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Crônica do Devaneio



Resenha, por Carolina Bernardes.


“Num tempo em que as palavras abundam e a vontade de ler é tão pequena, num tempo de tantas ideias e tão pouca filosofia, escrevo como para deixar uma lápide pessoal para a história. Nada de especial. Talvez nada tão importante, mas um grito diminuto, silencioso, de alguém que insiste em viver pela palavra, pela filosofia, pelas ideias e pela possibilidade de tudo isso.”
Devaneios Literários





De tempos em tempos a literatura se transforma. As épocas se sucedem: eventos históricos distintos, descobertas da ciência e da tecnologia, novos vírus e novas curas, crenças e não-crenças, análises filosóficas que resgatam, refutam ou inauguram, costumes que mudam, maneiras de ver e se posicionar no mundo, fazendo do homem um ser em permanente processo. O movimento contínuo de todas as coisas impele as artes, a cultura e a literatura a também se modificarem. A expressão literária que reconhecemos hoje é a cara de nosso tempo.

Devaneios Literários de Mariana Collares se insere exatamente neste torvelinho que é a criação atual. Iniciado na juventude (a época em que muitos se descobrem escritores e alimentam o sonho de publicarem um livro), a obra foi-se formando aos poucos, enchendo pastas, até encontrar, em 2005, o veículo propício e mais atual de divulgação: o blog. Nem todas as obras nascem como livros impressos para serem encontradas nas estantes das livrarias e bibliotecas; essa característica era quase regra em outros tempos. O que marca verdadeiramente nossa época literária é a possibilidade de que os livros nasçam em seu processo de produção, em seu fazer-se, conclamando o leitor a participar, interagir e aproximar-se do autor e de sua criação. Com o advento dos blogs e redes sociais, autor e leitor nascem juntos, são companheiros de jornada, amigos no crescimento e na descoberta. Por essa razão, Devaneios Literários é tão completamente a cara da literatura atual.

Mariana sabe disso e ganha leitores por abrir-se ao processo dinâmico de falar com eles. Mariana fala com os leitores, oferece a mão para a caminhada em conjunto. “Vamos de mãos dadas”, disse o poeta. A cronista concorda e diz: “Já devaneou hoje?” Mais do que um convite de divulgação, Mariana sabe que suas crônicas são pura loucura, aquela loucura sob a qual todos queremos sucumbir. Não se passa incólume ao devaneio, ao ir e vir de um barco em alto-mar das ruas de Porto Alegre, aos lances filosóficos que rebentam nos detalhes do cotidiano, à suavidade da palavra lírica tão ricamente ornamentada pela oralidade do sul e do mundo virtual. Os devaneios de Mariana tornam-se os devaneios do leitor, completamente de acordo com a máxima da autora: “Sabe, às vezes me cansa essa inútil lucidez”.

O livro, agora impresso pela Editora Bookess, reúne 92 crônicas produzidas ao longo de cinco anos e pode ser definido como uma “sacola cheia de histórias”, que Mariana “foi juntando ao relento, por entre livrarias e as bancas de jornal”, entre os amigos e o que a vida lhe proporcionou como experiências. Não se lê Mariana sem sentir uma louca vontade de tomar chimarrão em sua casa em Poa. Não se lê Mariana sem mergulhar na subjetividade – a dela e a nossa. Pois a autora não procura se esconder do leitor, como se a obra não dependesse dessa relação tão próxima. Mas a subjetividade que se espalha pelo livro está longe da confissão imatura da interioridade. Mariana sabe muito bem como se colocar entre as memórias, as experiências cotidianas, tão típicas da crônica, e as divagações filosóficas, as análises da condição humana e do homem em relação ao mundo.

O segredo que não se anuncia, mas se mostra de repente (parafraseando a autora) com a leitura de Devaneios Literários, é que para ser um verdadeiro escritor, não basta escrever bem. Escrever bem é pouco. Para ser verdadeiramente um autor literário, é preciso ouvir o chamado de nossa época, é preciso entender o que a literatura exige de nós e o que os leitores necessitam. Mariana Collares encontrou o caminho, ouviu o chamado, e agora lança o que ela considera “um grito diminuto, silencioso”. Porém, a obra nos entrega sua própria definição:


Ela viveu uma vida imóvel e terna. Uma vida morna. Uma vida-flor. Suportou a chuva e o granizo e os dias quentes estando absolutamente imóvel. Não sentiu./ Passou, como as flores passam. (As Margaridas)



Mariana Collares jamais poderá ser comparada a uma flor, um elogio que seria óbvio dada a sua beleza. Pois a autora é a vida plena de expressão, de movimento e de interação com seu meio. Mariana não passa; ela age, reage e interage, porque “pra uma cronista, movimento é fundamental”.

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2 comentários:

  1. Agora é imperativo, tenho que ler esse livro. E essa resenha, que maravilha hein Carolina, parabéns!

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  2. Adorei Carolina. Já estou esperando o meu livro chegar para manuseá-lo.

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