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Destempo

Imagem: A Persistência da Memória de Salvador Dalí 

Conto para a seção Fantásticos, por Yane Faria* 



A milhares de anos atrás, tantos que já perdi a conta, aconteceu algo que mudou a minha vida e a vida dos Newahanes para sempre. E posso afirmar que sou a maior responsável pelas desgraças que se abateu sobre todos nós. Tudo se passou na época em que os Deuses ainda andavam sob a terra como qualquer mortal. Éramos seres primitivos, vivíamos da caça e da pesca, usávamos roupas de pele curtida, cultivávamos a agricultura e sabíamos manejar bastões, lanças e flechas que eram usados contra os predadores, mas fora isso, cultivávamos a paz e a bonança. Cada Deus tinha uma nação, e cuidava dela como lhe conviesse, uns eram benevolentes e caridosos, outros eram cruéis e desumanos, mas todos eles defendiam sua raça com unhas e dentes. Os Newahanes habitavam as planícies, possuíam grandes territórios com rios e florestas vastas, e isso causava inveja aos povos da vizinhança. Um desses povos se chamava Padwes assim como o Deus que regia aquela nação, e eram ambiciosos e invejosos, não admitiam que tivéssemos aquele paraíso para desfrutar enquanto eles tinham apenas as cordilheiras para habitar.



Para que vivêssemos em paz e respeitando as diferenças raciais, foi criado um código de ética que tanto Deuses quanto mortais teriam que seguir se quisessem viver em harmonia. Nesse código a principal lei dizia que toda vida humana era sagrada, e que se um mortal tirasse a vida de outro, deveria pagar com a sua vida pelo crime.

Mas com o passar do tempo às leis e ameaças já não surtiam os mesmos efeitos, não custava nada morrer em troca de poder, então começaram as guerras. O respeito à vida ficou em segundo plano, a riqueza passou a vir em primeiro. O Deus de nossa tribo se chama Pehawanes que quer dizer, pequeno guerreiro que comanda grande nação, e era irmão de Padwes. Nunca aceitou que usássemos de violência para resolver nada, nem mesmo em resposta a um ato violento.

Eu me chamo Agnes e cresci nesse mundo como a filha de um deus com uma mortal, não conhecia o ódio nem a ira, apenas o amor, por meus pais, meus irmãos de tribo, meu marido e meu filho Athewor. Até que um dia minha tribo foi covardemente ultrajada, invadiram nossos lares, destruíram nossa aldeia e mataram nossos homens e jovens. Não pude esquecer o horror daquele dia, os gritos e o desespero dos meus irmãos, fiz o que pude, mas todo o esforço foi inútil, mal pude salvar minha mãe e meu filho, assisti impotente à morte de meu marido que morreu para nos proteger. Meu pai não permitiu que reagíssemos e nos convidou a prantear nossos mortos para servimos de exemplo ao inimigo. Todos ficaram de acordo, menos eu. Não pude admitir que invadissem nossos lares, matassem nossos maridos e filhos, se apoderassem de tudo que nos pertencia por pura covardia e ficássemos quietos como se nada estivesse acontecendo. Incitei a todos que como eu, estavam com o coração cheio de dor e ódio, a vingar aquele massacre com a mesma moeda, eles precisavam sentir na pele o que sentimos diante de sua vilania. Formei um exército de mulheres viúvas e jovens órfãos, treinei-os e planejei tudo passo a passo, quando soubemos que os filhos de Padwes o Deus bárbaro partiram para mais uma batalha deixando seus lares desprotegidos, coloquei meu plano em prática. Massacramos todas as mulheres e crianças que encontramos, queimamos suas cabanas, espalhamos o terror, o que não foi muito difícil, eram todos frágeis e despreparados, deixamos apenas um adolescente capaz de andar por muitas léguas para que relatasse para o chefe da tribo no acampamento do outro lado da montanha tudo o que vira. Estava cega de ódio, não me importava de estar deixando meu povo em perigo, a única coisa que queria era saciar minha sede, sentir o prazer de ver o mesmo sofrimento que vivi estampado na face do inimigo, tirei-lhes o que tinham de mais caro e ainda não estava satisfeita, queria que soubessem como fora a minha vingança, a cada rogo uma vida a menos, mães implorando por filhos, jovens implorando pelos irmãos, gritos de dor e desespero, tudo exatamente como fizeram a minha família. Mas como a cada ato uma consequência, a punição veio em seguida. Não fui punida pelo inimigo, meu pai se encarregou disso. Ele não podia permitir que meu ato inconsequente trouxesse a desunião para o mundo, uma vingança leva a outra que leva a outra e assim sucessivamente, transformando o mundo num grande caos. Na época eu não entendia isso, mas hoje vejo com mais clareza. Então decidido a por um ponto final nessa historia, Pehawanes tomou a decisão mais difícil de sua vida. Nos levou a julgamento e fomos condenados pelos deuses ao exílio do tempo. Eu como chefe da rebelião e por me valer do fato de ser meio mortal e meio humana tive uma punição extra. Nunca me esqueci o momento da sentença, aquelas palavras ecoam na minha cabeça até hoje:

