I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Razões da Literatura: por que escreve o escritor?


Artigo para a seção Escrita Criativa, por Carolina Bernardes


Para Mário Quintana, escrever é uma maneira de ser. Para o escritor grego Nikos Kazantzakis, é a libertação de sua escuridão interior. Para Cecília Meireles, a escrita “aproxima as distâncias, se compreendem as criaturas, e os povos se comunicam as suas dores e alegrias sempre semelhantes”.



É evidente que as possibilidades de definição se mostram amplas e intermináveis. Cada autor, em seu tempo e em sua subjetividade, manifesta a sua relação mais do que pessoal com o veículo de sua expressão, pois seu conceito de escrita se vincula à força que o move à prática de escavação e revelação (do outro e de si). Nós, que igualmente escrevemos, da maneira que somos, em nosso tempo e lugar, podemos dialogar com as referidas visões do fazer literário. Podemos nos identificar com uma ou outra, com parte desta ou daquela e, assim, arriscar a formulação de nossa própria maneira de ser escritor. Esse nosso jeito de escrever pode ser tão igual ou tão diferente dos outros. Pode ser único ou uma repetição de padrões antigos. Pode não ser uma cópia de ninguém, e mesmo assim igual, porque as idéias circulam em todos os cantos redondos do mundo. Posso sentir o mesmo que o outro e encontrar uma maneira diferente de expressar. Não é isso que faz do não-literário tornar-se literário? Uma forma diferente de dizer o mesmo? Se assim não fosse, o amor seria um tema ultrapassado...

Neste artigo, convido o leitor/autor a refletir sobre a sua relação com o texto, com a criação, com o leitor e com a sua auto-imagem de autor. Apresento algumas avaliações teóricas que têm sido feitas da literatura.

Na filosofia platônica, a literatura é entendida como imitação ou cópia imperfeita da realidade. Mas se Platão condena a Poesia como modo inadequado de alcançar a verdade (diferentemente da filosofia, que seria superior à poesia), Aristóteles considera-a instrumento válido de conhecimento, pois “o poeta cria um mundo coerente em que os acontecimentos são representados na sua universalidade (...). O conhecimento assim proposto pela obra literária atua depois no real”. (AGUIAR E SILVA, p.107)

Com o Romantismo, a Literatura como conhecimento retoma seu significado e o poeta passa a ser o vidente que alcança e interpreta o desconhecido. Para entender melhor o ideal do poeta como vidente, é interessante ler os franceses Rimbaud e Lautréamont e o inglês Coleridge. Nesses poetas, o poema é a “revelação das profundezas vertiginosas do eu e dos segredos da supra-realidade, como instrumento de perquisição psicológica e cósmica.” (Idem, p.108) A escrita automática, que será resgatada pelos surrealistas no século XX, é a mensagem que traduz o mistério cósmico. (psicografia?)

Para além do conhecimento sobrenatural, a literatura pode ser entendida como o conhecimento deste mundo terreno, um instrumento de análise do homem e de suas relações com o mundo. Sófocles, Shakespeare, Cervantes, Dostoievski, Kafka e Machado de Assis são representantes dessa tendência de apreensão do homem e do mundo pelo literário.

Há quem queira, porém, escapar para o mundo imaginário, tão distante do real, tão mais próximo de seus sonhos. Variadas são as razões que levam o autor a encontrar na literatura o seu instrumento de evasão: conflito com a sociedade; conflitos íntimos; recusa da finitude e imperfeição do mundo real. Fugindo para o mundo imaginado, o autor se esquece da realidade e faz da arte a sua religião.

Certamente, a literatura como fuga para um mundo idealizado é verdadeira fonte de prazer para o autor que se dói da condição humana. Esse efeito de prazer é outra maneira de entender a literatura. Sem se afastar do mundo real, o autor cria uma obra que provoca emoções de toda ordem no leitor, do terror à compaixão. Ao se identificar com o destino dos personagens, o leitor expurga suas próprias emoções, vivenciando o que se chama o efeito catártico. “Desta higiene homeopática da alma resulta um prazer superior e benfazejo”. (Idem, p.113) Experimentamos a catarse quando nos debulhamos em lágrimas ao assistir um filme, quando torcemos para o time predileto no campo, em final de campeonato, no show musical daquela banda que ouvimos no quarto um milhão de vezes. Lavamos a alma: a expressão mais correta para o efeito que esses acontecimentos geram em nós.

