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Anjos a Vapor

Foto de José de Almeida

Conto para a seção Fantásticos, por Ramon de Souza*



-A bebida está ao seu gosto, senhor Noah? - questionou Tom, erguendo sua cabeça do balcão. Noah sorveu seu café com prazer, sorrindo ao repousar a xícara na mesa.



-Senhor, não que seu café seja de todo o mal, mas não a agradar um paladar divino, - Noah disse. Todos os clientes do café Ten Balls olhavam atentamente a sua figura. Afinal, apenas a presença de um anjo faz toda a energia do recinto ficar agitada. Utilizava de uma pólo branquíssima como nunca vista em toda a Londres, e calças escuras.

-Entendo, o paladar de um anjo deve conhecer algo muito mais saboroso do que um café expresso. - Tom, o barman e dono do café, serviu mais uma xícara para Noah. O movimento deixou seu braço direito em evidência. Era uma prótese mecânica, aliás, do membro até o peitoral do velho homem fora trocados por maquinários.Ás vezes, Tom gostava de abrir seu peito e exibir seu coração mecânico, cheio de válvulas e fazendo um tic-tac perturbador. Sua mão rangeu com o derrubar do café. Seus dedos finos de metal dava uma impressão de que não deveriam segurar algo pesado. Eventualmente, escapava algumas fumaça dentre os canos que compõem os músculos.

-O Saint Johannes partirá amanhã. Irás mesmo, senhor Noah?

Noah refletiu um pouco, com a feição triste.

-Sim, - disse finalmente, virando seu segundo copo com agilidade. - A batalha estará lá, com certeza.

-Então "eles" e "vocês" escolheram essa era para batalhar novamente, senhor? De certo, os senhores aparecem quando a humanidade está mais corrompida. - Tom começou a limpar o balcão. - A Liza, decerto, sentirá sua falta, senhor.

Uma garota, em seus dezesseis anos, entrou pela loja e imediatamente correu para Noah.

-Falando no demônio... - Tom sorriu. A garota pulou com força no anjo.

-Senhor Noah, o senhor vai embora?! - já começava a chorar. Noah pareceu culpado. Sabia muito bem que a filha de Tom, Elizabeth, era apaixonada por ele. Sabia também a desfeita que fazia ao abandonar o moradia de Tom, que o abrigou desde sua "descida".

-Sim... Estarei abordo do Johannes amanhã de manhã. - disse finalmente. - Desculpe-me Liza, mas é preciso...

-Eu irei também!

Pai e anjo pareceram chocados.

-Eu não lhe disse, pai? Aceitei um emprego de garçonete no Johannes! Serei garçonete no maior e mais tecnológico dirigível já inventado!

-Liza... Isso não é... - Tom preparava-se para dar uma bronca, quando viu o sorriso de lado de Noah. Perdeu. - Tudo bem. Apenas não atrapalhe o serviço do senhor Noah, tudo bem?

A garota quase enforcou o anjo, de tamanho abraço.

*

Noah saia do Ten Balls. Chovia.

Sentia-se melancólico, como sempre sentia-se ao caminhar no mundo dos humanos. Não agüentava aquele cheiro; o odor de fumaça e carvão não saia de suas narinas, não importa aonde fosse. Será os carros? Ou os computadores? Talvez tenha pego da prótese de Tom. Noah não suportava a tecnologia humana.

Passava das dez da noite, e um barulho repentino assustou o anjo. Das sombras, uma esplendida mulher desfila em direção a Noah, ambos com um sorriso nostálgico.

Delphine, quanto tempo! - Noah abraçou o anjo feminino. Delphine realmente era bonita. Vestia um espartilho negro em conjunto com uma saia rendada, e tinha meia-calças totalmente trabalhadas. O único acessório incomum era a escopeta enorme que repousava em suas costas.

-E Irad? Não veio? - Noah questionou Delphine. - Não faz sentido se a "Liberdade" não estiver aqui.

-Ele virá amanhã, "Clemência". Não se afobe. - a voz de Delphi parecia de uma criança. Era fina e parecia que sempre queria chorar, parece que sua voz iria sumir do nada em um pequeno fio. Combinava com os traços angelicais do seu rosto, com os olhos incrivelmente azuis e o cabelo curto e ondulado.

-Eu sei. Mas agora, nossa missão ficou mais difícil - Os dois se soltaram e ficaram sérios. - Tenho uma pessoa conhecida que vai abordo.

-Noah, você sabe que não pode! Não podemos ter esses laços com os humanos! Você sabe muito bem como vai ter sangue por lá!

O anjo baixou a cabeça. Delphi se sentiu culpada.

-Perdoe-me, "Benevolência".