- Diante de todos os fatos apurados e do consentimento da culpa dos envolvidos no caso, fica decretado que os Newahanes envolvidos no massacre dos Padwes das montanhas serão condenados ao exílio do tempo por toda a eternidade – Houve uma pausa e a comoção foi geral, meu pai sentado ao lado do Deus Minwe do povo frio que presidia o julgamento ficou boquiaberto. Então quando achávamos que havia acabado, eis que veio a pior parte – Silencio, por favor! Ainda não acabei. Fica decretado também que Agnes filha de Pehawanes por se valer do fato de ser meio imortal e dessa forma levar vantagem sob suas vitimas, além do exílio, será condenada a orfandade filial a partir de já. De acordo com a lei máxima de nossa nação, terá que pagar com a vida de seu filho Athewor, a vida de tantos outros filhos que tirou dos Padwes. E que use o tempo do exílio para refletir em seus atos – Quando ouvi aquelas palavras, foi como se o chão tivesse sumido debaixo de meus pés e me arrastado em uma queda vertiginosa por um profundo abismo, o ódio que sentia dos homens brancos das montanhas cresceu ainda mais naquele instante, minha vontade era expurgar da terra aquela nação impura, mas tudo que fiz foi gritar para que todos ouvissem as verdades que trazia dentro de mim.

- Se o que fiz foi tão errado? O que dizer de seres que atacam por ambição terras alheias, massacram, matam homens saudáveis? Eles nem respeitaram os nossos idosos indefesos, a alma de nossa tribo, fonte de profundo conhecimento. Eles têm feito coisas cruéis todos os dias e todo mundo finge que não vê. Por isso fiz o que fiz, cansei de esperar e fiz justiça com minhas próprias mãos, e isso só me põe em posição igual a dos homens das montanhas, não me torna melhor nem pior que eles.

- A sentença foi dada – enquanto se levantava para partir, eu apelava pelo seu bom censo. Mas Minwe sequer olhou para trás. Então descarreguei todo o meu ódio na única pessoa que deveria ter me defendido, mas preferiu se manter impassível. – E você não vai fazer nada? Vai deixar que tirem meu filho de mim dessa maneira? Não bastava o fato de ter de viver parada no tempo por toda eternidade remoendo meus erros, ainda tem que me punir com mais essa dor para carregar? Como pode ficar quieto diante de tanta injustiça papai?

- Me perdoe querida?

- Não me chame de querida! Isso só faz aumentar meu ódio por você. Como pode deixar que me dêem tal punição?

- Eu não podia fazer nada Agnes. Tenho toda uma nação para servir de exemplo. Você só colheu o que plantou.

- Nunca vou te perdoar! – O ódio que meu pai viu em meus olhos deve ter sido tão grande que o fez recuar decepcionado. Tenho certeza que ele teria fugido se pudesse. Mas se manteve inabalável.

- Um dia você vai me entender – Falou e saiu sem olhar para trás.

Padwes que assistira a tudo triunfante veio jogar sua satisfação em minha cara.

- Sinto muito querida sobrinha, de coração. Tão jovem e bela e já condenada ao exílio. Se não fosse eu a maior vitima teria até intercedido por vocês – Falou e soltou uma sonora gargalhada.

O sangue ferveu em minhas veias, o teria retalhado com minhas próprias unhas se não tivessem me segurado.

Depois do nosso confronto, fui levada para o quarto, no momento não entendi por que, mas depois descobri que meu pai havia pedido revisão da pena alegando que fora injusta e desigual. Dois dias depois houve uma nova audiência e meu pai foi meu intercessor, graças a sua interferência consegui uma atenuante, seriamos libertados do exílio quando deixássemos para trás todas as magoas e conseguíssemos perdoar nossos inimigos, mas isso não seria assim tão fácil, as feridas que eles nos causaram seriam eternas. Recebi a nova sentença sem muitas expectativas, me fechei em mim assim que comecei a cumpri-la. Desde então estamos vivendo no que chamamos de destempo.

Sem dia, sem noite, sem horas e sem minutos, sem envelhecer e sem morrer. Os jovens continuam jovens fisicamente, as crianças continuam crianças ao menos no corpo, mas nossas mentes não são as mesmas, crescemos, amadurecemos e aprendemos muitas lições com a vida, até já nos acostumamos com o destempo. Sei que muita coisa deve ter mudado no mundo, pois o ambiente que vivemos tem mudado constantemente, como uma tempestade que varre as encostas do dia para a noite, as planícies férteis ficaram áridas, a vegetação antes verde e viçosa já não existe, tudo que temos é um ambiente desértico e acre. Em uma de suas visitas meu pai disse que isso acontece por que os habitantes do mundo em nossa volta transformaram a terra completamente e mesmo sem tempo sofremos com suas mudanças. Também perdoei o meu pai, se demorou muito ou pouco para isso acontecer não sei, mas sei que tudo aconteceu no tempo ditado por meu coração. Ele me visitou um dia e disse que estava sofrendo muito por minha causa, que não podia mais suportar minha raiva e indiferença, que tinha esperado que eu o solicitasse, e sabia o quanto eu tinha sofrido. Por mais injusto que tivesse sido comigo, ninguém me amava mais que ele. Não resisti a seu apelo e o abracei, choramos juntos pela primeira vez depois de tudo. Revelou-me que esse era um grande passo para minha libertação, já que com esse gesto provei que estava aprendendo com meu castigo. Espero realmente que esse dia chegue, que esse ódio que ainda sinto arrefeça e me traga Athewor de volta, mas confesso que tenho perdido a esperança.


*Yane Faria é uma aracajuana que escreve desde criança contos dos mais diversos gêneros.  Atualmente possui um conto publicado na antologia Beijos e Sangue. Possui um blog onde disponibiliza seus contos:Vozes ao Vento

 Contato: gleise.faria@hotmail.com

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