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Para ser escritor...

Artigo, por Ana Cristina Melo,.





Relendo os releases de alguns lançamentos literá­rios, vejo um livro que fala de conselhos, outro que fala de primeira vez, e todos eles me levam a pensar no ofício de ser escritor. Para alfinetar essa sensação, encontro depoimen­tos de Lygia Fagundes Telles e Domingos Pellegrini, falando sobre a ansiedade, o tempo e o estilo de um escritor.



Então, paro e uma frase me vem: “aspirar ser um escritor é antes de tudo inspirar a literatura”. E isso faz transbordar de mim tudo que já li, ouvi, senti e vivi em minha jornada...

Para se tornar um escritor é preciso mais do que paixão, igual a essa que carrego e que parece uma carteira de identidade. É pre­ciso disciplina, mesmo que seja a disciplina de escrever em qualquer lugar, a lápis, à caneta, no computador, no claro, no escuro, em casa, no hotel, no metrô, no aeroporto.

É preciso olhos treinados para achar erros, repetições, o lu­gar comum disfarçado de coisa nova, o tema clichê, a vírgula fora do lugar, a narrativa sem cor, o adjetivo que sobra feito gordurinha na frente do espelho.

É preciso ter estôma­go para ler alguns textos e coração forte para ouvir algumas críticas. Ou mesmo ao contrário. Desde que seja assim – só o coração ou o estôma­go, pois isso se resolve com um antiácido ou até mesmo um calman­te. Mas que não seja a pele, para não ficar marcada, e nem a mente para guardar uma memória indevida, pois nenhum extremo é bom. Não há maior mal para um escritor do que se deitar sobre os pregos da crítica des­trutiva ou sobre as pé­talas da crítica elogi­osa. É preciso que seja­mos cada um ao seu momento: o réu, o advogado de defesa, o promotor, o juiz e o pipoqueiro da porta do fórum, que nada tem a ver com a balbúrdia, mas tira vantagem do julgamento.

É preciso ter uma forma de sobreviver, para não culpar o texto ainda em gestação pela conta que está vencendo, pelo presen­te do filho que ficou na prateleira, pelo aluguel que chegou antes do salário. Mesmo que esse caminho de sobrevi­vência seja falar, ouvir, ensinar Literatura.

É preciso amar seus personagens, mesmo que eles sejam odiosos. É preciso amar seus leitores, mesmo que eles te ignorem. É preciso amar seu próprio texto e, ao mesmo tempo, detestá-lo. Pois detestando, você descobrirá mais facilmente os defeitos. Amando, você se embriagará das qualidades e dos acertos.

É preciso colecionar bons conselhos e desprezar palpites. Mas que para isso você conquiste sabedoria para distinguir uns dos outros.

É preciso ter tempo para ler. Sempre. Tudo. Clássicos e contemporâneos. Nacionais e estrangeiros. Poesias, contos, romances, infantojuvenis. Ler mesmo que para isso não se tenha tempo de escrever, a escrita no papel ou na tela em branco, pois não se escreve só com os dedos no teclado ou empunhando uma caneta. Escreve-se em repouso, em movimento, ao gostar de uma frase, ao detestar um parágrafo, ao sublinhar um trecho, ao sorrir para uma criança, ao derramar uma lágrima vendo comercial de sabão em pó, ao brincar com os filhos, ao fazer compras, ao colher um pingo de chuva. Um escritor pulsa ficção. Sangue. Se o coração não para de bater em momento algum, a capacidade de criação de um escritor também não. Então, não tema o silêncio, pois ele na realidade não existe. Existe apenas o repouso antes de um texto estar pronto para nascer.

É preciso multiplicar seu dia para ler e escrever. Se acha impossível, engula a pílula do Dr. Caramujo, que para a Emília de Lobato serviu para fazê-la tagarelar, e para o escritor, o fará desembarcar no tempo da imaginação, onde os relógios não têm ponteiros e as horas se repetem, a cada “Era uma vez”. Acha difícil? Ouça o que Daniel Pennac fala em seu livro “Como um romance” (Rocco / L&PM Pocket):

“Onde encontrar o tempo para ler? (...)

