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"Auto da Barca do Inferno", Gil Vicente

Artigo, por Rosane Tesch


Os Rabinos costumam afirmar que a vida na terra é apenas um “Rito de Passagem” do ser humano, e que o objetivo principal da existência é a preparação da alma para um mundo que seria muito superior ao nosso: o Celestial.



De certa forma essa não é uma crença exclusiva do Judaísmo, porém, há uma peculiaridade no meio judaico que aciona a curiosodade e o questionamento alheio. Apesar de os judeus atribuírem valor soberano à existência do mundo espiritual, eles não desdenham a vida (passagem) na terra, buscando sua realização também em outros campos.

As personagens que fazem parte do “Auto da Alma”, de Gil Vicente, não são, na verdade meros personagens nomeados, são representações de imagens, cenceitos, indagações acerca da existência humana, do bem e do mal. E é justamente por não serem nomeadas individualmente que têm esse caráter abrangente e generalizado sobre o mundo material e o mundo espiritual.

Curiosamente, as figuras do Anjo e do Diabo não intercedem junto à Alma com o intuito de impor suas condições, ao contrário, o que elas fazem é apresentar os “instrumentos” que levariam alguém (ser humano) a escolher entre uma e outra vida. No texto de Gil Vicente aparece uma espécie de colocação feita por dois juízes, ou advogados, que apresentam as provas para um outro juiz (Alma) decidir que caminho seguirá.

A Alma se apresenta como um jarro que é capaz de absorver todo o tipo de conhecimento mas que precisa aprender a selecioná-los, questioná-los e, até mesmo, recompor aquilo que julgar não ser digno de carregar pela vida.

O Anjo e o Diabo (em um segundo momento em que discutem a quase vitória sobre a possível persuasão da Alma) representantes da dicotomia bem x mal, terreno x espiritual, vida x morte, se aproveitam dessa dúvida humana acerca da existência para compor suas apresentações, mas é o Diabo quem levanta a maior questão: para que estar na terra cercado de possibilidades se não se puder aproveitar-se delas? Para tudo há hora.

Bem, para o Anjo todo o conhecimento e recompensa pela vida não está na aquisição de bens materiais, mas na aquisição de conhecimento e na elevação espiritual, a qual somente é possível alcançar tendo como intermediário, neste caso, uma “instituição”, a representação do universo celestial na terra.

Você deve estar se perguntando. E aí? Em que isso irá influenciar minha vida e minhas escolhas? Respondo: não sei. Gil Vicente é reconhecido como o maior dramaturgo português. O “Auto da Barca do Inferno” foi publicado em 1517, em folheto avulso, ou cordel. Seus personagens são “tipos sociais”. Seu teatro, popular, crítico, satírico, moralizante, poético. O que podemos é nos perguntar: por que ainda analisamos pessoas como tipos sociais em pleno século XXI? A literatura continua seguindo seu curso, a nova literatura, a literatura contemporânea, a literatura não para, e as Almas sedentas por poesia também não.


O “Auto da Barca do Inferno” para leitura: Arquivo 1 e arquivo 2

Um comentário:

  1. Puts, comentei no lugar errado. rs

    "Excelente esse texto Rosane! Respondendo a pergunta que se faz no ultimo parágrafo; Todo texto serve para a gente refletir, chefar a um tipo de conclusão e dependendo dela iluminar uma parte do caminho a frente dessa jornada the vida. Achei o texto bem claro e bem instigador a reflexões, sobretudo por que é bem inteligente. ^^"

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