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Vicente, A noite e Sebastião



Conto, enviado por Harlon Homem de Lacerda Sousa



Sob a luz forte dum candeeiro, Vicente lia seu romance. Não que ele o tenha escrito. Ele apenas o reescreve sempre que está com ele. A seu redor uma escuridão calada o observava. Vicente reescrevia em silêncio. Vicente se concentrava nas palavras frias daquele seu romance. A noite calada, não ventava. Vicente tinha um candeeiro forte. O cheiro de óleo não atrapalhava Vicente. Mas, a noite calada queria ficar sozinha. Num suspiro apagou o candeeiro de Vicente. Ele não pensava ser a noite. Vicente reacendeu e continuou a reescrever. A noite não queria, não o queria. A noite queria ficar sozinha. Nem a lua, a noite convidou naquela noite. Outro sussurro. Outro fósforo. Vicente queria reescrever seu romance. Vicente sempre os reescrevia. Quanto mais páginas, mais Vicente gostava, no terreiro, de sentar-se com seu candeeiro. Reacendeu, reescreveu, suspirou, reescrevia, quando a noite não mais tolerou. Um suspiro, um sussurro, o vento e, o candeeiro mais uma vez foi apagado. Vicente olhou para a noite. Não olhou em seus olhos, que brilhavam. Vicente deixou o seu romance aberto em cima da cadeira de couro de bode e não reacendeu o candeeiro. Vicente de cabeça baixa em respeito, falou para a noite: “Se você não quer que eu leia, eu vou me deitar”. Nem mais um sussurro. A noite queria ficar sozinha. Calada. Folheou algumas páginas do romance que Vicente reescrevia. Parou no inicio. Observou a capa. E começou a lê-lo. No entanto, assim como Vicente, a noite não lia simplesmente. A noite reescrevia o romance de Vicente.

