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Selecta Gótica

                                                    William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) 
                                                    The Day of the Dead (1859)                                                       

Poemas, por Rommel Werneck.

                                                        Saudações, Ilustre Plêiade e Leitores!


Para minha estréia aqui foi confeccionada a "Selecta Gótica", um conjunto de meus sonetos obscuros. 




ANJO PÁLIDO

Oh! Lindo anjo deitado sobre a neve,
Como teu corpo fraco e macilento,
E tua boca pura, santa e leve,
Excitam-me causando bom tormento!

Os tons frios da pele pura e pálida...
Os olhos: dois sublimes cemitérios...
A boca, a boca: Arcádia rubra e cálida!
Quero-vos, lábios ígneos, maus e etéreos!

Ó nimbus, ó dragão, ó Nosferatu,
Ó mago, ó lacrimal anjo caído,
Ó humano, ó cavaleiro, ó cândida arte,

Ó Zeus, ó mártir, ó nimbus perdido,
Ó gárgula, ó meu nimbus inexato,
Quero amar- te, beijar-te e exorcismar-te!


LOST PAST

Amo-vos minhas pálidas lembranças,
Banhadas nas cascatas mais oníricas...
Amo-vos pelas vozes belas, líricas...
E por jamais trazerdes esperanças!


Amo-vos meus pecados infinitos,
Máculas de redutos infernais
Que trilham por locais celestiais,
Onde se escutam meus lívidos gritos...


Não há como matar este passado!
Não há como viver este presente!
E o amor? Deixa de lado o que se sente?


Mancha lembrança mácula pecado...
Um futuro que nunca morrerá...
Um passado que nunca chegará...





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Pecado, tela de Franz von Stuck







PÁLIDO PECADO


Oh! Pálido Pecado da gris Morte,
Numa misteriosa e bela dança!
O jogo dos olhares... Esperança!
O movimento quente, lindo e forte...


Oh! Pálido Pecado que em mim lança
Fascínio, sedução... Oh falsa sorte
Que me deixa sem luz, céu, vida e norte!
Maldita e imaculada! Triste dança!


Oh! Pálido Pecado... Juventude...
Dança, dança, divina grã-beleza!
Dança, dança, lasciva grã-pureza!


Dança sem fim, desejo atormentado...
Virtude escura... Pálido Pecado...
Oh! Pálido Pecado de virtude!








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DEMÔNIO ANGELICAL

Ah! Demônio sangrento atormentado!
Por ti, minha vil mente só suspira!
Meu corpo intensamente cai e transpira
Ah! Demônio sangrento atormentado!

Nos negros olhos: cor viva do tédio
As vestes lutuosas, pretas, góticas...
Curvas no corpo tão belas e eróticas...
Nos negros olhos: cor viva do tédio

Mas na boca, há lascívia e até pureza:
Tu me beijas com tanta força e ardor,
E tu me falas coisas sobre o amor...

Com as coisas do amor casto e sublime
Não há nada no mundo que assim rime...
Ah! Lindo anjo repleto de nobreza!






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Fotografia de Rommel Werneck


Ó BELA MORTE


Ó bela morte, minha namorada,
Pra uns tristeza, já pr'outros desejo...
Teu puríssimo, lindo e único beijo,
Retira a dor de um'alma atormentada.


Dispa meu luto, sinta a imaculada
Pele minha e pra mim faz um cortejo!
E então, mata-me como tanto almejo,
Converta meu terrível corpo em nada!


Leva-me para o obscuro, para o Além!
Leva-me para longe deste mundo!
Leva-me para perto de meu Deus!


Beija e morda as carnes e braços meus!
Leva-me deste mar de sangue fundo!
E livra-me de todo o Mal, Amém!




ANJO MORTO


Só e perdido na mais negra necrópole,
Encostado na cruz de um vil sepulcro,
Revelando um sorriso puro e pulcro
No mais distante ponto da metrópole.


Anjo defunto, corpo cadavérico...
Carnes magras, sublime e santo rosto,
Em que o célere tempo deixou posto
Um grito morto, um canto forte e histérico.


Apetecido, surge ele tão vivo,
Pra eu cometer meu próximo delito.
Dragão que se aproxima tão lascivo,

E me deixa perdido em mais conflito,
E crava em mim seus dentes diabólicos,
E vê graça em meus olhos melancólicos!


  





Estátua na Catedral de Trier, Alemanha




ANTES, AGORA E SEMPRE

Quaresmeira de meu triste jardim,
Fincaste em mim inúmeras raízes,
Mas deixaste também mil cicatrizes,
Rugas que jamais, nunca terão fim.

Tronco magro que muito me fascina,
Tornando a vida suja e macilenta,
Somente a tua seiva me sustenta!
Somente tu és pulcra e grã-divina...

Antes, agora e sempre, só chorando...
Antes num quarto pálido e sem luz...
Agora acorrentado numa cruz...

Sempre e sempre, estará a boca sedenta
Gemendo unicamente um grito brando:
Somente a tua seiva me sustenta!






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SÓ.

Só! Sem bonança dança, luz, ó luz!
Na solidão perpétua do viver...
Só! Com medo segredo, cruz, ó cruz!
No luto eterno deste alvorecer...

