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Frêmito (o duplo da morte no amor)



Conto, por Carolina Bernardes.


A Artur da Távola



Permaneceu assim por algum tempo. Se silêncio, se ninar. Sabia que ele dormia, já não mais carecia do leve balançar. O corpo tomava vida maior, não podia controlar. Pra lá e pra cá. Lá e cá. Cá e lá. Calar. Não podia controlar.



A colcha de retalhos estendida sobre a cama esparramava pelo chão. Na semi-escuridão do quarto, os quadradinhos coloridos, atados, perdiam seu deslumbre e meio a meio ficou inteiro. Vermelho, amarelo, azul, rosa, tudo preto e branco. Ora preto, ora branco, cá e lá, lá e cá.

O vento soprou pela janela. Não mais o leve balançar. Com o bebê no colo correu a fechá-la. O quarto ficou gélido. A presença daquele frio repentino a deixou sobressaltada. Do bebê vinha a cálida respiração. E o frio, intenso, perspicaz. Colou o bebê ao peito, mas seu corpo já não queria falar. Ou ninar. Apanhou a colcha preta e jogou-a sobre os ombros. Os ossos começaram a doer, os dentes a bater. Aproximou-se da janela para ver se, com tamanho frio, neve haveria. O chão estava seco. As folhas das árvores paradas. Parecia calmo. Retornou a abrir a janela, o vento forte voltou a entrar, empurrando-a, tocando-a, acariciando. Lambeu, percorreu seu corpo todo, perscrutou suas entranhas e afastou-se lentamente. Pé ante pé, deixou o quarto.

Sem nenhuma calma, porém, chegou o calor. O quarto parecia incandescer. Ela atirou veemente a colcha no chão, sentindo o estupor daquelas ondas que subiam por seu corpo. Sentiu-se comprimir, embotar-se. Olhou uma vez o bebê, dormia. Lá fora, o ar continuava parado, inocente ao clima interno que se instaurava no quarto.

O calor a estrangulava, oprimia o coração. Queria arrancar aquela mão de seu pescoço. Sem forças e sem condições de lutar, deixou-se tragar pelo gigante. E então ouviu... vozes distantes e destoantes. O gigante tornou-se manso, delicado e amoroso. As palavras vieram toantes, emaranhadas no suspiro profundo, na lágrima contida e não contida. Sentiu uma dor enorme crescer, porque todas as vozes falavam de amor, de um amor transfigurado pelo sofrimento. Não podia discernir as palavras, mas reconheceu as vozes. Sua mãe, sua avó, sua tia, a tia de sua tia, e tantas e tantas outras mulheres que não teve idade para conhecer, mas que um dia estiveram no mundo e aceitaram a invasão e a presença de um certo amor. Ela conhecia aquela dor que a fazia olhar para um outro. As vozes vinham de mundos distantes, amparadas pela sua própria dor. Elas precisavam falar, precisavam desbotar as cores fortes do amor, precisavam fugir do inferno egoísta.

Ela sentiu toda a angústia de seus antepassados, que entravam pela janela para salvá-la. Dançar, tocar, enrodilhar-se em braços alheios. Seus dedos, suas mãos e até seus pés não se misturam a outros dedos e mãos e pés. A boca que lhe fala e que a elogia não pode falar e elogiar amanhã. Porque seus dedos e os dele crescem e diminuem, suas mãos e as dele ficam calejadas ou suaves, seus pés e os dele tornam-se mais rápidos ou mais lentos. E as bocas já não podem mais se unir, porque a beleza do grande encontro está em sua brevidade. Já não é mais possível falar no amor, a sua voracidade apenas se aquietaria com múltiplas brevidades, com o encantar-se com cada rosto visto na rua. Não toque mais as minhas mãos e meus pés, porque já não o amo.

Controladas, as vozes esconderam-se. A mão carinhosa do gigante afrouxou por completo e foi afastada de seu pescoço. Nem frio nem calor. Olhou mais uma vez o bebê, e essa foi a primeira vez. Ele estava de olhos abertos e a olhava. Sentiu seu corpinho gelado. Agasalhou-o melhor e veio o terror. Em seus braços ela segurava a si mesma, o bebê que fora outrora. O bebê que sorria e que era ela mesma. Ela mesma. Ela mesma. Gelado. Gelada. Estariam a morrer? Não me toque, breve amor, porque já não o amo, porque já me amo. Cá e lá.

*

O conto integra a obra O Centauro Amarelo. Ribeirão Preto: edição artesanal, 2003.

Um comentário:

  1. que frêmito! que estilo a fluir por todas as direções!!

    estou deveras encantando com teu talento e capacidade

    belos como pássaros

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