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Hoje eu acordei antes de mim!



Crônica, pelo autor convidado Marcelo Souza..



Tem dias em que você acorda antes de você mesmo, e fica ali se olhando como um pai olha um filho como se visse uma fotografia muito antiga, reconhecendo a própria figura num ser estranho que ficou petrificado no papel. Um inspira, outro expira. Um se vai, outro se esvai.



O que dorme é sempre mais bonito, mais simples, mais feliz, enquanto este que segue acordado apenas contempla, muitas vezes com inveja, outras com ciúmes. De olhos bem abertos vemos o tempo correr veloz, sentimos o tempo fluindo como um rio de águas turvas dentro das nossas veias.

Algo nos corrói, nos come pelas beiradas, devagar e sem pressa, mas só pra nos enganar. De repente você acorda antes de você mesmo e vê que deixou na cama um menino, e fica com medo de acordá-lo e interromper a beleza daquele sono. Com o que sonha esse menino? Que vida ele vive nas altas nuvens que o carregam para tão longe deste que olha e não crê?

Como pais e filhos em uma fotografia, estranhamente nossas cores se distanciam. Uns ficam mais escuros, outros mais claros, uns perdem os cabelos, outros ganham pelos onde não suspeitavam. Uns enrijecem, outros esmorecem. Uns correm, outros claudicam, uns engatinham, outros reivindicam. E nunca se sabe qual dessas realidades é a mais certa ou a mais desejável. Acho que elas se misturam em diferentes tempos, e nós só percebemos as diferenças quando, de repente, no meio da noite, um acorda sobressaltado e encontra a si mesmo ainda dormindo ao seu lado.

A foto está lá. Estamos amarelando, descascando, as tintas que os olhos pintam de dentro pra fora começam a secar, a rarear, nos obrigando a cada dia usar aqueles tubos ainda não gastos, as tintas que menos gostávamos de usar vão se transformando em nossa matéria comum do dia-a-dia.

O tempo olha as horas, as horas olham os minutos, e todos se perdem num eterno olhar e não ver. Assim, nesses dias em que acordo antes de mim, evito contemplar aquele que ficou na cama, sorrindo, sonhando. Visto paletó e gravata e vou encarar a vida, sangrando.

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Créditos da imagem:
em cama de luz, por Sónia Cristina Carvalho

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