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Canto Paralelo: a voz autoral e a 'verdade' do texto





Artigo para a seção Escrita Criativa, por Carolina Bernardes.


Nas oficinas de Escrita Criativa que ofereço, dedico sempre a segunda parte da aula para a produção de textos. Aqui, em nossa oficina virtual Benfazeja, apesar de procurar estabelecer o diálogo com os seguidores da coluna, eu ainda não havia proporcionado ao leitor a oportunidade de enviar seus exercícios. No artigo anterior - Relaçõesfamiliares na escrita literária: da assimilação à recriação – deixei a seguinte proposta:


Agora proponho ao leitor desta coluna o exercício de criar uma paródia. Paródia significa “canto paralelo”, incorporando a idéia de uma canção cantada ao lado de outra, uma espécie de contracanto. É uma escrita transgressora, que transforma o texto original: articula-se sobre ele, reestrutura-o, mas ao mesmo tempo introduz um movimento de negação. “Na paródia, a fusão de vozes é impossível, pois elas provêm de mundos diferentes; elas se fazem ouvir numa leitura polifônica”. (FÁVERO, 1994) Isso significa que se mantém o texto do autor escolhido lado a lado com o que será escrito, sem que se perca a identidade de cada um. Escolha um autor, um texto e produza seu “canto paralelo”. Se gostar da tentativa e quiser compartilhar, envie seu texto para nós do Benfazeja.


Assim como em um curso presencial, os “alunos” produziram seus textos e me enviaram para análise. Essa oportunidade de compartilhar suas produções não é tão-somente interessante para quem as escreveu, mas para a autora desta coluna é um grande indicativo da repercussão deste trabalho e para conhecer mais de perto os leitores. Acredito que, para os leitores em geral, seja também interessante participar da construção da criatividade.

Dois “cantos paralelos” foram selecionados para publicação neste artigo. Antes, porém, retomo a discussão teórica sobre paródia. Uma das finalidades da seção de Escrita Criativa é incentivar no leitor o surgimento/desenvolvimento de sua voz autoral. Já foi dito por aqui inúmeras vezes que essa voz não é individual, única, exclusiva, e sim uma formação coletiva, produto da cultura, da história, da linguagem que precede o surgimento de qualquer indivíduo, de forças externas associadas a forças internas. É por este amálgama que se constitui a voz autoral.

A primeira proposta de prática de escrita dirigida efetivamente ao leitor é um desafio à descoberta ou criação dessa voz autoral. A Paródia é um efeito de linguagem antigo, amplamente utilizado pelos modernistas e pelos autores contemporâneos, por ser uma maneira diferente de ler o convencional, o que foi recalcado, os não-ditos do texto original. É como o filho rebelde dessas relações familiares, que deseja contestar o pai, desafia e rompe com as normas da casa, “jogando na cara” o que outros familiares não tiveram coragem até então. O filho rebelde inverte os valores, exagera detalhes, busca a diferença para ir além do pai. Dessa maneira, assume sua voz crítica e autoral. Isso não quer dizer, porém, que para crescer e fazer nascer sua voz, o filho precise desafiar a família e romper com todos os padrões e regras; ou seja, para ser escritor, não é necessário escrever paródias. Ela deve ser entendida como um recurso criativo e eficaz no processo de descoberta da voz autoral (o que não ocorre com o plágio, extremo oposto que desautoriza, esvazia e nulifica a voz de autor).




Para ir mais além, a paródia pode ser compreendida não só como a atitude corajosa e audaciosa daquele que reivindica sua voz, confrontando a voz do outro, mas inclusive o anseio pela “verdade”. Explico: quando se lê um poema ou narrativa com extrema admiração e deleite, e em seguida se guarda aquele encanto sem qualquer novo movimento, não estaria o leitor perdendo a possibilidade de escavar as verdades do texto? Aceitar e concordar com os primeiros efeitos que um texto causa é se deixar enganar, é acreditar inocentemente que a verdade do texto está dita e explícita. A única maneira de se aproximar da “verdade” do texto é estar preparado para ler todos os artifícios que nele subsistem. Dar vida a um canto paralelo é, em primeira instância, a rebeldia e a vontade de ir além; mas é, sobretudo, o respeito pela verdade do texto, escavando suas origens, torcendo suas entranhas, fazendo brotar dele outras possibilidades de canto. Falaremos mais a respeito da leitura e de como a teoria literária pode ser útil e necessária no trabalho de escrita criativa. Fiquem agora com as paródias selecionadas:


Inquilino da Notre-Dame
(José Eron Lucas Nunes)

"Espero que este singelo miniconto não seja motivo de perturbação ou desconforto ao grande Victor-Marie Hugo no seu leito de descanso eterno."


Apesar de residir em uma das mais belas catedrais da Europa e de gozar da proteção do arquidiácono Dom Claude Frollo, Quasímodo não é nem um pouco feliz. Apesar daquela horrenda corcunda, ainda tem um resto de esperança de vencer Dom Claude na conquista da linda cigana Esmeralda. Quando ela manifesta seu amor por Phoebus, ele se desespera e pede para morrer. Chega daquele arremedo de vida. Tudo que queria era ser bonito, querido, admirado... Então, é atendido. Morre e reencarna em um lindo touro zebu, daqueles de raça apurada, cujo único trabalho na vida, é ver-lhe retirado o sêmen para fecundações mil, de resto, é só viver de exposição em exposição, comendo das melhores rações e sendo paparicado por todos.





Basta de dores
(Nélida Nunes Conter Cardoso)
Paródia da música 'Bastidores' de Chico Buarque


Chutei,chutei, até ficar no pó carmim
E me destranquei do armarim
Tomei um excitante
Um instigante e um melado de aipim

Abençoei a noite em que me revivi
Com poucos panos me cobri
Depois me penteei,me pintei, me penteei, me pintei

Dancei,dancei
Como é increu dançar festim
E um ilustre rapagão
Me viu pelo salão
A se espalhar de mim

Não me importei
Voltei correndo ao nosso bar
Voltei pra te comunicar

Que nunca mais vou mudar, vou voltar, vou mudar

Dancei,dancei
Nem sei como eu dançava assim
Só sei que o dono do chevrolé
Me apoiou com fé quando cheguei enfim

Me abduzi
Voltei correndo ao nosso bar
Voltei pra te reiterar
Que nunca mais vou mudar, vou voltar, vou mudar
Dancei,dancei
Jamais dancei com tão brilho assim
E os homens cá mentindo vis
Lúcidos e infeliz a censurar de mim
Choquei, choquei até ficar no pó carmim.

*
Crédito da primeira imagem: Caminhos Paralelos Descruzados, por Bruno Pereira

2 comentários:

  1. Prezada Carolina, boa noite!
    Fico feliz e humildemente envaidecido com a publicação do meu miniconto na sua prestigiada coluna. Aproveito para parabenizar a outra autora publicada, Nélida Cardoso. Seus artigos são maravilhosos e me conduzem de volta ao mágico período da minha vida quando estudante da faculdade de letras.
    Um ótimo domingo.

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  2. Carolina, parabéns pelos seus artigos. Li alguns de uma só vez e estou inclinada a ler outros e outros e outros. Muito bons, parabéns. E obrigada.
    Abraço
    Deanna

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