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Bela Ícaro (o roubo do caminho do outro)



Conto, por Carolina Bernardes.

"...  para alcançar altitude nunca dantes imaginada por uma simples borboleta."


O casulo começava a desbotar. O sol forte descoloria o pálido, a bolsa mágica e sem-graça da beleza. Por dentro, não se via. De dentro não via a impetuosidade de fora, a vida exigente, que não poupava os fracos. Nasceu um dia com uma asa quebrada. Mas estava alegre e faceira, porque asas tinha e podia abaná-las como nunca.



A borboletinha acenava com a asa boa, capenga, tropeçava no vento. Mas não desanimava, corria a insistir, tremulava sua pequena asa e tentava um voo altaneiro. Desobedecia as ordens da natureza, tentava enganá-la. Um dia cismou em ser uma ave, para alcançar altitude nunca dantes imaginada por uma simples borboleta. Imaginou a glória. E assim sobrepujaria suas limitações.

Passou a observar os pássaros, como agitavam suas asas, como se preparavam para o voo, como planavam no ilimitado. Treinou voos baixos, saltos pequenos de flores e arbustos. Aos poucos, foi aumentando seu limite. A cada nova conquista, ela sentia sua asinha quebrada se animar, como se pudesse transformar-se em uma asa virtual. Tímida, apontava o cotoco que pendia de seu lado esquerdo e fazia cócegas no vento.

Arriscou finalmente seu salto mais ambicioso, do galho de um limoeiro. Saiu aos atropelos, sôfrega, arfava contra o vento. Mas ali, negando a primazia do mais forte, conquistou seu primeiro voo de pássaro. Dormiu exausta no primeiro ninho que avistou.

No segundo dia, queria algo mais. Queria ser notada. Queria o apreço e respeito dos pássaros da região, queria ser ovacionada pelo seu povo. Quem sabe ser rainha das borboletas?

Lá, lá do alto de um abacateiro, depois de uma escalada tormentosa, abriu sua asa colorida e cumprimentou o vento com a maneta. Jogou-se nas profundezas. O vento era muito mais forte, ria-se dela, dizia para voltar, que a morte era certa. Ela respondia que não, que não desceria por nada. E o vento mais uma vez soprou, forçou um giro de cambalhotas na persistente borboleta. Avisou mais uma vez que aquele não era o seu caminho, que não nascera para aquilo. O vento engordou, formou uma catapulta que lançou a pobre para o cimo de uma montanha.

Desfalecida, com a asa boa quebrada, alcançara o topo, espaço quase celeste, conquistado por heróis e semideuses.



O conto integra o livro O Centauro Amarelo. Ribeirão Preto: Publicação artesanal, 2002.

*
Imagem: Franco D'Albao

2 comentários:

  1. Olá Carolina,

    Parece-me que o conto conjuga rara poeticidade e singeleza. Metáforas aparentemente simples e densas. Lançar-se: em busca de uma ascensão. Espiritual,burguesa, imaginária, literária (...)? Não seria esta a "nova velha" jornada do homem, a do Odisseu moderno?

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  2. Olá, Kalós. Bem-vindo de volta ao Benfazeja. Gostei muito de sua análise filosófica e aprofundada de meu singelo/simplório continho. Algo para pensar: "Lançar-se: em busca de uma ascensão. Espiritual,burguesa, imaginária, literária." Muito provavelmente esta seja a descrição fiel de minha tão nova velha jornada... Empresa heróica! Obrigada por sua contribuição. Abraços

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