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O Mito Individual do Neurótico ou Poesia e verdade na neurose

Jacques Lacan


Vou lhes falar de um assunto que devo qualificar de novo e que, como tal, é difícil.

A dificuldade dessa exposição não lhe é tão intrínseca. Deve-se ao fato de ela tratar de algo novo de que pude me aperceber tanto por minha experiência analítica quanto pela tentativa que faço, ao longo de um ensino chamado seminário, de aprofundar a realidade fundamental da análise. Extrair essa parte original para fora desse ensino e dessa experiência, para fazer vocês sentirem seu alcance, comporta difi culdades muito específicas na exposição.



Por isso é que lhes peço desde já indulgência, caso surja alguma dificuldade na compreensão ao menos num primeiro momento daquilo de que se trata.

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A psicanálise, devo lembrar a título de preâmbulo, é uma disciplina que no conjunto das ciências se apresenta a nós com uma posição realmente particular. Costumam dizer que ela não é uma ciência propriamente dita, o que parece implicar por contraste que ela é simplesmente uma arte. É um erro, se por isso entendermos que ela é tão-somente uma técnica, um método operacional, um conjunto de receitas. Mas não é um erro se empregarmos essa palavra, “arte”, no sentido em que era empregada na Idade Média quando se falava das artes liberais – vocês conhecem a série que vai da astronomia à dialética, passando pela aritmética, a geometria, a música e a gramática.

É-nos certamente difícil apreender hoje, dessas artes ditas liberais, a função e o alcance na vida e no pensamento dos mestres medievais. No entanto, é certo que o que as caracteriza e as distingue das ciências que delas teriam se originado é que conservam em primeiro plano o que se pode chamar uma relação fundamental com a medida do homem. Pois bem, a psicanálise talvez seja atualmente a única disciplina comparável a essas artes liberais, pelo que preserva dessa relação de medida do homem consigo mesmo – relação interna, fechada sobre si mesma, inesgotável, cíclica, que o uso da fala comporta por excelência.

É justamente por isso que a experiência analítica decididamente não é objetivável. Comporta sempre no seio de si mesma a emergência de uma verdade que não pode ser dita, porque o que a constitui é a fala e seria preciso, de certo modo, peito dessas formações que constatamos na vivência dos sujeitos que tomamos em análise, os sujeitos neuróticos por exemplo, e que são conhecidas por todos aqueles para quem a experiência
analítica não é de todo estranha. Essas formações obrigam a introduzir no mito edipiano, na medida em que ele está no cerne da experiência analítica, certas modificações estruturais correlativas aos nossos próprios progressos na compreensão da experiência analítica. É o que nos permite entender, num segundo plano, que a teoria analítica está toda ela baseada no conflito fundamental que, por intermédio da rivalidade com o pai, liga o sujeito a um valor simbólico essencial – mas isso, como verão, sempre em função de uma certa degradação concreta, talvez ligada a circunstâncias sociais específicas, da fi gura do pai. A própria experiência se estende entre essa imagem do pai, sempre degradada, e uma imagem cuja importância nossa prática nos possibilita reconhecer cada vez melhor, além de medir suas incidências no próprio analista, uma vez que, sob uma forma certamente velada e quase renegada pela teoria analítica, ele ocupa, de modo quase clandestino, na relação simbólica com o sujeito, a posição desse personagem muito apagado pelo declínio de nossa história que é o do mestre – do mestre moral, do mestre que institui na dimensão das relações humanas fundamentais aquele que está na ignorância, e que lhe proporciona o que se pode chamar de acesso à consciência, até mesmo à sabedoria, na aquisição da condição humana.

Se nos fiarmos na defi nição do mito como certa representação objetivada de um epos ou de uma gesta que exprime de maneira imaginária as relações fundamentais características de certo modo de ser humano numa determinada época, se o entendermos como a manifestação social latente ou patente, virtual ou realizada, plena ou esvaziada de seu sentido, desse modo do ser, então é certo que poderemos encontrar sua função na vivência mesma de um neurótico. De fato, a experiência nos fornece todo tipo de manifestações conformes com esse esquema, as quais, pode-se dizer, são estritamente falando mitos, o que vou lhes mostrar por meio de um exemplo que acredito ser dos mais familiares na memória de todos aqueles dentre vocês que se interessam por essas questões e que tirei de uma das grandes observações de Freud.

Essas observações são periodicamente objeto de um interesse renovado no ensino, o que não impediu um de nossos eminentes colegas de manifestar recentemente a seu respeito – ouvi-o de sua própria boca – uma espécie de desprezo. A técnica, dizia ele, é nelas tão inepta quanto arcaica. Isso quem sabe se sustenta se pensarmos nos progressos que fi zemos ao tomar consciência da relação intersubjetiva e só interpretar através das relações que se estabelecem entre o sujeito e nós na atualidade das sessões. Mas será que meu interlocutor deveria levar as coisas até o ponto de dizer que os casos de Freud eram mal escolhidos? Pode-se decerto dizer que estão todos incompletos, que para muitos são psicanálises que pararam no meio do caminho, pedaços de análise. Porém, justamente isso deveria nos incitar a refl etir e a nos perguntar por que Freud fez tal escolha. Isso, bem entendido, se confi armos em Freud. E é preciso confiar nele.

Não basta dizer, como prosseguia aquele que emitia as afi rmações que lhes relatei, que isso certamente tem pelo menos o caráter estimulante de nos mostrar que basta um grãozinho de verdade em algum lugar para que ele transpareça e surja a despeito dos entraves que a exposição lhe opõe. Não considero ser esta uma visão correta das coisas. Na verdade, a árvore da prática cotidiana escondia do meu colega o crescimento da floresta que surgiu dos textos freudianos.

Escolhi apresentar-lhes o Homem dos Ratos e creio que poderei justifi car nesta oportunidade o interesse de Freud por esse caso.


Dados Bibliográficos

Campo Freudiano no Brasil
Coleção dirigida por Jacques-Alain e Judith Miller
Assessoria brasileira: Angelina Harari


Tradução:
Claudia Berliner

Revisão técnica:
Ram Mandil
Rio de Janeiro

Título original:
Le mythe individuel du névrosé ou Poésie et vérité dans la névrose

Tradução autorizada da primeira edição francesa, publicada em 2007 por Éditions du Seuil, de Paris, França

Copyright © 2007, Éditions du Seuil
Copyright da edição brasileira © 2008:

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Capa: Dupla Design

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Lacan, Jacques, 1901-1981

L129m O mito individual do neurótico, ou, A poesia e verdade na neurose / Jacques Lacan ; tradução laudia Berliner ; revisão téc nica Ram Mandil. – Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2008.

-(Campo freudiano no Brasil)

Tradução de: Le mythe individuel du névrosé

Inclui bibliografia

ISBN 978-85-378-0060-7

1. Neuroses. 2. Psicanálise. I. Título. II. Título: Poesia e verdade na neurose. III. Série.

CDD 150.195

08-0534 CDU 159.964.2




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