A partir do momento em que se coloca o problema do tempo para ler, é porque a vontade não está lá. Porque se pensarmos bem, ninguém jamais tem tempo para ler. (...)

O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (...) como o tempo para escrever (...)

O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver”.

É preciso vencer a ansiedade na hora de decidir começar; na hora de criar o melhor início para o seu livro; na hora em que a narrativa trava; na hora em que o peito dói, pois dezenas de páginas vão repousar no lixo; na hora de encontrar o final capaz de sacudir o leitor; na hora de revisar, revisar, revisar e ainda revisar mais algumas vezes, depois que se diz é a “última”; na hora de esperar o sim da Editora que parece não chegar nunca, o sim que o elevará à vitrine privilegiada dos escritores; na hora de esperar as críticas; na hora de começar um novo livro.

É preciso ter dicionários, ter a eterna desconfiança de que a palavra exata ainda não está à sua frente. A palavra exata que Flaubert disse a Maupassant. Que o ritmo perfeito ainda não é capaz de te conduzir, mesmo que você esteja de olhos fechados.

É preciso buscar o tema único, mas enquanto não acha, é preciso continuar escrevendo, para limpar as teias que embaçam suas ideias, mesmo que depois você jogue tudo fora, para começar aquele que será seu grande texto.

É preciso buscar a maturidade a cada texto, mesmo que você tenha sessenta anos. Sempre. A cada texto, a cada livro, pois a não ser que você nasça um escritor velho, parodiando Benjamin Button (Fitzgerald), é preciso crescer aos poucos.

É preciso invejar não os premiados, mas aqueles que ainda são inéditos, pois esses ainda guardam em suas gavetas suas caixas de Pandora. Os que já publicaram carregam o peso do que fizeram, e outro maior do que ainda precisam fazer. É preciso quebrar esse peso, como se fosse uma bigorna diante de uma pedra de gelo, para que ele não alimente o mito do escritor de um livro só.

Sinto que muito se precisa para se tornar um escritor, mas principalmente é preciso amar a literatura, com todas as suas qualidades e defeitos. Sentir-se confortável e incomodado com ela. Desejá-la com a paixão de um amante, mas viver ao seu lado na placidez de um amor companheiro. Ser fiel a ela, mas traí-la sempre com a vida.

E talvez depois de tudo isso, digo que é preciso ouvir a voz que concluirá: “Lembra e esquece tudo o que você ouviu e apenas escreva!”. No fundo, escrever é seu diploma, e quanto mais regras você seguir, mais distante da exceção você vai ficar.


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 Publicado originalmente na edição 4 do Jornal Sobrecapa Literal

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7 comentários:

  1. Ana Cristina, melhor do que esse seu texto só mesmo botando a mão na massa, do contrário não tem. Adorei tudinho. Meu abraço de aprendiz cada vez mais entusiamado. paz e bem.

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  2. Uma aula e tanto, Ana Cristina! Eu apenas dispensaria o conselho de paciência para esperar o ''sim'' da editora, pois é sabido que tal resposta, quando afirmativa, corresponde a uma verdadeira agulha no palheiro do mercado editorial. Escrevamos, sim, escrevamos sem temor, praticando tudo o que você disse, e muito bem, mas sem sonhar com sucesso, noites de autógrafos e congêneres. Abraços.

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  3. Olá, adorei o seu blog, estou seguindo tbm!

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  6. Obrigada pelos comentários.
    Tem texto que sai como jorro de sentimentos. Esse foi um deles.

    Heitor, você está corretíssimo sobre essa agulha no palheiro. Mas exatamente por ser tão mais difícil é que se deve controlar a ansiedade. Eu já passei por isso. É uma ansiedade que acaba atrapalhando nossa escrita. A melhor forma de aguardar esse sim é mandar para mais de uma editora e, se nada vier, depois de três meses, partir para novas editoras. E enquanto isso, escrever, escrever, e escrever. Não sonhando com sucesso ou noites de autógrafos, mas com o livro sendo aberto por um leitor.
    Beijão a todos

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  7. gostei muito dessa postagem!
    tenha um ótimo domingo
    abraços

    http://novalexandrianet.blogspot.com

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