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A Espada e o Sol


Imagem de João Chaves



Conto para a seção Fantásticos, por Eric Musashi.*



“E cá estou eu, à beira da morte, no ocaso de meu tempo no mundo, e tão pacífico”, pensou Anágni, que há tanto tempo era chamado assim que já nem se lembrava de seu nome de nascença. “De certo modo, é um belo lugar para morrer”, concluiu, com um sorriso. O “Senhor da Guerra” olhou ao redor, além da refrescante sombra do teto alto daquele espaço cercado de colunas, sem paredes. Ele preferia a denominação oficial, embora seus homens o chamassem de béli, como começavam a ser conhecidos os generalíssimos que tinham autoridade do Rei em suas missões. O verde tomava conta da paisagem, num contraste sublime com o amarelo sem fim das areias além do oásis, e o azul radiante do céu.



Ele não se levantaria para mais uma volta, para mais um passeio descalço na parte rasa da água do oásis. Não gastaria seu fôlego inutilmente, pois sabia que vinham em seu encalço. “Meus algozes devem chegar a qualquer momento”, deu-se conta, e por um instante cogitou lamentar pelo que deixara de viver. Alguma mulher que não possuíra, mas desejara, ou um feito que lhe restara executar. “Não”, sorriu, sentindo o lábio inferior rachar naquele tempo seco; “não tenho lamentações.”

Então a mente, que era sua faculdade mais potente naquele estágio de sua vida, começou a viajar, passando pelo passado, em poesia e palidez, no contraste que sempre o acompanhara. “Os momentos opacos, eu deixo para o Rei”, divertiu-se, e se permitiu um riso monossilábico e breve. “E que os jatitanos possam se lembrar, no Nascente e em Turaquéia, de quem eu fui”, desejou, como a criança mimada que quer um brinquedo a todo custo. Ele levantou a espada de bronze que tinha a forma de uma folha esticada, quase como um espelho, num pequeno esforço, e viu seu reflexo, o rosto caído, papadas, a pele marcada, e a barba e o bigode brancos. Mas ainda assim não perdia sua majestade: “Eu exigi isso deles, e os rapazes me fizeram digno para a morte”, animou-se, virando a cabeça e vendo tranças finas que seguravam-lhe as madeixas, e baixando a espada e admirando a couraça musculosa, que um dia fora reflexo fiel de seu físico.

Anágni se lembrou, então, de quando era um general menor em Jatitã, que passara a vida longe de grandes batalhas, mas sempre despertado à noite por visões proféticas e com sorte para vivenciar bizarrices. “Quanta coisa não vislumbrei?” admirou-se. E era impossível não se espantar toda vez que organizava suas memórias. Só de profecias, podia escrever tantas tabuletas que encheriam as prateleiras de uma sala. Algumas delas adornavam as paredes de Melcártis, eventos que ele nem sabia quando ocorreriam, mas que agora tinha certeza de que aconteceriam no tempo.

– Ah, amada Melcártis – murmurou, com a voz rouca e fraca.

Levantara uma pequena cópia de Jatitã no alto da colina ao fim de sua campanha impecável, já aos cinqüenta anos, de pacificação do Nascente rebelde. Derrotara, um a um, os generais que ousavam desafiar o Rei Namairte, e deixara em cada canto elevado o estandarte tricolor de Jatitã. Melcártis não era só uma homenagem ao monarca mais poderoso do mundo, mas também uma resposta de Anágni ao desafio – ele conseguira levar a lei real até o outro lado do Nascente! A cidade lhe significava muito, e foi com pesar que a abandonou rumo ao deserto.

Sua reflexão foi interrompida pelo grasnado de abutres – um horrível presságio. Ao invés de lamentar – não, não era dia para isso! –, ele pensou: “Felizes são as aves, para as quais as barreiras do relevo nada são. Se eu pudesse, fundaria um reino longe do alcance de Namairte, o fortaleceria, e voltaria para me vingar.” Logo após sentir o sabor amargo do desejo de vingança, ele se divertiu com a própria tolice; Jatitã era impossível de tomar, e o poder do Império era incalculável. Anágni duvidava que um dia algum povo pudesse destruir a Cidade dos Titãs.