-Tudo bem. Vá a sua casa. Amanhã nós veremos isso. - pousou a mão no ombro do anjo. - Deus está no céu, está tudo bem com a Terra. Não vamos sofrer antecipado.

O anjo retornou quieto até sua moradia. Sim, amanhã seria difícil.

*

Sangue. Chamas. Gritos.

Várias pessoas clamavam por socorro. E havia seres alados, e seres com lanças. E as moradias humanas ficaram em destroços, assim como seus corpos.

E Noah não conseguia se mover. Devia ter mais de mil demônios ali, de todos os tipos. Mais, os guardas do inferno lutavam bravamente junto ao exército maldito. Noah pôde ouvir o brado de fúria e o suspiro de um dos maiores anjos...

Nasir o culpava, por manchar o legado da "Clemência"...

E, de repente, o campo de batalha se transformou em um quarto normal. Um computador de madeira, um armário antigo, e várias armas.

-Novamente, sonhei com a Rebelião...

Noah percebeu que foi tudo um sonho. E tornou a chorar, solitário.

*

Provavelmente, Londres inteira estava no campo de SithGar. O dirigível Saint Johannes era enorme, como todos os jornais haviam anunciado.

-Parece mais um torpedo, - Noah pensou em voz alta. Delphine ouviu.

-Bem, este fará o percurso de Londres até a Irlanda, e após uma breve estadia, retornará. - ela lia o guia dos passageiros.

Várias naves pequenas voavam em torno do veículo aéreo. A multidão gritava e soltava vários enfeites de papel. De fato, era lindo o Saint Johannes, incrivelmente extenso.

-Você não mudou nada, Noah. - um homem musculoso avançava em direção aos dois anjos. Irad, ao contrário de Noah, amava a tecnologia. Tinha um monóculo fixo em seu olho direito. Vestia regata marrom e calças folgadas da mesma cor. Sua enorme bagagem denunciava que este trouxe seu "laboratório portátil".

-Pronto para voar? - Delphine se animava.

-Só se for agora.

Minutos após, toda a tripulação já estava dentro do veículo.

-Senhor Noah! - gritou Elizabeth. Noah a recebeu com um sorriso, notando o uniforme de garçonete.

-Ora, Liza, você está linda. - disse-lhe verdadeiramente. Recebeu uma feição de desaprovação de Delphine. - Me desculpe, mas não posso conversar agora. Tenho que resolver uns assuntos. Delphine, você pode cuidar dela?

Delphine se assustou.

-É claro que não! Porque eu deveria?

-É só enquanto Irad e eu aprontamos algumas coisas. Não seja mesquinha. - Irad e Noah correram para seus quartos, que ficariam na área sul do gigante Saint Johannes. Delphine parecia não acreditar, enquanto Liza tremia com medo.

-Tudo bem, garotinha. Que tal irmos até o cassino? - Delphine tentava ser amável, mas ela não tinha jeito com crianças. Bem, Liza ainda tinha apenas quatorze anos.

-Bem... Acho que está tudo bem...

Tentando aproximação, Delphi segurou o braço da garota, como duas amigas andam em compras.

*

-Até que enfim, - disse Irad, quando sentiu uma movimentação em seus pés. Saint Johannes tinha começado e se mover. Ambos se seguraram em barras de ferro nas paredes do dirigível.

Caminhavam até a sala de comando. Estava quente no pequeno corredor que atravessava as caldeiras. Vapor saia aos montes em meio as engrenagens que giravam de modo muito rápido. O caminho era estreito e escuro; Noah seguia correndo na frente.

Bateram com força na porta de ferro, que abriu com um estrondo. Anjos confirmaram o que já esperavam.

O capitão, assim como toda a tripulação dos maquinários, estava morta. Três seres obscuros olhavam os corpos, se divertindo. Tinham a pele escura, uma cauda pontuda como de um escorpião. Enorme chifres precipitavam de suas cabeças. Presas eram visíveis.

-Demônios menores, - disse Irad. Retirou de seu bolso direito uma pistola, e deu um tiro rápido na sinagoga de um deles, estourando-a com uma chuva de sangue.

-Foram mais rápidos do que eu pensei, - Noah disse. - E o chefe não está aqui.

-Pretendem tomar esse Saint Johannes, matar todos os tripulantes, para mostrar sua existência... - Irad mexeu em seu monóculo, que fez um movimento para frente e para trás.

-Em nome do pai, do filho e do espírito santo... - rezou Noah, mostrando suas lindas asas de anjo, o que assustou os demônios.. - Em nome de Deus, a justiça para os maus!

De sua mão, apareceu uma enorme espada. Com um movimento rápido, cortou a garganta dos dois demônios, que caíram inertes.