Mas se a literatura é uma imitação (mimese) imperfeita, uma fuga para a torre de marfim, ou o conhecimento dos homens e do mundo, seria uma arte inócua e inútil? Chegamos, enfim, ao autor que usa a literatura como meio de transformação do real. A literatura engajada ou compromissada tem seus fundamentos na filosofia existencialista, com Heidegger e Jean-Paul Sartre. Para o primeiro, o homem não é pura passividade, recolhendo dados do mundo, mas um “estar-no-mundo”, presença ativa, fundadora do mundo. Dessa maneira, o autor teria o compromisso de escrever para agir no mundo, postura literária que se encontra bem definida em O que é a literatura? de Sartre.

Seja como representação da realidade, criação de outro mundo, prazer estético, desvendamento, purificação, expressão da interioridade, o processo de escrita criativa é uma maneira de ser. O autor é o seu próprio texto, assim como é o mundo em que vive. O convite lançado no começo do artigo permanece. Sabendo que somos uma parte de uma rede de significações muito maior, e que a nossa criação é uma contribuição para a ordenação do mundo em que vivemos, gostaria de conhecer a sua maneira de escrever. Como você leitor/autor confere ordem ao manancial de idéias captadas no ar?


Bibliografia consultada
AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976. 1ª ed. Brasileira.

8 comentários:

  1. estarei sempre por aki, seu blog é muito massa!

    http://novalexandrianet.blogspot.com

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  2. Que excelente artigo Carolina! Sabe, quando me fiz a pergunta, por que escrevo, conclui que fazia apenas para colocar alguns sentimentos para fora, ou mesmo como "uma fuga para a torre de marfim", mas sendo assim, não dá pra negar a superficialidade dos meus textos. Gosto da ideia de a literatura ascender a uma mera manifestação criativa individual, tornando-se uma contribuição util para mundo, e um dia espero chegar a esse patamar. Por que acho que a melhor coisa que um escritor pode fazer com suas palavras é usá-la como contribuição em transformar a realidade, mas de uma maneira ascendente, contribuindo para uma transformação em algo melhor.
    Adorei o texto e vou indicar aos meus amigos!

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  3. Eu já escrevi uns três textos sobre o significado de escrever para mim. As motivações são várias,mas a pricipal é o encontro mais profundo que pode acontecer de mim com minha condição humana. Não chego ao exagero de dizer que seja como o ar que respiro mas sufoca-me quando não escrevo. Apaixonante o seu artigo. Abraços. paz e bem.

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  4. Escrevo, logo existo. Muito bom, Carol. Kenny Rosa

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  5. Oi, Celly. Fiquei muito feliz com seu comentário.
    Não há problema em sua escrita ser uma manifestação de sentimentos, pois não vejo como fugir do que sentimos. E se você acredita na possibilidade de contribuir na transformação da realidade, o ideal seria combinar as duas coisas. Á motivação inicial pode ser a expressão de um sentimento, porém é a forma, a maneira como se exterioriza esse sentimento é que torna o texto artístico e bom de ser lido. SEndo uma boa leitura, certamente o texto terá o "poder" de modificar, ainda que seja uma só pessoa. Pense nisso: a forma! Beijos e obrigada!

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  6. Oi, Cacá. Obrigada pela visita e pelo comentário. É muito bom dialogar com outros escritores e conhecer as várias formas de se fazer a arte literária. É interessante pensar na escrita como uma necesssidade (alguns dizem fisiológica). E em você parece ser uma necessidade constante de análise do ser humano, pois analisar-se é o mesmo que analisar o outro. Adorei! Abraços

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  7. Letícia, obrigada pela visita!

    Kenny, ótima paródia: existimos somente depois de escrevermos! Antes do texto, não podemos nos considerar autores! Obrigada, continue lendo e comentando. Abraços

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  8. Nossa, Carolina, mais tranquila com suas palavras, poder conciliar as duas coisas seria muito bom, e ainda acho que vem a ser um desafio interessante. Obrigada pela atenção querida. Bjos!

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