É um sorriso. Todo mundo sabe o que é. Ou será que isso já é felicidade?

Talvez fosse verdade que ele tivesse medo de ser feliz. Não muito, só um pouco. A felicidade assusta de vez em quando, porque tira o cinza dos nossos rostos, nos extrai do caos. Mas as pessoas meio que estão acostumadas com esse cinza caótico, e qualquer coisa que faça o mundo parecer a visão de dentro de um caleidoscópio — um caos organizado, feliz, macio — causa um certo estranhamento. Normal. É tanta coisa ruim em volta da gente que, quando algo bom acontece, dá até receio de acreditar que aquilo esteja mesmo acontecendo. Eu preciso limpar os vidros, ele decidiu, pro meu girassol ser um pouco mais feliz. E também pra que ele mesmo pudesse ver o céu de novo com mais clareza e se perguntar por que mesmo que ele é azul. Ah é, a atmosfera deixa passar com mais facilidade ondas de luz com comprimentos de onda menores. Tipo o azul, índigo, anil, violeta até. Sua mente ia longe. Pensar em cores o fazia sorrir. Quis voar de novo. Sentir o vento sem cor no rosto. Tinha algo que palpitava em seu peito. Era uma sensação meio rosada, bem clarinha, bem serena.

Ele jamais permitiria que aquele terreno florido virasse um campo de guerra, que o ar ficasse poluído, que bombas caíssem pelo chão em toda parte. Era lá que ele buscava conforto, que se sentia vivo, que enxergava sentido até nas coisas mais malucas: o amor, a liberdade, a saudade, quem é Deus?, como descrever uma cor para uma pessoa cega?, o dia é sempre lindo aqui! Mesmo que aquele campo não existisse de fato, lá era o seu porto seguro, seu pilar de sustentação, o alicerce de todo seu ser. E o campo nem existe, pensou.

Então ele entendeu o motivo pelo qual o girassol se contentava em apenas ver o sol. A felicidade existia dentro dele. Plena, ampla, com a cor que ele mais gostava e com cheiro de flor. Ele era o girassol.

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Créditos da imagem:
Banho de pólen, por José I. Costa

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