*

-Ei moça... você é a namorada do senhor Noah?

Delphine engasgou com sua bebida. Olhou para os olhos de Elizabeth, e pôs seu copo na mesa do bar.

-Claro que não... Nós temos que ficar juntos pelas missões... - disse, ainda perturbada. Eliazabeth se tranqüilizou. - Ei Liza, você é uma garota esperta. Você sabe que o Noah é...

-Um anjo... - Liza suspirou de paixão. - eu descobri logo depois que ele começou a se hospedar lá em casa.

-Sim. Anjos não são iguais aos humanos. Eles não podem amar, Liza... - Delphine sentia-se triste ao dizer isso.

-Eu sei... Papai me disse isso.

Delphine começou a mexer no copo quase vazio.

-Noah, Irad e eu... Não somos anjos comuns. - disse finalmente. - Somos "principados"... Anjos da maior hierarquia dos anjos... Existem apenas oito iguais a nós. Cada um com sua alcunha. Eu sou a "Benevolência", e Noah é a "Clemência"...

Elizabeth prestava atenção. Parecia realmente interessada no assunto.

-Elizabeth, há alguns anos, houve uma guerra no mundo dos humanos. Foi chamada de Rebelião Negra, quando alguns anjos se rebelaram contra Deus... E os demônios se apossaram do mundo humano.

-Demônios? - a garota pareceu ter medo.

-Sim... Noah e eu lutamos nessa guerra... Foi horrível, pois o irmão do Noah morreu na batalha. Ele era a "Paz". Sem a paz, iniciou-se essa era que estamos vivendo hoje. Cheia de fumaça e ferro. E os demônios ainda estão aqui.

-O senhor Noah... Ele não ficou triste?

Delphi riu.

-Com certeza. O irmão dele culpou a fraqueza de Noah. Até hoje, aquele cara só pensa no trabalho... E mata para proteger as pessoas que lhe são queridas. - Delphi acariciou e cabeça de Liza. - Como você, Liza.

-Senhor Noah vai me proteger, então!

-Sim, com certeza!

Ambas riram como se fosse amigas há séculos. Um cavalheiro se aproximou, mancando em uma bengala, e sentou ao lado de Elizabeth. Tinha um copo na mão.

-Senhorita, aceita uma bebida? - disse, empurrando o copo para o rosto da garota.

Delphine, só então, sentiu o hálito daquela criatura.

Sangue. Não deu tempo para gritar.

-Elizabeth, não!

Uma lâmina surgiu dentre o líquido escuro do copo. Aquilo perfurou o rosto de Elizabeth em uma cascata de sangue. A garota caiu morta no chão, com um buraco em sua cabeça.

Delphine pareceu não acreditar em seus olhos.

-MALDITO!!! - sacou sua escopeta e atirou várias vezes sobre o homem. Caiu morto também, agora em sua forma de demônio. Delphi chorava sobre o corpo da garota.

A porta do cassino foi arrombada por Noah e Irad, já com suas armas preparaas. Clemência, ao ver o corpo de Liza, desesperou-se na hora. Correu até Delphine, que chorava agachada junto ao corpo que jazia imóvel.

As palavras entram na mente de Noah.

*

VOCÊ MANCHA O NOME DA CLEMÊNCIA.

-Aconteceu de novo... Eu não pude salvar novamente... - Noah soluçava. Irad sacava suas armas.

-Noah! Não é hora para isso! Fomos lentos demais!

Todos os "humanos" do cassino já se transformavam em demônios. Irad tinha razão. Eles foram muito lentos. Não havia mais vida humana no Saint Johannes. Ele havia avançado apenas poucos quilômetros desde a partida.

-Eu... Sou fraco... - Noah chorava alto junto a Delphine. Irad descarregava suas pistolas nos inimigos, criando um banho de sangue.

-Noah... Você não teve culpa... Fui eu que não notei... - Delphie tentava consolar o anjo.

-Eu não vou perder mais ninguém... Não mais, Delphine.

Retirou suas asas novamente. Arrancou uma pena grande e fixou seus olhos nela.

-Você não vai fazer isso, Noah... É proibido por lei divina... - Delphine entendeu rapidamente o objetivo de Noah.

-Eu não ligo. Eu não vou perder mais ninguém. Irei transformar Elizabeth em um anjo. - colocou a pena sobre os lábios sujos de sangue da garota.

-Noah, temos que sair daqui rápido! Eu não dou conta! - os demônios avançavam sobre Irad. O piso de madeira estava tingido de sangue e coberto por corpos.

-Você pode ser executado! Maldição, porque você nunca me ouve, Noah?!

