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A Caixinha de Charutos



Conto, por Giselle Jacques.


Isso é ridículo! Eu estou aqui, trancado em meu próprio quarto, deitado na minha própria cama, e não me sinto bem. Que falta ela me faz...

Não! Não estou louco. Esperem, eu explico. Há semanas atrás, eu virava de lado, aqui mesmo nesta cama, e me sentia pleno, realizado. Aquele cabelo quase loiro espalhado pelo meu travesseiro, aquele corpo escultural, dourado, preenchendo todo o lado esquerdo do meu colchão, aquelas curvas estonteantes maravilhando meus olhos, aquelas mãos dançarinas nunca deixando meu pobre corpo em paz. E, agora, ela se foi.



Sei que foi mancada minha. Eu nunca devia ter tentado provar minha masculinidade a meus amigos. Ou os que se diziam amigos, pois bastou eu ficar sozinho e me abandonaram para se jogar aos pés dela.

O que eu fiz? Fiz uma grande besteira. Eu e meus antigos e caros amigos estávamos em um bar jogando conversa fora. Até aí, tudo bem. De repente, uma gata loiríssima (e muito gostosa) flutuou salão adentro. Perambulou um pouco, acendeu seu cigarro e se afastou. Ficamos deslumbrados. Éramos oito ao todo e cada um criou sua mais louca fantasia com aquela musa. Começamos um animado discurso sobre tudo o que faríamos se ela estivesse em nossas camas. Nada demais, todo homem faz isso. Até eu querer me exibir e aceitar a aposta de um dos meus companheiros. Ganharia uma caixa de charutos cubanos se a loura caísse na minha cantada.

Por que não? - pensei. Afinal, minha namorada estava fora da cidade, a trabalho. Na hora, nem me passou pela cabeça que eu odiava charutos. Fui até a mesa dela e o que eu disse não vem ao caso. E, diante de olhares estarrecidos dos meus amigos, saí com ela pela cintura e fui para casa.

Aqui mesmo, nesta cama, a loira despiu as poucas roupas que trazia sobre o corpo fascinante. Era bonita, não posso negar. E sedenta... Nem percebi quando arrancou meu terno e iniciou um voraz passeio por minha pele. Eu estava meio tonto por causa da cerveja e quase delirei naquele toque selvagem. Eram ondas de calor subindo e descendo. Quando não agüentei mais, derrubei-a sobre os lençóis e tomei-a com violência, estremecendo de prazer. Segurei-me ao máximo. Não queria desperdiçar um só segundo. E tínhamos a noite inteira.

Era o que eu pensava. Quando eu chegava ao clímax, enlouquecido pelos gemidos da musa em meus braços, a porta se abriu e ela, a minha namorada, entrou. Tinha os braços cheios de pacotes e um grande sorriso nos lábios. Os pacotes caíram e o sorriso sumiu. Pulei para o lado e puxei o lençol para encobrir a evidência do meu tesão. Ela olhava fixa e friamente em meus olhos e eu me encolhia cada vez mais. A loira vestiu-se às pressas e fugiu. Ela continuou a fitar-me, parada em frente à cama. Eu não conseguia mover um único músculo.

Ficamos assim durante um longo tempo, até que eu não mais pude sustentar o olhar da mulher que eu amava e baixei a cabeça em sinal de derrota. Ela voltou-me as costas e saiu. Eu quis correr atrás dela, pedir perdão, implorar que voltasse, mas não o fiz. Naquele instante, eu só queria chorar. De vergonha, de raiva e de pena de mim mesmo.

Ela nunca mais voltou. Soube que todos aqueles caras estão dando em cima dela. Agora estou triste, solitário e olhando essa maldita caixinha de charutos. Moral da história? Sei lá. Não se deixe levar por uma caixinha de charutos. Seus amigos vão fazer de tudo para roubar sua mulher.


*

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Créditos da imagem:
As veias de Cohiba, por Marcelo Seixas

2 comentários:

  1. Aquela história da carne fraca é a banalização dos sentimentos que chamam de amor, realmente. Sensacional o conto, Giselle! uM ABRAÇO. PAZ E BEM.

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  2. Obrigada, Cacá. Embora seja uma historia "recorrente", parece que alguns nunca se cançam de contá-la (e de encená-la), apenas trocando nomes e objetos. hehehe

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