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O último domingo boreal



Conto, por Gil Rosza.





Quando chegou na sala ele estava no sofá, tomando café e assistindo TV. Sentou-se, recostou a cabeça no peito dele e perguntou como estava. Sem tirar os olhos do que estava assistindo, ele disse que estava bem. Ela então quis saber o quanto ele havia ficado surpreso com o que foi revelado na noite anterior. Os dois ficaram em silêncio, como se estivessem procurando alguma coisa além das reticências para tentar reiniciar a conversa. Por fim, ela quis saber o quanto ele estava decepcionado.

Ele, ainda sem olhar para ela, disse apenas que precisava de um tempo para pensar sobre tudo aquilo. Ela não disse nada, pegou o cigarro da mão dele e tragou profundamente.

Deitada agora com os pés nos braços do sofá e cabeça no colo dele, confirmou novamente que sempre foi assim! Que sempre gostou bem mais de meninas, que embora ele nunca tivesse perguntado nada, tinha sido assim o tempo todo, desde que saia e procurava aleatoriamente alguém em qualquer lugar, qualquer uma, sem apego, desculpas, sem nenhuma justificativa, sem botar culpa em nada ou em ninguém. Quando queria um pau que não fosse o dele, saia e procurava um cara. Só procurava alguém com quem tivesse alguma afinidade, quando queria uma mulher. Quando queria algo muito melhor que tudo isso é que ficava em com ele, a quem amava não como homem, nem como mulher. O silêncio continuava longo e denso, por isso ela pôs o cigarro no cinzeiro e pediu um abraço. Um que fosse bem forte e demorado.

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Foto: InMagine

Um comentário:

  1. Parabéns Gil pela forma como conduziu seu conto até um final surpreendente. A crueza de suas palavras na revelação da personagem pode chocar à alguns, mas retraram uma realidade da vida que muitos preferem não encarar de frente e posam de um falso puritanismo.
    Aqui, você aborda de forma sintética e precisa dois temas controversos: a traição e a bissexualidade.
    Aborda ainda algo talvez mais incompreendido e questionado: poderá o amor existir entre duas almas, independentemente do ato ou da escolha sexua?
    Uma pessoa pode amar verdadeiramente outra e ter relacionamentos diversos fora dessa relação, por impulsos diversos, por satisfações momentâneas, por outras preferências sexuais?
    Boa reflexão. Ótimo conto! Bjs.

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