Era numa beira de estrada. De noite. Sentada de cabeça baixa, Vesta. Choramingava. Sozinha. Suja. Despenteada. Triste. Talvez com raiva. Raiva não, ódio. Vesta não era casada. Linda. Não tinha filhos. Inteligente. Ninguém a queria. Prendada. Nem mesmo, Hermano, seu grande amor. Hermano gosta das estradas, de andar de casa em casa levando e trazendo recados. Vesta era sozinha, mas, Vesta era feliz em casa. Sozinha. À noite. Abandonada. Vesta está revoltada. Porque, maldito Deus que me abandona e me amarra ao pé da fogueira desta malfadada casa? Por que? Não posso amar? Amar, maldito! Amar... Maldito amor... Queria morrer... Não irei matar-me. Não. Irei trancar-me dentro desta casa infame. Irei esperar. Só uma pessoa, um deus, um cavaleiro, apenas ele irá salvar-me desta minha prisão. Vesta saiu da estrada. Sacudiu a sujeira da alma, mas, não da roupa. Sentou na cadeira de couro de bode. Acendeu o fogo no meio da sala. Esperou. Esperou. Esperou. Vesta não tinha marido. Não tinha pai que viesse vê-la. Não tinha mãe que viesse banhá-la. Não tinha filho que viesse chorá-la. Vesta queria morrer. O fogo enfeitiça a gente. O calor. O estalar constante e sinfônico. O cheiro quente. A cinza. A fumaça. O fogo enfeitiça a gente. Vesta estava triste. Sozinha. Desamparada. Esperou mais. Mais lenha. Esperou mais. Um chá. Esperou mais. Alguém? Ninguém. O fogo enfeitiça a gente. Pegadas no terreiro. O fogo enfeitiça a gente. Vesta foi olhar quem era. Alguém? A noite. As estrelas. A lua e o vento. Ninguém. O fogo enfeitiça a gente. A solidão. A esperança. Vesta voltou pra dentro de casa. Triste. Desamparada. Sozinha, Vesta. Hermano, fazia tempo, não vinha por aqui. Meu Deus... Por que meu Deus? Que pecado eu fiz pra esse esquecimento não me arredar da alma? Manda um raio. Eu sei que não pode meu Deus, mas, me dá um raio. Por favor... Que dor é essa que não sai de dentro de meu olho. Meu Deus!! Pára. Por favor, Meu Deus. Por favor. Vesta viu uma sombra na soleira da porta. Sombra doirada. Sombra real. Real sombra na soleira da porta de Vesta. Vesta queria que fosse Hermano. Mas, Vesta também queria que fosse quem era. Sebastião não avisa quando chega na casa dos outros. Ele chega da porta pra dentro da alma da pessoa. E na alma de Vesta ele chegou com carinho, com rapidez, com força, com precisão, sem razão, sem compaixão Vesta ficou. Sebastião veio trazer a luz pra Vesta. O fogo enfeitiça a gente. A luz encadeia. Vesta se levantou. Colocou vestido de missa. Quando Sebastião entra assim na alma da gente, tem que vestir roupa de missa. Sebastião merece. Sebastião sempre volta quando a gente precisa. Quando é noite dentro da gente Ele ilumina. O fogo enfeitiça a gente. O fogo tem luz. Vesta foi pro terreiro, pegou a vassoura, varreu, varreu, apanhou folha seca, tirou galha mofada, ajeitou, colocou as cadeiras de couro de bode pra fora, acendeu uma fogueira, fez bandeirola de jornal, fez aluá, recebeu um, recebeu outro, serviu o aluá. Vesta sabia que eles não iriam demorar tanto. Vesta sentou na cadeira vazia junto das outras. Conversou, riu, chorou, cantou, dançou quadrilha. Vesta sabia que os outros não iriam demorar. A casa de Vesta estava enfeitada. Ria-se muito com Vesta, de Vesta. Na cidade não se falava outra coisa, que não a quadrilha de Vesta. Hermano não ia mais lá. Vesta não se importa. Sebastião não se importava. “Sebastião voltou!” Gritava Vesta na missa. Sebastião voltou. Vesta e Hermano não se viam mais. O fogo enfeitiça a gente. O calor. O estalar constante e sinfônico. O cheiro quente. A cinza. A fumaça. Vesta não gostava de sair de casa. Não conseguia mexer os braços. Como é que Vesta ia servir o aluá? Varrer o terreiro? Receber as pessoas? “Sebastião voltou!” Gritava Vesta enquanto ia. Vesta não gostava de sair de casa. Ela sempre ficava doente. Foi pro hospital. Ela não conseguia mexer os braços. Tentava as pernas... Vesta sempre ficava doente quando saia de casa. Vesta tem que ficar em casa, na fogueira, na noite, na beira da estrada. Fora de casa, Vesta ficava doente. Sozinha. Desamparada. Sebastião. Vesta. Solidão. Hermano casou-se com outra. Ninguém mais falava de Vesta. A casa de Vesta não tinha ninguém. Ela não tinha pai pra olhá-la. Não tinha mãe pra banhá-la. Não tinha filho pra chorá-la. O fogo enfeitiça a gente.

A noite acabou, terminou. Vicente acordou cedo. Já ia pra roça. Viu o romance aberto na última página. Fechou. Colocou na cangaia. Vicente foi pra roça. De noite ele ia acender seu candeeiro, reescrever seu romance...

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Mini-biogradia do autor
Harlon Homem de Lacerda Sousa é Mestre em Letras formado em 2009 pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB; graduado, em 2005, no curso de Letras da Universidade Regional do Cariri – URCA. Atualmente, é professor substituto junto a Departamento de Línguas e Literatura – DLL-URCA ministrando as diciplinas: Teoria da Literatura e Literatura Popular (cordel). Dedica-se ao estudo de teoria da literatura e literatura brasileira, focado principalmente na teoria dos gêneros literários e na concepção de mímesis além de dedicar-se ao estudo da obra literária e musical do cantor e compositor e romancista e dramaturgo Chico Buarque de Hollanda. Mora na cidade de Juazeiro do Norte desde 1987, período interrompido pelos dois anos que morou na cidade de João Pessoa na Paraíba.

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Créditos da imagem: Olhares.com
olhar a luz de vela, por Cristiano Rivolta

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