Mas seus feitos, que ele deveria rememorar neste dia, em especial, não se resumiam às conquistas como general. De lunático e sonhador, como falavam dele os que ouviam sobre sua fé nos relatos de Anjifum e Turaquê, com suas armas incrustadas de cristais, seus oponentes só puderam arregalar os olhos ao terem seus escudos e espadas destruídos, ainda que fossem feitos pelo mesmo bronze. Era um fulgurar repentino na lâmina, como que refletisse um sol azulado, e a morte lhes vinha. Tanto que um apelido de Anágni no Nascente foi Morte Azul.

O auge, quando nenhum de seus oficiais quis acompanhá-lo – e estavam entre os mais bravos jatitanos –, se deu nas Montanhas Brancas, ao boreal do Mar Amulcum. Só ele teve coragem de subir até o fim e enfrentar o dragão que seguia destruindo as vilas dos mineradores de oricalco, o metal tão valioso que o deixara mais rico que o próprio Rei. “Ah, eu sinto a ansiedade como se fosse hoje, como se o dragão estivesse logo ali, pronto para vir me abocanhar”, divertiu-se, e, distraído, derrubou a espada no chão.

A lâmina de bronze tilintou bastante até parar, entre suas pernas. Foi muito difícil para ele se curvar no trono de mármore verde raiado e recuperá-la. Ao fim, ofegava, e então se voltou para frente, para a água cristalina do oásis, a grama, as figueiras e a areia além, até o infinito, unindo-se ao céu azul. E foi lá que divisou, por mais que os olhos já o traíssem, sete pontos negros. “Eu tenho razão em temer, pois o dragão está aí, como naquele dia”, deu-se conta, começando a preparar o espírito.

Conforme as bigas chegavam, ele revia aquele dia, tão vívido na memória. O céu era todo nublado, escuro como o chumbo, clareando-se em relâmpagos ocasionais. O caminho ao longo da montanha rochosa era feito por ele com calma, para não se cansar antes da hora. E quando olhou lá embaixo, vendo as tendas como pequenos pontos coloridos, e depois para cima, parecendo que podia tocar o céu, deu-se conta do tamanho de seu feito, e soube por que Turaquê era idolatrado. “Mas pretendo fazer o que nem ele fez”, pensara naquele dia.

E de novo agora, voltando à realidade e vendo os perseguidores freando seus pares de cavalinhos malhados, também soube que tinha diante de si um desafio jamais ideado pelo maior dos reis ou qualquer outro. Eles todos tinham couraças bem justas no tronco, que se mostraram tão logo se desfizeram das capas encardidas com capuz. Eram seis anilos e um tuata, ou talvez meio-tuata – o fato era que tinha cabelos brancos em sua juventude, e físico esguio. “Eles vieram preparados”, pensou, sentindo-se satisfeito. “Temem um velho a poucos passos da pira funerária... sinal de que cumpri meu papel na terra.”

Seus passos eram tudo o que Anágni podia ouvir. E, ao que eles pararam bem perto, só havia o som do vento distante moldando as dunas. O velho Senhor da Guerra levantou os olhos, e só via cinco dos perseguidores – quatro anilos, e o tuata ao longe, à esquerda. Os outros dois o tinham circundado e estavam às suas costas.

– Eu jurei ao Rei que o encontraria... mmm... como o chamam? Ah, sim... Morte Azul – falou com desdém um dos anilos, cheio de si, e os outros, à exceção do tuata, gargalharam. Este, oriundo da raça mística dada a acessos de vidência e clarividência, mantinha-se receoso.

– Pelo modo... <cof, cof> – tossiu Anágni – ...que se divertem, nem parece que são sete dos melhores soldados atrás de um ancião.

– Ora, ele caçoa de nós! – exclamou um dos que estavam atrás.