Só! Sem amor calor, alguém, ó alguém!
Na necrópole lúgubre e perdida...
Só! Com sombra que assombra, alguém, ó alguém!
Na floresta sangüenta desta vida...

Só! Chorando exalando negro sangue,
Sangue horrendo, infeliz, morto e ruim,
Morto e ruim querendo amor e dó,

Dó e caritas, amor, tudo tão só.
Só! Sem cor, sem ninguém, sem luz, sem fim!
Afundando-se neste rubro mangue...




PROFECIA*


Um dia, tu estarás em pleno choro,
Sangrando em negras lágrimas a terra.
As almas do passado em grave coro,
Declararão a ti a mais suprema guerra.


O castelo dourado e azul morreu,
E a vida continua em triste pranto.
Eis aquilo que nunca se esqueceu,
E que conduz o azedo e amargo canto:


Um dia, tu estarás em forte grito
Que tingirá de luto o sonho pulcro
E assim se cumprirá a tal profecia.


O futuro será pra sempre aflito,
Nós que estamos em lúgubre agonia
Seremos então um único sepulcro.


*Texto vencedor (2º lugar )do IV Concurso do Vale das Sombras de 2009
Publicado no IV E-book do Vale das Sombras disponível gratuitamente em:






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LADO OBSCURO


Lado obscuro no dorso branco e nu...
Ah! Que carne vestida de alvo leite!
Nos teus músculos mui quero deleite.
A lascívia que lambe o lírio cru...


Tu tens asas sombrias de urubu...
Pois se tu me revelas claro enfeite,
Não, não há luz, portanto, que se deite
No tecido mais lúgubre que és tu!


Tudo corre entre sombras e mais luz...
O teu corpo de Cáucaso, algo impuro,
Ao terrível negrume me conduz!


Tu és nívea luxúria, sol no escuro,
O mais cândido luto que reluz.
Porque é vida raiada o lado obscuro!


Dante e Virgílio no inferno, tela de Bougureau



  
INFERNO OBSCURO


Tédio, carne, luxúria, escuridão,
Bonança, luz, espírito, pureza,
Suor, morte, calor, devassidão,
Frio, vida, dia, ação da natureza!


Fogo negro cobrindo o interior...
Túnel das sombras, mórbido pecado...
Cores quentes, voz pálida de um lado...
Terrível lava obscura: forte amor!


Alguém surge nas trevas deste inferno...
Um vampiro vermelho, gris, sangrento...
O demônio macabro em movimento...


Supremo deus noturno, grande e eterno...
Tateando- me com força e maldade...
Satisfazendo bem minha vontade!





NOITE SILENCIOSA


Agora, as noites são longas, vazias...
Oh! Triste madrugada torturosa,
Que através destas brisas más e frias,
Revela uma amplidão silenciosa!


Agora só ficaram nostalgias,
Noite lenta, simplória e tenebrosa,
Silêncio intenso e fúnebre. Sombrias
Névoas cobrem a Lua lacrimosa...


Na noite em que eu não estava assim, sozinho...
As horas não passavam devagar.
Anjo flor rapidez vida cantar,


Amor bonança dor saudade infinda!
Depois daquela noite alegre e linda,
Perdido estou por este descaminho.



Silêncio, tela de Johann Heinrich Füseli 

SEPULCRO


Seja o teu sepulcro vestido de flores
Que convivam bem com imensos espinhos.
São precisos novos e muitos odores
Pra enfeitar os próximos tristes caminhos...

Doravante seja a vida sem amores
Os meus sentimentos pra sempre sozinhos
Tingidos em negras e bélicas cores
Vividos em dias inúteis, mesquinhos...

Seja o teu sepulcro feito de pudores...
A terra movida por redemoinhos...
Temíveis conflitos, incertos rumores...

Reinem nos sonetos e nos pergaminhos
O sepulcro augusto repleto de cores...
                                          Seja a minha vida um sepulcro de espinhos!                                           




  

ESPÍRITO ERRANTE


Espírito errante que anda pela terra,
Vaga calmamente por este deserto,
Trilha por um rumo, um campo longo e incerto,
Vive intensamente a mais temível guerra...


Espírito errante que anda pelas águas,
Nada pelo nada, nada pelo medo,
Teme a vida e esconde assustador segredo:
Um coração cheio de infinitas mágoas...


Espírito errante que anda pelos céus,
Voa sem vontade pelo seu remorso,
Arrasta as correntes e os fúnebres véus...


Espírito errante na lava oscilante,
Carrega mil marcas no lascivo dorso...
                                                     Sem destino vaga um espírito errante...                                                                                            




LAVA LASCIVA


Lava lasciva, lúgubre que lava
O fluxo desta vida tão flexível...
Ela, lépida, lânguida e inflexível
Lúbrica, lacrimal, lasciva lava!...

Lava lasciva límpida que leva
Tudo e todos, flui livre e libertina,
Desliza, escorre, desce e se releva!
Fluxuosa letal bela neblina...

Lava lasciva lívida e veloz,
Que transforma, converte este reduto
No céu mais flamejante e mais feroz!

Aos homens e mulheres impõe luto,
A tudo e todos, lança ardor interno...
Lava lasciva, fogo negro e eterno!





Rommel Werneck

*
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