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Consciência Literária



O catarinense João da Cruz e Sousa


Artigo de Rommel Werneck.



Em razão do Dia da Consciência Negra, convém citar o grande escritor negro Cruz e Sousa injustiçado pelas vozes que o acusam de alienado e não comprometido com sua realidade de negro brasileiro.  Nestas horas, deve-se pensar na relevância de nosso magno poeta no cenário internacional, valorizado mais pelos franceses do que por certos brasileiros.


Muitos “poetas” e “estudiosos”, abandonando a consciência literária, afirmam que o Cisne Negro não vivia como negro, não defendia as causas sociais e tinha uma preferência excêntrica pela cor branca, daí a ausência da negritude. Em primeiro lugar, é essencial compreender que para eu ser, por exemplo, teuto-brasileiro, eu não preciso ficar escrevendo louvores a Hitler que nem era alemão assim como nosso expoente do Simbolismo não precisou tratar a escravidão negra para ser negro.


Há mitos também que precisam ser dissolvidos e para isso nada melhor que enxergar a realidade dos fatos. Cruz e Sousa foi um poeta negro de Santa Catarina cujos pais alforriados conseguiram, em parceria com seus patrões, dar uma educação decente ao jovem catarinense que inauguraria o Simbolismo no Brasil.  O Simbolismo foi uma escola literária que retomou o desinteresse pela realidade vigente assim como o Romantismo e também quem disse que Cruz e Sousa não esteve à frente das manifestações abolicionistas? É claro que esteve, no entanto, sua produção lírica não tocava no assunto uma vez que o engajamento político é uma opção feita pelo autor de uma obra literária e mesmo assim deve ser trabalhada com cuidado.

Quanto à cor branca, devemos nos refletir algo óbvio: qual a cor da pele dos ditos brancos? Não é cor branca e sim, caucasiana. Eu mesmo que sou descendente de alemães levo horas para me maquiar e deixar meu rosto branco com pancake. Então, por que a obsessão pela cor branca? 

Ao contrário dos que muitos pensam, essa história de entrar na igreja de branco, véu e grinalda não é tradição coisa nenhuma, é algo de cerca de 150 anos. Vejam os quadros medievais e renascentistas, o mais comum é ver as mulheres de roupas coloridas e fortes. A própria Virgem Maria aparece muito pouco de branco. Durante certo tempo, o poder econômico se manifestava no tom forte das vestimentas, daí casar de preto não era algo incomum.  No Oriente o branco está associado ao nada, ao luto, por exemplo, as viúvas indianas vestem um sári branco.  O vestido de noiva moderno foi inventado pela rainha Vitória que inovou ao entrar de véu e grinalda em tons alvos. Além do mais, a palidez das virgens lânguidas não está associada ao branco vazio?





Primeira comunhão 


Grinaldas e véus brancos, véus de neve,
Véus e grinaldas purificadores,
Vão as Flores carnais, as alvas Flores
Do Sentimento delicado e leve. 


Um luar de pudor, sereno e breve,
De ignotos e de prônubos pudores,
Erra nos pulcros virginais brancores
Por onde o Amor parábolas descreve...


Luzes claras e augustas, luzes claras
Douram dos templos as sagradas aras,
Na comunhão das níveas hóstias frias... 


Quando seios pubentes estremecem,
Silfos de sonhos de volúpia crescem,
Ondulantes, em formas alvadias...



Poderíamos dizer que este soneto é preconceituoso, alienado e fora da realidade do autor? Vamos refletir: se as moças realizam a primeira comunhão habitualmente cobertas por mantilhas brancas, por que o espanto? Talvez o verdadeiro espanto dos panfletaristas seja a linguagem considerada erudita demais, mas sinceramente qual o problema do escritor negro escrever assim? E qual o problema nas figuras de linguagem?  Pouco a pouco, descobrimos que a grande chave de tudo isto é o panfletarismo, a tendência de escrever direta e objetivamente ferindo os princípios da Literatura. O que precisamos fazer é honrar este homem negro cheio de tanto mérito que não teve preguiça de estudar como  os panfletaristas que se negam escrever literatura sem o suor da pena.



*Publicado originalmente na edição impressa de novembro do jornal culturalista "O Piagüí" cujo site encontra-se extinto.

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