I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Gaduzeando




Crônica, por Mariana Collares.





Maria Gadú veio e me enfeitiçou. A mim e a milhares de pessoas que lotaram o Teatro do Sesi, em Poa, para vê-la e ouvi-la, em carne e voz. Há mais de um ano o Cd da Diva toca na vitrola do carro. Há mais de um ano eu a encontrei por acaso, na loja de discos, e nunca mais deixei de encerrar ou iniciar o mês sem que o disco girasse enlouquecido nas idas e vindas do trabalho, ou mesmo nas viagens. Gadú é uma companhia. Fez aniversário no meu carro. Ela não, o Cd. E então um amigo-anjo convidou e me levou ao espetáculo tão esperado por mim. Me sentei na fila A11, poltroninha 06, e lá fiquei embasbacada desde que as luzes apagaram, e durante uma hora e meia mais ou menos. Só me mexia para aplaudir, ou pra balançar o corpo quase dançando, mas tentando me comportar naquele teatro frio, de gente tão educada e refreada. Sim, amigos, é fato: gaúcho não é plateia fácil. Ama seus ídolos, os admira, compra discos e livros e conhece tudo, mas aquela eterna preocupação em participar do concurso pra “Rainha Elizabeth” faz com que meus conterrâneos sejam um pouco mais contidos quando se trata de show ao vivo. Entusiasmo nota 6. Eles não se mexiam quase, com algumas exceções obviamente, e que bom que existem, mas eu ouso dizer que infernizei a vida de quem estava à minha frente e atrás e dos lados. Aplaudi, dancei sim, como pude, chamei Maria Clara no fim do show, querendo mais. Pior: cantava tudo. Tudo o que sabia. E olhe que sabia quase todas as músicas. Coitados...

Bom, mas não me faço de rogada quando se trata de ser feliz. Eu sou e com muito orgulho e mostro sim minha alegria por aí, ainda que alguns me observem de soslaio: - Deve ser maluca, a pobre.

E eu, muito preocupada com isso, vibrei o tempo todo e até soltei algumas lágrimas em uma ou outra canção mais emocionante. A Diva flutuou na MPB, no samba de raiz, no soul, no rock, no pop. E eu, abismada com tanta voz. Como cabe aquilo tudo naquele ser tão pequeno? Tão frágil? Tão doce?

Gadú é uma presença. Uma artista completa, mas isso eu já sabia e já tenho dito faz tempo a quem quiser ouvir (ou ler). Então quem não sabe, tá perdendo. A voz é metálica e preenche qualquer ambiente, desde que seja muito, muito, muito grande. Porque em ambientes pequenos a moça devia ser proibida de cantar. Primeiro porque aquela voz é destinada às multidões. Segundo porque penso que o que é bom tem que ser compartilhado. E ficaria realmente triste se ela se dignasse somente a poucos, num palco intimista, se bem que gosto da ideia, desde que eu esteja presente. Enfim... As canções falam por si. A moça veio e disse a que veio. E pra nossa sorte a MPB ainda estará salva pelo tempo que o Divino permitir que ela nos ilumine com aquele jeito maroto, de quem nem sabe direito o tamanho do próprio talento, e nem se dá por isso. Ao contrário, agradece o tempo todo a nossa admiração por ela. Imagina...

Gadú é o talento em forma de modéstia. O que me faz pensar que ela inspira por atos, palavras e notas musicais. No fim do show, e apesar dos meus gritos insistentes por Maria Clara, ela não retornou ao palco. Mas na minha ilusão fiquei pensando que ela deveria estar me vendo, através das coxias, e pensando quem diabos era aquela maluca que a chamava pelo nome real, querendo mais? Uma amiga íntima! - eu diria. Obviamente!



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Créditos da imagem: Olhares.com
Show de Maria Gadú, por DrigoSantos

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