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Relações familiares na escrita literária: da assimilação à recriação


Artigo para a seção Escrita Criativa, por Carolina Bernardes.


Dentre todas as artes, a literatura é talvez a que coordena o máximo de partes ou de fatores independentes: o som, o sentido, o real e o imaginário, a lógica, a sintaxe e a dupla invenção do conteúdo e da forma. Para compor esse organismo amplo e complexo, o escritor se utiliza de uma linguagem preexistente a ele, formadora do mundo e da história; nascer não é mais do que encontrar esse código pronto e o escritor precisa se acomodar e dar um sentido a ele.



Assim como o escritor se depara com o mundo fundado pela linguagem que o antecede, na prática de sua escrita confronta-se com outros textos literários, aos quais aceita, nega, contesta ou altera valores histórico-culturais, princípios éticos e religiosos, atitudes psicológicas, ideologias, convicções políticas e filosóficas que caracterizam um indivíduo e o grupo no qual está integrado. Desse modo, um texto literário não se realiza num universo primitivo e original absoluto, mas está vinculado aos textos literários e não literários do passado e da época em que o próprio escritor está inserido, bem como se vincula ao contexto social do qual faz parte, problematizando, revelando e conferindo significado real aos valores desse contexto.

Todo texto é absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos, sejam eles escritos ou implícitos no discurso sócio-cultural. Entende-se por intertextualidade esse trabalho constante de cada texto com relação aos outros, esse imenso e incessante diálogo entre obras que constitui a literatura. Cada obra surge como uma nova voz (ou um novo conjunto de vozes) que fará soar diferentemente as vozes anteriores, arrancando-lhe novas entonações. Não é apropriado, portanto, pensar em originalidade na criação literária, pois tudo pertence a uma rede de significações muito mais ampla que a da tessitura do texto.

Nenhum texto é, portanto, uma unidade fechada em si mesma, porque, depois de produzido, sempre estará entregue ao discurso da História e a seus efeitos. Dessa maneira, a literatura se instaura pelo diálogo entre os muitos textos da cultura. Segundo Bakhtin:

Toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro.
Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia em mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1988, p.113)


Assim, qualquer texto estará sujeito a releituras das mais variadas épocas. Não importa quando foi escrito ou o nome do autor e a sua importância, todo texto será uma “ponte lançada entre mim e os outros”. E as (re)leituras surgem em multiplicidade construindo a significação do texto. A Escrita literária é basicamente uma (re)leitura de outros textos, estabelecendo, assim, o diálogo permanente com produções de outrora e de hoje.

Se o diálogo entre textos é permanente e condição básica da escrita literária, como poderíamos definir esse processo? A intertextualidade é o processo de incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido do texto anterior, seja para transformá-lo. Pode-se confirmar ou alterar o sentido do texto, como reproduzir construções sintáticas e, ainda, reproduzir o estilo do autor incorporado.

Essas relações estabelecidas dialogicamente com outros textos podem ser intencionais ou simplesmente podem ser forças que se introduzem a si mesmas no processo de criação, representando uma intrusão no ser do escritor ou uma modificação formadoras de sua experiência psíquica.

É aí que, como leitores, encontramos as semelhanças entre esse e outro autor, os parentescos e filiações a um conjunto de características de determinada época ou movimento. Por meio das influências e intertextualidades a que todo autor está sujeito são formadas as famílias literárias. O escritor deve nutrir-se dos outros textos, neles buscar sua força e estilo de escrita, prolongando recursos, temas e personagens ou propondo a reformulação, num processo de assimilação, digestão e recriação. Não é exatamente assim que vivem as famílias? As heranças são assimiladas e o filho deve escolher perpetuá-las ou superá-las...

Ainda citando Bakhtin:

O processo de luta com a palavra de outrem e sua influência é imensa na história da formação da consciência individual. Uma palavra, uma voz que é nossa, mas nascida de outrem, ou dialogicamente estimulada por ele, mais cedo ou mais tarde começará a se libertar do domínio da palavra do outro. Este processo se complica com o fato de que diversas vozes alheias lutam pela sua influência sobre a consciência do indivíduo. (BAKHTIN, 1988, p.147)


Agora proponho ao leitor desta coluna o exercício de criar uma paródia. Paródia significa “canto paralelo”, incorporando a idéia de uma canção cantada ao lado de outra, uma espécie de contracanto. É uma escrita transgressora, que transforma o texto original: articula-se sobre ele, reestrutura-o, mas ao mesmo tempo introduz um movimento de negação. “Na paródia, a fusão de vozes é impossível, pois elas provêm de mundos diferentes; elas se fazem ouvir numa leitura polifônica”. (FÁVERO, 1994) Isso significa que se mantém o texto do autor escolhido lado a lado com o que será escrito, sem que se perca a identidade de cada um. Escolha um autor, um texto e produza seu “canto paralelo”. Se gostar da tentativa e quiser compartilhar, envie seu texto para nós do Benfazeja. Contato: biabeca@gmail.com

Bibliografia:
BAKHTIN, M. M./VOLOCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1988.

BAKHTIN, Mikhail. “O Discurso do Romance”. In: ___. Questões de Literatura e Estética: a teoria do romance. São Paulo: Unesp/Hucitec, 1988.

FÁVERO, L. L. “Paródia e Dialogismo”. in: BARROS, Diana L. P., FIORIN, J. L. Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade. São Paulo: Edusp, 1994.

NITRINI, Sandra. Literatura Comparada. São Paulo: Edusp, 1997.

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Imagem: Dante e Virgílio no rio Estige, Gustave Doré (1890)

4 comentários:

  1. Ótimo artigo.
    Parabéns!
    A leitura nos faz sentir um certo orgulho de conseguir jogar com as palavras, ainda que não sejamos mestres na arte.
    Boa noite!

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  2. Valentina Silva Ferreira26 de julho de 2011 18:51

    Obrigada,Carolina, por me ensinar tanto :)

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  3. OLá, José Eron! Concordo com você a respeito desse orgulho de trabalhar com as palavras. Talvez o fim não seja o mais importante, mas o processo prazeroso de lidar com palavras, frases, textos, transformando o que está disperso em um produto alquímico, que comunica algo. Sim, somos os jogadores nesse processo. Obrigada pela leitura e pelo comentário. Recebemos sua paródia e em breve teremos novidades. Abraço grande

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  4. Valentina, eu que agradeço por sua leitura e comentário!
    Continuemos com a jornada literária! A viagem já é o aprendizado! =) Beijos

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