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Atraso de vida



Conto, por Valentina Silva Ferreira


Estou fodida. Derrotada, inútil. Perdi a oportunidade. O tempo escoa na pista do aeroporto, naquele maldito avião que não quis transportar o meu futuro a um porto seguro. E deixou-me ficar aqui, sentada, nas cadeiras onde as pessoas sonham e lêem os mesmos autores de sempre, e ouvem música e ingerem uma sandes porque a dos aviões vem com uma mistela que ninguém entende o que é. Sinto-me assim - uma mistela. Uma confusão, um não saber quem sou. E choro porque sei que os passos que dei até aqui foram inúteis. Inútil, a palavra que melhor me define neste momento. Fodida nem tanto. Há quanto tempo não estou com um homem? Há quanto tempo, Sara? Sinto-me corar e olho em redor. Felizmente, ninguém repara no meu rubor salgado de lágrimas e quem olha, desvia logo o olhar. Pensam que me despedi de alguém, com certeza. Um amor que partiu numa viagem de negócios, um filho que foi para a faculdade, um irmão que foi destacado para uma missão militar. Não, minha gente, nada disso. Esta mulher que aqui vêem, borrada de maquilhagem, de olhos vermelhos, cabelo impecável e conjunto saia-casaco, não tem marido nem filhos e os irmãos estão longe e há muito tempo que não sabe deles. Há quanto tempo não estás com a tua família? Há quanto tempo, Sara? Retiro um lenço da minha mala e assoo-me, com força. Ao longe, um pai faz o mesmo à filha pequena e segura-a pela mão enquanto seca as suas lágrimas. A miúda caíra mas tinha quem a amparasse. E eu? Tu, Sara, não tens ninguém, absolutamente ninguém. Nem o gato que tenho em casa gosta de mim. Prefere passar os dias solarengos na casa da vizinha e, quando chove, desaparece. E as plantas, as plantas que é só deitar água, que não precisam de bons dias, nem beijos ou pão quente, nem dessas consigo cuidar. E depois acabo assim: sozinha, num aeroporto, com o fim da minha carreira à vista. E pergunto-me: valeu a pena? Não, não valeu. Assinei a minha sentença de solidão no dia em que me esqueci de viver.



- Menina, está tudo bem?

Olho e vejo um homem bem-parecido por detrás da água que me turva os olhos.

- Precisa de alguma coisa?

Ele sorri. Um homem, finalmente. Alguém que se preocupa comigo.

- Preciso.

Pode ser que à noite possa dizer, literalmente: Estou fodida.


*

Créditos da imagem:
Aeroporto..., por Ricardo Alfredo Santos

2 comentários:

  1. Excelente o texto Valentina. Pitadas de estilos diferentes.

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  2. Muito bom o conto, e retrato surpreendente da solidão e espanto que as vezes a vida oferece.

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