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Poemas, 'início' ou '2003'


Poemas, por Wellington Souza.

"em que uma criança paralítica
vê as outras jogarem bola."

No ano de 2003, em que fui morar em Ribeirão Preto, foi também quando comecei o terceiro caderno de poesias 'arte rupestre'. Este nome veio como resposta aos primeiros questionamentos sobre o que eu fazia ali, naquelas folhas pautadas. Não era, ao meu ver daquela época, nada diferente dos desenhos paleolíticos em cavernas. Registravam um olhar no passado (realizado ou que poderia ter vindo a ser); um desenho de como objetos e sensações são (ou eram); e uma vontade de ser. Era uma tentativa de entendimento e conseqüente domínio do mundo (como fora o fogo e as estações do ano).

Foi neste cadernos que escrevi os primeiros poemas curtos (que depois de muito tempo fui batizar de 'concisos'). Em geral são frases desmembradas em versos, como no poema Especial, ou frases curtas que jogam entre si.

Escolhi, desse caderno, quatro poemas.

Abraços e boa leitura!



Amor e a flor

Uma flor brotou no meio de uma pedra.
Assim também nasceu o amor.



Especial

Meus olhos são a janela
em que uma criança paralítica
vê as outras jogarem bola.



Poema da negação

Um anjo me disse: ‘– não’
Na porta do céu me disse: ‘– não’
Eu caindo para o inferno me disse: ‘– não’
Irredutivelmente: ‘– não’
Indubitavelmente: ‘– não’
Paradoxalmente me deu a mão e me disse: ‘– não’.

Me fez ficar pendurado
à beira do abismo infinito da vida negada
ouvindo suas doces palavras.



Palavras ágrafas

Elas correm
com seu fosse o perigo
escorrem entre meus dedos...
impossíveis de serem retidas...

Moscas infernizantes
ficam a passar entre meus ouvidos
e zunindo e sumindo
incompreensíveis
– e não há como apanhá-las,
enjaulá-las na folha em branco.

*

Créditos da imagem: Olhares.com
Nei Lima, por Nei Lima

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