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Conversas literárias: A Morte



Conversas Literárias, por Iracy de Souza.

Viver com meus próprios erros já me dá trabalho suficiente,
(J. Saramago in: As intermitências da morte)


A morte é o tema de nossa Conversa literária do mês de março. Tema recorrente em todos os tempos nas artes, religiões, filosofia, psicanálise etc. Para desenvolver esse tema poderíamos escolher diversos caminhos: a reprodução O Dia da Morte tela de William- Adolphe Bouguereau, (1825-1905), tanto quanto na reprodução da pintura da Dança dos mortos que ficava num dos muros do Cimetière des Innocents (1424) em Paris, mostrando cada pessoa dançando com sua própria morte, ambas as telas simbolizam a convivência permanente do homem, nós sujeitos de linguagem, com a morte. Também, poderíamos recorrer ao romance de José Saramago que nos brindou, com seu olhar cético e uma visão pessimista sobre a sociedade no romance: As intermitências da Morte. E nos levou a pensar a morte em uma nova perspectiva, não-morte, uma viagem outra. O leitor fica aturdido diante da magnitude do tema e da possibilidade apresentada no romance. Pensar os transtornos e as dificuldades de se viver sem a presença de algo que somente surge com nossa ausência.



A maior angústia de todo ser humano é a morte. Todos os seres vivos morrem, é verdade, mas vivem e morrem enquanto espécie, não podem ter consciência da mortalidade individual. Apenas nós, sujeitos de linguagem sabemos da angústia da morte e a alteração radical que essa, promove no homem. Heidegger (1888-1976) acrescenta que essa transformação que o homem sofre, transforma-o em existenz, o único ser autêntico, o único ser individual, o único ser realmente mortal. O existenz, entretanto, já não existe como espécie e sim como indivíduo. A angústia diante da própria morte libera, individualiza e destaca o existenz do homem-massa, eleva o homem-espécie à condição de um existente autêntico.

Como estamos todos nós voltados para vida, Conversas Literárias procurou induz nosso leitor a pensar a morte via a poesia de Manuel Bandeira, A morte, in: Estrela da vida inteira, a literatura de Valter Hugo Mãe, e na psicanálise lacaniana.

Apresentamos a ilustração sobre A morte, de Mariana Binder., estudante de artes plásticas da UERJ. Uma resenha da obra de Valter Hugo Mãe, O remorso de Baltazar Serapião, pelo Prof. Dr. Valdemar Valente Junior, (Universidade Castelo Branco/UniverCidade). O romance apresenta sucessivas situações de estranheza narradas por Baltazar Serapião, protagonista do romance, e que podem ser balizadas pelo espectro da violência e da morte. Descaracteriza de um tempo específico, generaliza as ações dando-lhes um cunho permanente, o que reforça o sentido pessimista da obra, para quem o universo da violência humana não tem remédio nem limite. O relato de Valter Hugo Mãe coaduna-se às ruínas de um universo da perversão de onde a figura feminina parece extrair as forças que não possui ante a iminência de fracassar e sucumbir. (O remorso de Baltazar Serapião. Valter Hugo Mãe. São Paulo: Editora 34, 2010, 197 p.)


Ainda um capítulo, Deus está morto mais ele não sabe: Lacan brinca com Bobók. do Livro de Salovoj Zizek; “Como ler Lacan”, o autor nos ajuda a entender a celebre frase Se Deus está morte tudo é proibido.“O ateu moderno pensa saber que Deus está morto, o que ele não sabe é que, inconscientemente, continua a acreditar em Deus. O que caracteriza a modernidade não é mais a figura típica do crente que abriga secretamente dúvidas sobre sua crença e se entrega a fantasias transgressivas; hoje temos, ao contrário, um sujeito que se apresenta como um hedonista tolerante dedicado à busca da felicidade, e cujo inconsciente é o local das proibições: o que é recalcado não são desejos ou prazeres ilícitos, mas as próprias proibições. “Se Deus não existe, tudo é proibido” significa que quanto mais você se percebe como um ateu, mais seu inconsciente é dominado por proibições que sabotam seu gozo.” (“Como ler Lacan” de ZIZEK, Slavoj. -Tradução Maria Luiza X. de A. Borges Revisão técnica Marco Antonio Coutinho Jorge. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 2010).


Artigos:

 Deus está morto mais ele não sabe: Lacan brinca com Bobók, de Slavoj Zizek.
Violência, paixão e morte, de Valdemar Valente Junior
 A morte, poema de Manoel Bandeira.

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Créditos da imagem:
A Morte, por Mariana Binder

Um comentário:

  1. A morte é o tema mais vívido da humanidade... É a nossa única certeza...
    Gostaria de convidá-la para visitar meu blog. Comentários são muito bem vindos.

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