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Olho de gata morta



Conto, por Carolina Bernardes.


Entardeceu com o olho inchado. Não era bem o olho, mas o canto do olho. Não tanto o canto, mais para o lado do nariz. Ali, neste ponto específico, nasceu uma bolota. Picada de inseto? Espinha rebelde? Inflamação sei-lá-de-que? E o negócio encarnou, criou raiz, apaixonou-se por aquele canto do olho-nariz. Deformou. Água quente na tigela de doce, algodão espremido no lixo. Mas a coisa inventou de ficar. Nem pomada, nem rabo de gato conseguiram convencer. E dizem que rabo de gato três vezes ao dia espreme qualquer bolota. Manhã: diminuiu? Tarde: melhorou? Noite: me traz a agulha que eu vou furar. Em meados do século passado, certo escritor recebeu de um discípulo de Freud o diagnóstico para suas bolotas na cara: moléstia do refúgio de pureza. Não foi no deserto estéril ou em uma caverna escura que o poeta massacrou sua carne para libertar seu espírito. A doença de santo, cravada em sua face, amansou sua alma. Bolotas em proporção de mulheres. Pústulas sebentas para afastar o pecado. E o homem de hoje, que não é poeta, nem procurou Buda em toda mulher, também foi ao médico. Pode ser a glândula lacrimal entupida. Vamos cortar. A seco, sem terapia. Sem firula do espírito. Só o bisturi abrirá o canal para a lágrima jorrar.

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Conto publicado em http://retalhoseepopeias.blogspot.com/

2 comentários:

  1. Adorei o conto Carolina, me lembrou um dos relatos de Helena Morley em seu livro diário Minha vida de menina. A mesma graça. ^^

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  2. Oi, Celly. Adorei a comparação! Ainda não li o livro de Helena Morley, mas fiquei super curiosa. Obrigada pela dica. Vou procurar! Beijos

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