I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

O desejo feminino interpretado

Collete Soler

Se a mulher se inscreve no par sexual apenas por “se deixar desejar”, sua posição como parceira do desejo masculino deixa na obscuridade a questão do desejo próprio que condiciona esse consentimento. Daí a obstinação de Freud, que não renuncia a sua afirmação sobre a menina – “ Ela o viu, ela o quer”-, mas, assim mesmo, termina com sua famosa pergunta:” o que quer a mulher?”

A expressão do desejo feminino é problemática, de fato A doutrina freudiana tem ao menos o mérito de destacar a distinção entre todos os desejos possíveis para as mulheres e que seria propriamente um desejo feminino. Uma única libido, diz ele. É que o desejo como tal é um fenômeno do sujeito, ligado à castração. Daí sua correlação essencial com a falta-a-ter, que nada tem de especificamente feminina. É nesse aspecto, aliás, que a noção de “complexo de masculinidade” é não só maculada pelo preconceito, mas conceitualmente confusa. Tudo o que concerne ao desejo de adquirir, de se apropriar, é igualmente válido em relação ao homem como metonímia de seu ter fálico. Em nome do que o desejo de ter seria proibido às mulheres, quer se trate de fortuna, poder, influência ou sucesso, em suma, de toda as chamadas buscas fálicas da vida cotidiana? Nesse ponto, a diferença entre Freud e Lacan é muito sensível. Lacan não era rude com as mulheres, nem em seus textos nem em suas análises, e era pouco inclinado, ao que parece, a desestimulá-la de adquirir tudo que lhes desse vontade, por menos que isso fosse possível. Só que esse anseio, inerente ao sujeito, não tem nada de propriamente feminino, e o desejo da mulher como tal, se é que existe algum sentido em evocá-lo, seria outra coisa. Freud viu nele apenas uma variação do desejo do ter – sob a forma de ter o amor de um homem ou de um filho fálico. Afora isso, entregou os pontos. Nas três soluções freudianas para a já evocada inveja do pênis – renúncia, masculinidade e feminilidade -, convém ressaltar que, no terceiro caso, o da chamada evolução normal, o sujeito não renuncia ao ter fálico como no primeiro. A mulher-mulher, segundo Freud, distingue-se pelo fato de, ao contrário do segundo caso, não se propor auto-proporcionar-se o substituto fálico; ela o espera de um homem, especialmente sob a forma de filho. Não renuncia, mas consente em passar pela mediação do parceiro. Assim no fundo, a mulher freudiana é aquela que concorda em dizer: Obrigada.

As formulações de Lacan não objetam a isso, muito pelo contrário, já que ele diz que “é a ausência do pênis que faz dela o falo”. O que equivale a dizer que ela só é objeto sob a condição de encarnar para o parceiro a significação da castração, e de se apresentar sob o sinal do menos – razão por que Lacan deu tamanha importância a La femme pauvre, de Léon Bloy. A formulação é generalizável; é a falta – pênis ou não - que faz o objeto existir. É o que acontece com o próprio homem Sócrates, que ao exibir a falta de seu desejo, torna-se objeto da transferência de Alcibíades² . Assim, possivelmente está acessível a qualquer um, homem ou mulher, a carreira de ser homólogo de uma mulher, ou seja, aquilo que se acopla ao Um à maneira do objeto.

Entretanto, para a mulher, assim como para tudo que se oferece no lugar do objeto, inclusive o analista, o ser objeto ainda não diz nada sobre os objetos que ela tem, os que causam seu próprio desejo e o que a torna apropriada a seu lugar na relação. Nesses pontos, Lacan afasta-se de Freud e, onde renuncia á empreitada, aceita o desafio.


² J. Lacan.” Subversão do sujeito e dialética do desejo”, in Escritos, 1998, p.84

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