– Viemos em sete para confrontar setenta soldados seus, dos que ainda se mantêm fiéis a você – explicou o líder, avançando e ficando bem próximo. E Anágni vislumbrou o dragão saindo da sombra e o encarando. – Ou melhor, se mantinham fiéis, não? Parece que todos o abandonaram, Morte Azul. E talvez deva evitar seu sofrimento e revelar onde escondeu o tesouro do Rei.

Anágni olhou ao redor e suspirou. Os anilos criam ver um homem resignado, cansado de lutar. Ficaria tudo mais fácil para eles.

– Que eu saiba, não peguei nada de dentro do castelo – replicou o Senhor da Guerra, tossindo em seguida. Ele aumentou a pressão no cabo da espada, e naquele momento se perguntou se contariam em Jatitã aquele episódio funesto que só escarnecia da imagem do Rei. “Claro que não”, respondeu-se rapidamente; “é melhor para eles espalharem que desapareci, ou mesmo fugi, a falarem que me pegaram, e não o tesouro. Que os tapeei.”

– A escolha é sua, velho béli – deu de ombros o líder. – Se não quer se entregar, então a tortura soltará sua língua.

“Ah, também há essa opção”, pensou, como se estivesse se dando conta só agora – na verdade, ele sabia desde o início que quereriam levá-lo, humilhá-lo na capital, torturá-lo e expor seus membros como uma advertência, privando-o inclusive da pira sagrada. Deixa-lo-iam apodrecer, ou se tornar comida de abutres.

Como não houve resposta, o líder imaginou que seria daquele jeito:

– Amarrem ele – ordenou aos dois de trás.

Quando se aproximaram, mostrando uma agilidade inesperada para um velho, mesmo que jatitano, e, por isso, longevo, Anágni pulou de pé e deu meia-volta, golpeando num desleixado semicírculo com a espada. Com os reflexos apurados de dois jovens que eram, os rapazes saíram da linha de alcance com pequenos saltos.

Ao fim, Anágni os encarou, e por algum motivo eles o temeram.

– Há! – riu o líder –; o velho que nos dar alguma diversão. Nada mais justo, depois de tantos dias no deserto atrás dele. O que estão esperando? – indagou, ante a hesitação dos dois companheiros. – Desde que não o firam de morte, tudo é permitido. Que tal arrancarem os dedos do famoso Morte Azul?

Anágni, longe de sentir medo, tornou a se lembrar do dragão, enorme e de cheiro exótico, olhando-o de forma tão ameaçadora – e também desafiadora. “Eu estou pronto, seja para vencer ou para morrer... ou para ambos!”

O trono estava no caminho, e displicentemente o Senhor da Guerra dava as costas para os outros cinco oponentes, pois já sabia que de fato não o queriam morto. E os anilos, que deviam ser treinados para lutarem juntos, sacaram manguais, que tinham pequenas foices nas pontas. Ao mesmo tempo, começaram a agitar os braços, e as foices giravam no ar, no barulho característico das correntes. Anágni afastou os pés e se colocou de lado, com a mão direita, da espada, adiantada.

– E não é que ele ainda se lembra de alguma coisa! – achou graça o líder.

Um dos rapazes – Anágni não teve certeza de qual – expirou sonoramente, como um sinal, e ambos atacaram. Num único movimento, o Senhor da Guerra golpeou lateralmente, como preferia brandir sua espada, e o sol, que descia no horizonte, incidiu diretamente sobre todos eles. Devia ser aquilo, pois a lâmina de bronze chamuscou. As garras do dragão vieram ameaçadoras, ao mesmo tempo em que um relâmpago iluminou os céus.

Ao fim, o réptil gigante emitiu um grito estranho de dor, e recuou. Um dos rapazes tinha somente o cabo do mangual na mão; o outro não teve a mesma sorte. Ele caiu sentado, gritando como o dragão naquele dia, e segurava o punho ensangüentado. Devia ter perdido dois ou mais dedos.

