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O ser e o mano



Crônica, por Mariana Collares.

“Inspiração é uma piração que vem de dentro”. Este colóquio altamente intuitivo e filosofal é o rebento criativo de meu primo de 19 anos.

Como todo adolescente, é pintor, filósofo, poeta, escritor, desenhista, músico, compositor, instrumentista, televisivo e computadorizado. É a geração hip hop. Dos manos, das minas, das sinas.



Tem um vocabulário peculiar e uns cabelos que parecem o Jackson Five Século XXI. Às vezes tenho que me esforçar para entender em que época estou... Porque há uma mistura tão densa dos anos 70 com Matrix que me assusta e faz pensar.


Gosta de Bob Marley, que é um vovô que, já na sua época, inventou a jamaicomania (com reggae, cachimbinhos, toquinhas de lã com as cores da bandeira e muitas, mas muitas, trancinhas).

Mas também gosta de uma tal Lauren Hill (que canta um Soul anos 80) e, para minha surpresa, meu tio Djavan (que hoje deve ter lá seus 60).

Acessa a net nas horas livres e, quando não há hora livre, pinta umas letras esquisitas que ninguém entende direito mas que, em sua língua, imprime recados nos muros da cidade.

Tem umas revistinhas de cifras de violão e passa horas tirando melodias e entoando canções num quarto fechado.

Há... há sempre um quarto fechado.

As namoradas sucedem-se com as horas do relógio. E os parceiros lançam grunhidos ao telefone, quando querem chamá-lo para alguma balada:

- Ae Tia! O Bico tá aí?

- Fabrício, é o teu amigo “Cotôco” no telefone!

Então veste uma bermuda, que é grande demais pra ser bermuda e curta demais pra ser calça. Põe os tênis, uma camiseta com a cara do Che Guevara e sai batendo a porta e dizendo:

- Vó, vou uma banda e já volto.

E sai para se encontrar com o “Cotôco”.

Passa horas pensando o que quer ser quando crescer e se assusta quando lhe dizem que já cresceu e que precisa decidir.

Enfim, é um menino sensível e normal. Assustado demais com um mundo cão e que já estava pronto e paranóico quando chegou aqui.

Por isso, gosto de ouvi-lo falar e trocar ideias. E ele escuta cada palavra e parece absorver cada nota do que digo enquanto olha para o nada e torce as mãos.

Tem ganas de aprender. Tem medo do futuro e passa os dias prolongando a infância porque crescer significa escolher ser adulto e responsável (e ele é muito jovem pra isso...).

Mas tem sede de melhorar as coisas e as pessoas. E pensa ter a chave para tudo isso. E tem tantas ideias e metáforas e ideogramas para mudar o mundo que chego a ter medo da tão esperada maturidade. Porque com ela, quase sempre, vem a acomodação, a inserção social.

Meu menino torna-se um adulto bem comportado e egoísta.

E o mundo perde um pouco da poesia até que a geração seguinte lhe dê uma nova chance de ser mais belo.

***


(Texto extraído do livro DEVANEIOS LITERÁRIOS, de Mariana Collares, Ed. Bookess, 2010, disponível em http://www.bookess.com/read/5947-devaneios-literarios/).

Blog pessoal: Devaneios Literarios
Facebook: Mariana Collares

Para ler mais crônicas da autora, clique aqui

Créditos da imagem:

3 comentários:

  1. Muito legal! já fui assim e as vezes ainda sou...

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  2. Adorei sua crônica. Gosto da sua linguagem bem atual, viva e fluente, misturada a um toque poético. Abraços

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  3. Obrigada, pessoal! Crítica especializada me interessa sobremaneira! :)) bjos

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