-Delphine, crie uma abertura para sairmos.

O anjo feminino pareceu estressada.

-Tudo bem! Mas não tive nada a ver com isso! - retirou sua escopeta e apontou para o teto. - Ignature, fogo santo! Mostre seu poder!

-Um feixe de luz vermelha saiu da arma, e criou um enorme buraco no teto. Era possível ver outros andares pelo buraco, e até mesmo o céu. Noah colocou sua mão na boca de Elizabeth, conjurando algum feitiço. Segundos depois, a garota começava a respirar novamente.

-Liza... Pode me ouvir? - o ferimento da garota já se fechava. Seus olhos ficaram entreabertos.

-Senhor Noah... O senhor...

Poupe suas forças. Consegue sentir algo em suas costas?

A garota passou os dedos desde seus ombros até a cintura.

-Tem algo estranho...

-São suas asas, Liza. Eu te transformei em um anjo.

Ela ficou perplexa.

-Eu... Sou como o senhor? Eu revivi... Por causa disso?

-Falamos disso depois. Consegue voar?

-Voar? - Liza ficou confusa. - eu não sei fazer isso.

-Sabe, sim. Respire, relaxe... Sinta o vento batendo em suas asas... Sinta a liberdade.

Liza pensou por um momento. Fechou os olhos, e gemeu de dor quando suas abras abriram pela primeira vez.

-Isso! É isso, muito bem! - Noah agiu como um pai, orgulhoso de sua filha. - Agora, voa, vamos! Faça igual a mim!

Noah começou a planar baixo. Por incrível que podia parecer para os anjos, Liza conseguia imitar os movimentos com maestria. Delphine imitou, pronta para sair dali.

-Vamos, Irad. Essa coisa vai cair!

Irad revelou suas asas também. Tirou uma granada de seu bolso, e retirou o pino quando começou a voar.

-Tomem isso, malditos! - gritou antes de arremessar o artefato na hora de demônios.

Os quatro anjos voaram para fora do dirigível em uma velocidade incrível.

Do lado de fora, pararam em linha, o observaram o maior feito tecnológico da humanidade se esvair em chamas, enquanto caia em direção as montanhas.

-Dessa vez... Perdemos. Muitos humanos foram mortos. - Delphine ainda estava inconsolável.

-Sim... - confirmou Noah. - E agora temos mais um problema.

Todos olharam para Elizabeth.

-Eu.. Vou ter que lutar também? - ela parecia, ao mesmo tempo que assustada, excitada com a possibilidade.

-É óbvio que não! - Delphine exclamou. - É contra as regras transformar humanos em anjos! O que passava na sua cabeça, Noah?

-Eu não ia perder mais uma pessoa querida! - Noah cerrou os punhos. - Se o mundo está cheio de demônios, é culpa dos anjos pela Rebelião Negra. E nós temos que salvar cada vida por isso.

-Eu quero ajudar, - disse Liza, de modo a chocar todas.

-Eu acho que você é nova... - Irad foi interrompido.

-Eu sei. Eu sou inútil, mas eu não quero que mais pessoas morram... Além disso... Eu não posso ficar em débito desse valor com o senhor Noah.

-Eu não aprovo isso! - Delphine exclamou. - Você será executada se a ordem divina ficar sabendo disso!

-Tenha calma, Delphine. - Irad a tranqüilizou. - Elizabeth, caçar demônios é um trabalho difícil. . Você pode muito bem morrer no caminho. Você tem certeza?

-Tenho! - disse com convicção. - Além disso, o senhor Noah estará comigo, não é?

-Sim! - Noah novamente parecia com um pai. Abraçou Liza com força, enquanto Delphine balançava a cabeça.

-Eu não tenho nada a ver com isso. Todos viram como eu fui contra.

-Como assim? Somos uma equipe, certo? Você já é cúmplice. - Irad tirou sarro de sua companheira. - Então, vamos?!

-Para aonde? - perguntou Liza.

-Oras... Para sua nova casa. O paraíso!

Todos sorriam. E os quatro anjos subiram para o além das nuvens.

Não importa quantos demônios existam. Sempre terá anjos prontos para proteger a humanidade, e consertar sua própria falha.

Aqueles anjos não descansarão nunca. Pois a batalha entre o bem e o mal é eterna. Essa foi apenas mais uma batalha de milhares.

Porém... Deus está no céu. Está tudo bem com a Terra.


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Biografia:
Ramon de Souza, pseudônimo RA(in), tem atualmente 16 anos, é apaixonado pela literatura fantástica (principalmente cyberpunk e steampunk), amante da cultura japonesa e cursa Técnico em Comunicação Visual. Adora escrever poesias e contos de ficção.

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