– Seus desleixados! – impacientou-se o líder pela primeira vez. – Agora chega de jogos, velhote.

Anágni se voltou para ele, com a espada manchada de sangue.

– Quer ajuda, Turáxio? – ofereceu o tuata, preparando uma flecha.

– Não me ofenda, fracote!

– Acho melhor aceitar – sorriu Anágni, mostrando os dentes amarelados.

E o dragão veio de novo, agora enfurecido pela ferida que lhe foi infligida. Com a outra pata, atacou, e o jovem Anágni simplesmente recuou, saindo de seu raio de ação e batendo as costas numa pedra. Mas o choque evitou que ele caísse, e sua espadada penetrou, atravessando a pata.

Após suspirar, Anágni viu o líder encarando-o com olhos vidrados. Um filete de sangue escorreu de sua boca, e sua mão soltou a espada no chão. Num esforço tremendo, que talvez lhe custasse todo o fôlego, o Senhor da Guerra girou, empurrando o condenado em cima do usuário de mangual que estava perplexo atrás dele, com o qual se chocara. Caíram ambos no chão.

Anágni, mais confiante, se soltou, embora ofegasse. De súbito, os três anilos em combate sacaram suas espadas, e rapidamente o cercaram. Estavam prontos para atacarem todos juntos. E foi aí que o velho béli se lembrou de uma visão que tivera, de um homem no futuro, não muito longe dali, enfrentando três outros quase tão bons quanto ele, todos controlando aquele poder estranho num nível jamais vislumbrando pelo próprio Anágni. O merecedor da melhor espada do mundo, a ser forjada com base em sua Tanadraco, agora em suas mãos.

Por sorte, o dragão estava ferido e sem confiança. Por sorte, eram três bons soldados anilos, mas que nem se comparavam ao que estava por vir, dali a mil ou dois mil anos. E Anágni, a exemplo do guerreiro de seu sonho profético, se atirou contra um deles, ignorando os demais. Bateu espada contra espada, mas os cristais na sua foram decisivos, e ela fulgurou, destruindo a lâmina inimiga. O velho retornou o movimento, rasgando o ventre do inimigo. Ao fim, novamente deu meia-volta, e atirou-o contra os demais.

O dragão agora perdera uma pata, e se preparava para voar, para fugir. Era hora do golpe final.

Anágni avançou para perfurá-lo e vencê-lo, o primeiro a um dia derrotar um dragão. Um raio caiu num cume distante quando sua espada se incendiou, e ele venceu a fera. Foi aí, também, que preparou o golpe para cortar ao meio os três que se embolavam no chão. O Anágni jovem e ligeiro conseguira; o outro, velho, vacilara, e tivera uma vertigem. Ao se recuperar para atacar, sentiu uma agulhada nas costas. Era o dragão, que o perfurara com a garra?

Ele se voltou, e viu o tuata com o arco, mas sem a flecha. O rapaz, mesmo tendo o ferido de morte, tremia bastante.

– Obrigado – balbuciou o velho, antes de cair de joelhos. – É a sua vingança... – falou para o dragão. – Sua justa e merecida... vingança!

E ele soube que o tesouro, a fortuna que o Rei desejava, jamais estaria em suas mãos. Quem poderia achar Purarã, no meio do deserto? Seus subordinados eram fiéis, e o segredo permaneceria, em sua honra. Em honra de lunático que revivera o poder dos cristais e lograra matar um dragão. Em honra do temido Morte Azul. Em honra de Anágni.

Mapa da terra fictícia onde se passa a história

*Nascido em Campo Grande-MS em 10-10-1985, Eric Musashi é autor e pesquisador, atualmente concluindo a sua graduação em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. É autor da duologia Os Herdeiros dos Titãs, que teve a sua primeira parte, "de lutas e ideais", lançada em 2011 pela Editora Giostri. É nesse universo que se passa o conto "A Espada e o Sol", mais de dois milênios antes dos acontecimentos dos livros, na origem do mistério sobre o domínio do poder dos cristais.


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